Paulo Coelho: “‘Ulysses’ fez mal à literatura”

Paulo Coelho em biblioteca em Praga em 2009
Paulo Coelho em biblioteca em Praga em 2009

Rodrigo Levino, na Folha de S.Paulo

“Você sabia que eu sou mago?”, pergunta Paulo Coelho, em francês, a um amigo que o visita na Suíça, onde vive. “Mago das letras!”, responde rindo o interlocutor.

“Está vendo? Fora do Brasil ninguém sabe dessa história”, retruca o escritor em entrevista à Folha, por telefone.

É que o autor brasileiro de maior sucesso internacional, agora lançando “Manuscrito Encontrado em Accra” (Sextante), seu 22º romance, se reinventou.

Aos poucos, a aura mística que atribuía a si e o epíteto de mago foram deixados de lado. Hoje ele veste as roupas da modernidade e do pragmatismo.

Consagrado por 140 milhões de livros vendidos em 160 países e traduzido em 73 línguas, Paulo Coelho defende a livre circulação dos seus livros, pirateados ou a preços baixíssimos, e, conectado praticamente o dia inteiro, se tornou um militante digital e suprimiu qualquer tipo de atravessador. É ele quem fala com o seu público.

“O Twitter é o meu bar. Sento no balcão e fico ouvindo as conversas, puxando papo, sentindo o clima”, diz ele, que logo mais deve alcançar 15 milhões de seguidores em redes sociais.

A interlocução facilitada com os leitores o fez se abster de sessões de autógrafos e viagens de divulgação.

“Agora, só aceito ir a lugares curiosos. Semana que vem vou ao Azerbaijão. Chega de hotéis”, se gaba.

Mas não só disso. Segundo ele, ser lido de Nova York a Caruaru (PE) e Ulan Bator, na Mongólia, se deve ao fato de ser um autor moderno, de literatura globalizada, a despeito do que diga a crítica.

“Houve um tempo em que era possível aos críticos destruírem um filme ou um livro e isso tinha reflexo direto no público. Hoje essa relação se horizontalizou, o que vale é o boca a boca”, diz.
Sobre o tal modernismo de sua escrita, Coelho diz não ter a ver com estilo ou experimentações de narrativa.

“Sou moderno porque faço o difícil parecer simples e, assim, me comunico com o mundo inteiro.”

CULPA DE JOYCE

Para ele, escritores caíram em desgraça ao perseguirem o reconhecimento pela forma e não pelo conteúdo.

“Os autores hoje querem impressionar seus pares”, opina. E aponta em seguida o culpado: “Um dos livros que fez esse mal à humanidade foi ‘Ulysses’ [clássico de James Joyce], que é só estilo. Não tem nada ali. Se você disseca ‘Ulysses’, dá um tuíte”, provoca.

A acessibilidade pregada por ele dá o tom também em “Manuscrito”, o primeiro livro que escreveu desde o susto que tomou em 2011, quando ouviu de seu médico que, por causa de um problema cardiológico, teria apenas 30 dias de vida. “Perdi o chão”.

Sobreviveu para contar a história de uma Jerusalém sitiada, prestes a ser tomada por cruzados. Trocando em miúdos, uma reflexão com forte tom religioso sobre a iminência do fim. Sem ligações autobiográficas, garante.

“A única referência que faço no livro ao que passei é quando digo que recebi o manuscrito em questão no dia 30 de novembro, que foi a data da minha cirurgia. De resto, é um livro como qualquer outro meu”, conta ele, que escreve um desses a cada dois anos e sempre de uma vez só.

Entre uma coisa e outra, diz que se dá “ao luxo de ter tempo”. Tempo para se informar a respeito de tudo. Do julgamento do mensalão às intrigas sobre os autores brasileiros selecionados pela revista “Granta” (Alfaguara).

Lista sobre a qual ele diz não ter interesse. “Não faz parte do meu mundo. Gosto de autores como Eduardo Spohr [autor de ‘A Batalha do Apocalipse’]”.

Spohr é uma das estrelas da “Geração Subzero” (Record), coletânea de autores que se julgam negligenciados pela crítica, contraponto à “Granta”. É nesse oposto que Coelho se sente à vontade e para quem pretende continuar escrevendo até morrer. “Depois disso, nada meu será publicado.” Tem medo de que haja disputa por direitos autorais entre herdeiros ou, pior, publiquem obras sem a sua autorização. “Aconteceu com Nabokov. Isso é um horror.”

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