Eles moram sozinhos e estão transformando nossas cidades

O número de pessoas que vivem só cresceu 80% nos últimos anos. Elas frequentam mais bares, restaurantes e espaços públicos e estão ajudando a revitalizar a vida urbana

Eduardo Linhares mora sozinho, mas vive mesmo é na rua // Créditos: Sergio Zacchi

Pensar em quem vive sozinho como um solitário ficou no passado. não dividir a casa com mais ninguém é uma escolha e símbolo de liberdade e independência para muitos moradores de grandes centros urbanos. são pessoas que podem pagar as próprias contas e querem um lar para chamar de seu, sem se submeter às vontades e opiniões dos outros. nesta busca pela individualidade, elas acabam transformando muito mais do que si mesmas, mas também o entorno em que vivem. a maioria dos que moram sós hoje — e já são mais de 270 milhões de pessoas no mundo — passa mais tempo na rua, frequenta bares, restaurantes e espaços públicos. Assim, eles trazem mais vida para as cidades, em uma tendência que só cresce.

Entre 1996 e 2011, o número de pessoas que vive só no mundo todo foi de 153 milhões para 277 milhões, um aumento de 80%, segundo dados do instituto de pesquisas Euromonitor International. No Brasil, a quantidade de lares com um único morador triplicou nas últimas 3 décadas, chegando a 6,9 milhões. Esse fenômeno tem diversas razões: o aumento do poder aquisitivo, que leva mais gente a não precisar dividir as contas; a fragilidade de instituições tradicionais, como o emprego e o casamento, que fazem as pessoas investirem mais em si e buscarem mais tempo e espaço para isso; e a expansão da internet e das redes sociais, que permitem estar conectado aos amigos e familiares mesmo quando se está — a sós — jogado no sofá de casa.

Mas são as consequências de cada vez mais gente vivendo na própria companhia é que prometem uma revolução. “A tendência de morar sozinho muda a forma como entendemos a nós mesmos e nossas relações mais íntimas, mas também molda nossas cidades e economias”, afirma Eric Klinenberg, sociólogo da Universidade de Nova York e autor do recente livro Going Solo: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone (Vida Solo: O Extraordinário Crescimento e o Apelo Surpreendente de se Viver Só, ainda sem edição no Brasil). A publicação é resultado de uma pesquisa de 10 anos em que o sociólogo entrevistou 300 pessoas que viviam sozinhas e analisou dados para traçar os padrões de comportamento de quem mora só. A principal conclusão de Klinenberg é que viver sem mais ninguém, na verdade, estimula a interação social.

Kareen Sayuri não quer salvar o mundo, mas deixa na sala a bike que usa para ir trabalhar // Créditos: Sergio Zacchi

Um levantamento feito por Erin Cornwell, professora de sociologia da Universidade de Cornell, nos EUA, mostrou que, comparados aos casados, os solteiros passam mais tempo com amigos e vizinhos. Outro estudo, desta vez britânico, revelou que eles vão mais a restaurantes: 45% sai para jantar ao menos uma vez por semana, contra 27% dos casados. Quem mora em apartamentos pequenos também tende a comer mais fora. Hábitos que beneficiam até quem vive acompanhado. “A energia que esses ‘solitários’ trazem para a cidade suporta nossa vida coletiva.”


O mundo é dos solteiros

O DJ e empresário Eduardo Linhares, 27 anos, é um desses paulistanos que consegue curtir as opções que a cidade — onde mais de 500 mil pessoas vivem sozinhas — tem a oferecer. Desde os 18 anos, ele mora só, atualmente em um apartamento no Jardim Paulistano, zona oeste da cidade. A comodidade de ter seu próprio espaço foi o que o motivou a não dividir as contas. “É um contraponto à minha vida corrida. Quando chego aqui quero aproveitar o sossego”, diz. Mas o fato é que Eduardo passa bem mais tempo fora de casa, não só por conta de seu trabalho, mas pela vida social. “Sou frequentador assíduo de restaurantes, bares, teatro, festas e eventos”, diz. Ele come fora todo dia, um luxo que quem sustenta uma família, muitas vezes, não pode se dar. Para se ter ideia, casais americanos que têm filhos já fora de casa não apenas frequentam mais restaurantes, como pagam uma conta, em média, 65% mais cara.

Em cidades como Nova York (onde há 1,1 milhão de pessoas morando sozinhas, record mundial) e Paris (em que metade das casas só tem um habitante), são estes solteiros que ajudam a movimentar as calçadas e estabelecimentos comerciais. Na Cidade Luz, a onda dos neobistrôs, versões dos clássicos restaurantes parisienses, porém com preços mais acessíveis e localização menos glamurosa, tem ajudado a revitalizar bairros como Belleville e a região da Bastilha. O movimento tornou-se forte graças a jovens que vivem sozinhos e comem fora com frequência. “Eles são atraídos pelos baixos aluguéis. Aos poucos, a vanguarda e criatividade que levam dão vida a essas áreas, transformando-as em lugares agradáveis de morar”, diz o italiano Carlo Petrini, fundador do movimento gastronômico Slow Food. Esses parisienses e agregados só queriam viver e comer por menos, mas acabaram mudando regiões da cidade. Assim, distraídos, quase sem intenção, é que muitos dos que moram sozinhos estão fortalecendo a vida urbana.

Distraídos transformaremos

Foi em busca de liberdade que a designer paulista Kareen Sayuri, 26 anos, alugou seu próprio lar há 3 anos. Ela já havia dividido o apartamento com o namorado, mas foi sozinha que conseguiu deixar o espaço de seu jeito. “Tudo aqui em casa tem a minha cara”, diz Kareen, que tem dois gatos, uma bicicleta na sala e cultiva temperos. “Gosto dos meus momentos solitários, de cozinhar para mim, ficar até tarde ouvindo música e arrumando qualquer coisa em casa.”

Em meio às demandas por interação social no trabalho e no cotidiano, ter momentos de introspecção é uma necessidade para muitos. “Quando vivemos em sociedade é que percebemos que também somos uma célula independente. Por isso, quem mora em aglomerados urbanos tende a se isolar em busca de liberdade”, afirma o sociólogo Sérgio Lage Carvalho, autor de uma tese sobre solidão e modernidade.

Fernando Okumura criou o Kekanto, guia virtual de bares, baladas e serviçoes em SP // Créditos: Sergio Zacchi

Ao viver de acordo com os próprios preceitos, muita gente acaba contribuindo para o bem comum. Kareen, por exemplo, usa a bike estacionada na sala para ir ao trabalho. Ela não comprou a magrela para salvar o planeta ou desafogar o trânsito, mas para evitar ônibus e metrô lotado. Pensando em seu bem-estar, ela trouxe benefícios para a cidade. É o que o sociólogo e professor emérito da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Robert Bellah chama de “individualismo utilitário”, a ideia de que a sociedade floresce quando cada pessoa persegue suas vontades em primeiro lugar. “É da somatória de interesses pessoais que surge o coletivismo.”

Para facilitar o estilo de vida urbano e social, os que moram sozinhos têm suas exigências. “Eles buscam localização e comodidade: lojas, serviços, transportes públicos. Regiões próximas de zonas comerciais ou de áreas de escritórios são as preferidas”, afirma Sérgio Canton, da Associação Brasileira do Mercado Imobiliário (ABMI). Eles priorizam morar perto do trabalho, usar transporte alternativo e fortalecer o comércio local. Por estarem mais nas ruas, também fazem com que as cidades precisem de mais infraestrutura e espaços públicos cuidados. Efeitos colaterais de viver, de fato, a urbes. Neste sentido, a tecnologia também pode contribuir.

Tudo conectado

Quem mora sem mais ninguém acaba criando uma rede maior de relações, pessoais e profissionais, para amenizar a sensação de alienação que se poderia sentir em casa. A tecnologia tem importante papel nisso. “A febre dos SMS e dos mensageiros automáticos, como o BBM ou o Whatsapp, são prova dessa busca das pessoas de se isolarem, mas sem, de fato, deixar de estarem ligadas”, afirma Susan Cain, autora do livro O Poder dos Quietos, recém-lançado no Brasil. Pelo contrário. Ficar grudado no smartphone pode fazer as pessoas estarem mais nas ruas. Uma pesquisa do Instituto Pew com cerca de 2.500 americanos mostrou que os que estão sempre conectados, além de ter uma rede de relacionamento mais diversificada, são mais propensos a frequentar parques, cafés e restaurantes. Pois a tecnologia vem facilitando, e muito, a vida social offline.

O Fousquare é o mais clássico app que faz a ponte entre o smartphone e a vida urbana, com seus check ins e resenhas de restaurantes, bares e parques. Mas não o único. Vivendo sozinho desde os 18 anos, o empresário paulista Fernando Okumura, 34, que estudou na Universidade Stanford, no Vale do Silício, sempre sentiu necessidade de socializar — para não virar um ermitão em seu belo apartamento. A vontade era tanta que ele acabou criando o maior guia colaborativo da América Latina, o Kekanto, hoje já presente na Argentina, Chile, México e Portugal. A plataforma online reúne dicas de pessoas comuns sobre restaurantes, baladas e também lavanderias e sapateiros. “Ajudamos quem mora sozinho a encontrar bons provedores dos serviços que, na casa dos pais, eram de graça, como lavar roupa ou fazer faxina.”

O guia é também uma maneira de conectar pessoas com interesses similares e ajudá-las a criar novos círculos sociais. Muito válido, desde que essas relações se estendam para a vida real. “A internet preenche uma necessidade básica de envolvimento humano, mas não substitui os encontros cotidianos nas cidades, como o diálogo com o cobrador de ônibus ou a atendente da padaria”, diz Carvalho.

São as conversas fiadas na parada do metrô, o papo no boteco e tantos outros pequenos encontros em nosso dia a dia que dão mais vida às nossas cidades. Quem mora sozinho e sai à noite para ver gente na rua, ou fica com preguiça de cozinhar e acaba se tornando frequentador assíduo do restaurante do bairro, contribui para esse movimento contínuo que faz das metrópoles lugares mais humanos e agradáveis de se viver. Um benefício, esse sim, tamanho família.

Rafael Tonon, na Revista Galileu

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