Liberdade de escolha? Brasil é ouro em intolerância

Vôlei feminino após a conquista do ouro em Londres 2012. AFP PHOTO / KIRILL KUDRYAVTSEV

André Barcinski, no Pragmatismo Político

Liberdade religiosa só existe quando não se mistura religião a nada. Nem à política, nem à educação, nem à ciência e nem ao esporte

Já virou hábito: toda vez que um time ou uma seleção do Brasil ganha um título, os atletas interrompem a comemoração para abrir um círculo e rezar. Sempre diante das câmeras, claro.

O mesmo aconteceu sábado passado, quando a seleção feminina de vôlei conquistou espetacularmente o bicampeonato olímpico em cima da seleção norte-americana, que era favorita.

O Brasil é oficialmente laico desde 1891 e a Constituição prevê a liberdade de religião.

Será mesmo?

O que aconteceria se alguma jogadora da seleção de vôlei fosse budista? Ou mórmon? Ou umbandista? Ou agnóstica? Ou islâmica?

Alguém perguntou a todas as atletas e aos membros da comissão técnica se gostariam de rezar o “Pai Nosso”?

Ou será que alguns se sentiram compelidos a participar para não destoar da festa?

Será que essas manifestações públicas e encenadas, em vez de propagar o caráter multirreligioso do país, não o estão atrapalhando?

Claro que ninguém questiona a boa intenção das atletas. Mas o gesto da reza coletiva está tão arraigado, que ninguém pensa em seu real simbolismo e significado.

A questão não é opção religiosa, mas a liberdade de escolha. Qualquer pessoa pode acreditar no que quiser, contanto que deixe a outra livre para fazer o mesmo. Sem constrangimentos. E não é o que está acontecendo.

Liberdade religiosa só existe quando não se mistura religião a nada. Nem à política, nem à educação, nem à ciência e nem ao esporte.

Em 2010, a Fifa acertou ao proibir manifestações religiosas na Copa da África do Sul. A decisão foi tomada depois de a seleção brasileira ter rezado fervorosamente em campo depois da vitória na Copa das Confederações, um ano antes, o que provocou protestos de países como a Dinamarca.

Em 2014 e 2016, o Brasil vai sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. A CBF e o COL precisam tomar providências para que os eventos não se tornem festivais públicos de intolerância.

Atletas precisam entender que estão representando um país de religiosidade livre. Eles têm todo o direito de manifestar sua crença, mas não enquanto vestem uma camisa laica.

Claro que atitudes assim serão impopulares e gerarão protestos. Muita gente confunde a garantia da liberdade de opção religiosa com censura.

Quem disse que é fácil viver numa democracia?

Comentários

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7 Comentários

  1. Rafael disse:

    Quem está sendo intolerante é o autor, aliás cheio de contradições.
    Quem está sendo intolerante é a Fifa. Manifestar a fé não pode, mas fazer comercial de cerveja, por exemplo, pode?
    Será que ele perguntou às jogadoras se alguma delas se sentiu constrangida? Não precisaria citar nomes, claro.
    E qual seria o problema se 2 ou 3 não concordassem, mas aceitacem participar, em nome da maioria? Isso já foi visto em diversas rodas de “Pai nosso” no esporte, onde alguns ficam calados. Será uma coisa tão terrível permanecer na roda mesmo sem ser cristão?
    Os atletas representam o país laico, mas quem está lá são seres humanos, na sua integralidade, com suas características, opiniões, etc.
    Quem sabe num futuro próximo possamos substituir os atletas por máquinas, que não falam, não sentem e não se manifestam.
    De minha parte, achei muito bonito o que eles fizeram e ainda comentei “que façam isso enquanto puderem”.

  2. Rafael disse:

    Outra coisa: impressiona e preocupa o quanto se discute e se polemiza no Brasil questões como religião, aborto, casamento gay, Big Brother, seleção brasileira, etc, enquanto assuntos muito mais importantes são ignorados.
    Não que não se possa discutir essas questões, mas quem dera esse fervor todo fosse focado em discutir reforma política, tributária, desenvolvimento do país, etc.
    Os políticos devem estar adorando esse circo …

  3. MACLima disse:

    Eu havia escrito um texto gigantesco aqui, mas reli o artigo e vi que eu levei a coisa pra outro lado.

    Pergunto ao cidadão ou a quem quer que concorde com ele:
    – Se orar ao Deus cristão ou levantar as mãos aos céus é errado quando se está representando um estado laico, porque ofende a postura de todos os que não praticam a fé cristã, onde está o respeito à minha fé cristã quando tenho que aturar a enxurrada de palavrões que são ditos e claramente percebidos durante a partida e que ofendem claramente a minha postura cristã que sugere que não se encontrem palavras torpes em nossos lábios? Onde está o respeito aos brasileiros muçulmanos que agora, para ver seu país representado em um esporte, têm que ficar apreciando a figura das mulheres em trajes desrespeitosos à sua cultura religiosa?

    Alguns argumentos:
    a) Não dá pra controlar o ânimo e evitar que a pessoa solte um palavrão, tem que tolerar. R: Então tolere a manifestação de alegria delas. Não foi um evangelismo, foi uma oração, um agradecimento.
    b) Não dá pra jogar o esporte com burqa, assim como na natação e no atletismo. R: Então resolva se muçulmanos não podem assistir esportes femininos ou se eles tem que tolerar isso. Se tiverem que tolerar, tolere também quando eles fizerem seus intervalos, 5 vezes ao dia, onde estiverem para orar voltados a Meca.

    Intolerância é querer “hermetizar” o sentimento e as reações das pessoas. Uma oração coletiva no final de uma partida não é uma insurreição religiosa. É apenas uma constatação de que aquele grupo específico tinha maioria religiosa e liberdade para expressar seu credo. E fariam bem os não religiosos em ficar de pé ou tocarem seus afazeres naturalmente sem constrangimento. A propósito, não vi ninguém com armas na cabeça ou facas no pescoço ali ajoelhados.

    A propósito, ser laico significa não apoiar nem se opor a qualquer religião ou manifestações religiosas. Esterilidade religiosa é outra coisa.

    Mais uma: resolva a participação do Brasil na cerimônia de encerramento com uma Iemanjá cantando Bachianas nº 5.

    O Estado Brasileiro pode até ser laico, mas seus habitantes não o são. Ou aderem ou se ofendem com religião, são poucos os indiferentes. Durma com esse barulho.

  4. Digao Viana disse:

    Deve ter coisa mais importante pra se escrever nesse mundo, não?
    A vida do outro parece sempre mais importante que qualquer outra coisa.

  5. O artigo do Sr. André Barcinski, no Pragmatismo Político – é o discurso de filosofia tolerante-intolerante. É o modelo de sofisma. Laico para ele é a ausência da “religião”, pensamento dominante da maioria dos “militantes por um Estado Laico (Fundamentalista Laicista)”, etc…. – http://cultura-calvinista.blogspot.com

  6. Gladistone disse:

    Parece que o intolerante é você, sem citar nomes, cite se há de fato alguma jogadora “encenando”, só isso já justificaria seu artigo. Não duvido que haja ali alguém encenando, neste caso a errada é ela, eu particularmente acredito que se ela ficasse fora da “encenação” pouco seria notada, mas mesmo que notada, acho justo e respeitavel que ela defenda sua posição, simples assim, para o bem ou para o mal, temos que ser responsáveis pelas nossas escolhas e ajudar a melhorar o mundo defendendo nossas posições. Nada é fácil nessa vida meu caro.

  7. Malu Austin disse:

    Ai gente, eu fico com uma pena desse homem, que numa atitude tão linda de fé, não consegue enxergar nada de bom, só se incomodar com a presença de Deus nos outros. Vocês já assistiram o vídeo das jogadoras falando para a imprensa que foi por causa de uma música chamada “Ressucita-me” que elas sentiram que iriam ganhar o ouro, pois tiveram a presença de Deus que tocou cada uma delas? Deus não é invenção, é o que posso dizer a esse coitado desse homem que se incomoda com o que é bom. O problema não está nunca em Deus, mas sim nos homens. Um não querem vê-lo, outros dizem que o vêem para dominar outros homens, mas outros são felizes. O que ele acha q aconteceu só na frente das câmeras, já tinha acontecido no vestiário, e se a equipe toda de vôlei o fez na frente das câmeras, foi pq a equipe toda teve certeza a quem agradecer, e não esconder do mundo a alegria que é ter Deus na sua vida. Se houve alguém de outra religião lá pra ver, ótimo, pq elas não estavam tentando ofender ninguém, mas foi uma demonstração de quem é realmente o único Deus, que ouve as orações e toca de uma forma inexplicável. Elas não estavam tentando converter ninguém a uma religião, pq Deus não é religião. Religião é vc OBRIGAR a sua família toda a seguir algo q vc acredita, é vc dizer q não vai casar com aquela pessoa pq ela não é da mesma religião. Ninguém fala disso, né? Os religiosos. Os religiosos da época de Jesus o crucificaram. Já leram o que ele ensinou? Foi ruim a ponto de incomodar? Incomodar quem não vê a luz. Pra quem vê a luz, a alegria transborda. Os religiosos d antigüidade, usaram o nome de Deus para dominar os homens que não tinham acesso a Bíblia (que até era em latim pra não entenderem meeeesmo). Enfim, Deus não é religião, e quem consegue vê-lo no meio deste mundo sujo q vivemos desde q pecamos contra Deus, vive na luz e não precisa de encenação.

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