Sobre sombras e luzes

Ricardo Gondim

Dizem que Oscar Niemeyer projetou a Catedral de Brasília como metáfora em cimento, ferro e areia do Salmo 23. Ao contrário de outras igrejas, a entrada desce, escura. É vale de sombra e de morte. A vereda, entretanto, chega ao amplo e luminoso espaço, onde se encontra Deus. Salmo e catedral descrevem a vida de muitos, que declina e escurece. Sempre existe alguém que sente o caminho, já estreito, rebaixar e afunilar. As poucas luzes atrapalham os passos. Descer desfalece. Quando falta ânimo, a alma mostra sinais de fadiga e pede “um pouco mais de calma”.

Na última metade dos meus cinquenta anos, experimentei dias assim, amargos e tristes. Até o organismo absorveu o abatimento da alma. Sempre me gabei de ser um bom dorminhoco. Mas, sem saber como, comecei a acordar entre três e quatro da madrugada. Para contornar a insônia, passei a repetir uma litania. Feito vitrola quando engancha a agulha, cheguei a dizer 300 vezes (fui metódico em contar): “Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim”. Essas noites eram meu vale da sombra da morte.

Andar em veredas escuras deixa a gente meio chorão. Agora, porém, na maturidade, noto que aumentaram os prantos. Qualquer bobagem dispara algum gatilho, e  começo a tremer o queixo. Na madrugada do primeiro de abril, aniversário do golpe militar que prendeu papai, chorei convulsivamente. Com emoções à flor da pele, não aguentei a lembrança da adolescência, dos avós, do velho bangalô que nos abrigou em Fortaleza. De novo varei a noite e sequer a minha litania serviu para acalmar.

Veredas escuras também pedem terapia. Perdi o medo religioso e procurei um terapeuta. Eu necessitava desabafar detalhes sobre o que espetava a alma em um ambiente desprovido das culpas religiosas. Certo dia, comecei a sessão assim: – Doutor, quero que o mundo pare, preciso descer. Dr. Marcos coçou o cavanhaque e sussurrou, quase inaudível: — Não precisa parar o mundo todo. Por que não parar algumas coisas e descer delas? Com olhar de menino que acaba de aprender a somar, restou-me sorrir e dizer: -É…

Que lição! Eu só precisava parar alguns carrosséis e descer deles. Prestei atenção a certas luzes vermelhas que vinham piscando. E antes que a máquina pifasse, comecei a puxar alavancas.

Desacelerar pode não ser questão de escolha, apenas de sobrevivência. A sombra da morte se projeta no caminho de todos. E a modinha portuguesa avisa: “A vida é curta, e acaba”. No caminho sombrio, procuremos a mão de outros viajores, mesmo desconhecidos, e prossigamos. Nenhuma noite é eterna. Logo adiante, brilha o clarão da grande Catedral.

Nos vales tenebrosos, exoneremo-nos dos ambientes asfixiantes. Rasguemos as gazes mal cheirosas que tentam esconder antigos ressentimentos. Cuidemos de cicatrizar feridas emocionais. Batamos o pó da sandália, não como vingança, para ser livres. Conjuguemos o verbo agradecer.

Na solidão do caminho, procuremos joeirar na poesia, literatura e filosofia uma teopoética que nos encha de beleza. Na era do individualismo, se não há como fugir de nos considerarmos ilhas, nos vejamos como arquipélagos. Busquemos serenidade para perfumar a escrita com doçura. Antes ser santo que herói.

Deixemos de lado o receio de repetir o chavão: “hoje é o primeiro dia do resto de nossa vida”. É tarde demais para desistir do caminho. Sobranceiros, identifiquemos o que nos esmaga contra o pó.

A minha vida, eu a vivo em círculos crescentes
sobre as coisas, alto no ar
Não completarei o último, provavelmente,
Mesmo assim, irei tentar.

Giro à volta de Deus, a torre das idades,
e giro há milênios, tantos…
Não sei ainda o que sou, falcão, tempestade
ou um grande, um grande canto.

(Rainer Maria Rilke)

Soli Deo Gloria

fonte: blog do Ricardo Gondim

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