Sobre envelhecimento

Imagem: Google

Yvonne Maggie, no G1

Chega o dia da aposentadoria e são inúmeras as pessoas que me falam sobre o medo de não terem mais o que fazer. Faltam apenas dois anos para minha aposentadoria compulsória. Assim, não terei opção. Mas o meu medo não é esse que aflige meus amigos. Meu medo mesmo é o medo do fim, ou melhor, a consciência absoluta de que a vida passa, e há começo, meio e fim. Antes não pensava sobre isso. Na juventude, tendo ficado órfã de mãe aos 12 e de pai aos 15, sem adultos ou mais velhos para me regular, a vida era feita de patamares e o patamar da velhice não existia para mim. Era o patamar dos outros. Os jovens viviam em um patamar distinto, e para sempre.

Ando meio desligada. O que sinto parecem emoções de alguém apaixonada, uma sensação de estar simplesmente solta no espaço. Aprendi bem cedo que “a coroa do rei não é de ouro nem de prata, eu também já usei e sei que ela é de lata”. O poder, as vitórias e as derrotas não me assustam, portanto. Aprendi bem cedo o que é a dor de perder um ente querido. Aprendi, bem mais tarde, a máxima revelada pelo grande antropólogo Roberto DaMatta que, em um de seus artigos do jornal O Globo, citou uma amiga – “Envelhecer não é pra mariquinhas!”. Tem de ser macho. Aguentar o tranco. Saber que não há apelação porque a vida tem começo, meio e fim. Aprendi cedo que a vida é curta, mas nunca ninguém havia me ensinado como é difícil o envelhecimento.

A vida é feita de passagens marcadas por rituais, como nos ensinou Van Gennep no seu importantíssimo Ritos de passagem. No entanto, a velhice na nossa sociedade é uma virada tenebrosa. Não há um momento certo para chegar e, menos ainda, rituais que mostrem a alegria da nova vida e a tristeza com a perda daquela que findou. Se da infância à adolescência os sinais são bem visíveis e todos passamos por eles, mais ou menos na mesma idade, em rituais elaborados que descrevem a nova etapa, e da adolescência à maturidade há marcas sociais bem claras que mostram o novo tempo, da maturidade à velhice as fronteiras são menos delimitadas e para cada um há uma data, um dia, uma sensação que inexoravelmente coloca a pessoa na condição de velho. A velhice chega mais cedo para uns do que para outros.

Mas o que é que faz a gente se sentir assim, solta no ar quando vai ficando velha? Só um “botoxizinho” não faz mal a ninguém, mas não esconde o que vai dentro da alma dos que ultrapassam a linha da velhice. O olhar dos outros, o andar mais vagaroso, o fato de saber que mesmo não se sentindo velha, vai ser vista assim, apesar do botox?

Com tudo isso, no entanto, repito aqui uma frase que me foi dita por uma amiga bem mais velha do que eu. Minha sogra Hymirene Papi de Guimaraens mantém a biblioteca da casa especialmente arrumada. Organiza tudo: papéis, cartas, manuscritos, mas sobretudo livros. Cola aqueles que se despencam pelo uso, de um jeito artesanal e inventado por ela ao longo de sua vida. Colou tão bem meu dicionário Houaiss que até hoje me espanto quando olho para a estante e lá está ele, com aquele ar totalmente particular, a lombada feita de um retalho que sobrou de alguma roupa velha. Um dia Hymirene, com suas mãos ágeis e velozes, como até hoje nos seus 89 anos, colava alguns. Vendo-me contemplando-a admirada , tão lépida aos 80, e tão ágil com mãos que pareciam voar, comentou calmamente: “Acho que quando ficar velha ainda vou colar livros”!!!

Outro dia me peguei pensando nessa mesma linha. Quando ficar velha ainda terei muito o que fazer. Minhas atividades serão tantas que continuarão não cabendo em nenhuma agenda que, verdade seja dita, nunca fui capaz de usar com muita precisão. Coisas demais!!!

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