Tirando o mofo

Fabricio Cunha

Eram duas, as moças sentadas na minha frente na volta de Goiânia. Eu estava especialmente sensível. Estivera falando sobre a vida, numa comunidade pequena, periférica, barulhenta e vibrante, cheia de alegria.

Faço isso sempre (quando alguém diz que faz “sempre a mesma coisa”, é porque já não vê graça no que faz), mas dessa vez foi diferente. Trataram-me com muito carinho e ofereceram-me o seu melhor em tudo. Devo voltar lá um dia.

Mas voltemos às moças.

Elas faziam a sua primeira viagem de avião. De vez em quando, eu viajo perto de alguém cuja “virgindade aérea” está sendo perdida. E como pressupõe toda perda de virgindade, elas estavam excitadas. Observavam tudo, deitavam suas poltronas fora de hora, apertavam todos os botões (na terceira vez, um comissário chato chamou a atenção delas), deram as mãos na decolagem, olharam e comentaram cada detalhe da geografia que viam se formando sob seus olhos deslumbrados, repetiram o lanche (e eu vi que guardaram o bolinho de chocolate na bolsa). O cúmulo foi irem juntas ao banheiro.

Me constrangi por elas.

Já andei muito de avião. Sei que não devo baixar a poltrona antes da luzinha do cinto ser apagada. Sei esconder o celular ligado enquanto atualizo o twitter pela última vez, com o avião já decolando. Sei que só devo baixar a mesinha, na hora em que os comissários estão próximos. E durmo até em ponte aérea, afinal, ver o que lá embaixo? É tudo igual, feito casinha de formiga.

Perdi o “tesão” pelo novo. Já perdi essa “virgindade” faz tempo. E como isso é ruim. A gente se familiariza com as coisas rápido demais e perde de se alumbrar com o novo, que está sempre gritando em volta.

A familiaridade cega. A mesmice mofa o coração e aí sai mofando tudo em volta.

Não dormi nessa viagem. Li um capítulo do Caio, comi o lanche sentindo o gosto, repeti a Coca-Cola, olhei pela janelinha quando o Comandante avisou que sobrevoávamos o São Francisco. Olha só… Vi o “velho Chico” bem debaixo de mim. Que visão mais linda, imponente e inesquecível. Um presente.

Tirei um pouco do mofo que cobria meu coração e inebriava meus olhos.

Não imagino o nome das moças, mas me fizeram um bem danado. Do seu jeito atabalhoado e sem protocolo, me devolveram ali, naquele voozinho rápido, a vontade de vibrar pelo novo e de me rebelar contra qualquer amarra da mesmice travestida de etiqueta, que tira de mim a vontade de me encontrar com o que ainda não vi e de ser o que ainda não fui e de fazer o que ainda não fiz e de experimentar aquela tal de “novidade de vida”.

Acho que nunca mais vou vê-las, meninas mas, obrigado. Mesmo!

Que a viagem debutante seja inesquecível.

fonte: Blog do Fabricio Cunha

foto: MPX Shop

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