Caminhos cruzados

Marina Silva

Vêm de minha infância as primeiras notícias da América do Norte e da Europa, graças a meu pai, convocado na Segunda Guerra para servir numa importante frente de batalha. Nela encontrou ferro, fogo e fumaça, produzindo a borracha para os exércitos aliados.

Em completo esquecimento, tantos bravos combatentes ajudaram a vencer a tirania, mas não tinham como levantar a bandeira branca da paz nas trincheiras da injustiça em que ficaram aprisionados depois da guerra, nos ermos da Amazônia, para onde haviam sido levados com promessas de paz e prosperidade.

Meu pai procurava todos os dias notícias em seu pequeno e precioso rádio de pilha, ansioso por mudanças no preço da borracha. Ouvia a Voz do Brasil, a Voz da América e a BBC de Londres, mas o mágico ponteiro passava ainda pela Tirana de Moscou e até, eventualmente, pela Havana de Cuba.

Por anos, vi meu pai em sua busca, todos os dias, até que, nos tensos anos 70 e 80, a frente de batalha em que havia ficado prisioneiro, os seringais nativos da antiga empresa extrativista, foi vendida para outros comandantes, dispostos a empreender ali uma nova guerra.

A venda foi feita de forma ágil e competente, com direito a todo o aparato de combate: terra, animais e árvores, rios e igarapés, excluídos apenas os antigos combatentes, homens, crianças e mulheres, com pouco tempo para desocupar o forte sob a mira dos jagunços, que invadiram o novo front da Amazônia, mercenários peritos em mortes por encomenda.

Assim, um tempo difícil foi seguido por outro mais difícil, que, mesmo com algumas conquistas, ainda não superamos.

Toda essa história estava ali comigo, ao chegar perto do gigante Muhammad Ali, na abertura da Olimpíada. Com enorme esforço físico, mas com leveza em sua alma de bailarino dos ringues, ele tocou a bandeira com os cinco anéis simbolizando os continentes que nos separam e nos mantêm unidos, arrodeados pelos oceanos da história humana que em nós se faz.

Vi aquele grande homem cercado de ternura, assim como vejo meu combatente velho pai, não em sua busca por notícias de socorro para as feridas da guerra, mas sendo ele próprio parte da notícia de um permanente compromisso com uma cultura de paz.

Agradeço a Deus e a todos que me deram a oportunidade de caminhar entre os que trabalham pela justiça, pela aceitação das diferenças, pelo compromisso de paz e pela preservação do planeta. Ali fomos chamados de profetas em nossa terra comum, os que trazem notícias de um futuro possível.

Fui a uma igreja antiga, de tradição anglicana, orar para agradecer as dádivas. Ao sair, vi que estava quase em frente à sede da BBC, a mesma emissora que meu pai ouvia na floresta. São belos e sinuosos os caminhos deste mundo.

via Folha de S.Paulo

foto: Reuters

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