Meirelles filma histórias de culpa e desejo

Fernando Meirelles com Anthony Hopkins, uma das estrelas de “360”, que também traz Jude Law e Rachel Weisz; segundo o diretor, experiência o deixou mais seguro para dirigir qualquer tipo de ator

Marília César

As lentes sempre grandiloquentes de Fernando Meirelles escolheram desta vez focar na imensidão do coração humano. Com produção multinacional e elenco estelar (Anthony Hopkins, Jude Law, Rachel Weisz, Ben Foster e os brasileiros Maria Flor e Juliano Cazarré), “360”, que entra em cartaz na sexta, trata com delicadeza uma aflição comum: a eterna necessidade de conter o desejo, por questões de consciência.

São nove histórias de amor e relacionamentos que se intercalam, gravadas em várias cidades da Europa e dos Estados Unidos. A última delas retorna ao começo, completando um ciclo (360°) e, provavelmente, iniciando outro, o que remete a uma espiral.

Trabalhar com atores de tão diversas nacionalidades foi uma experiência singular, conta Meirelles. “Acho que hoje me sinto mais seguro para dirigir qualquer tipo de ator. Esse filme me ajudou a perceber isso.” Mas ele também revela, de um jeito divertido, aquela que considera sua fragilidade no set: “Sou meio banana, tendo a ficar com pena dos atores ou da equipe e às vezes não vou até onde poderia ir para não aborrecer todo mundo”.

Sua meta em “360”, afirma, era fazer um filme “pequeno e despretensioso”. Meirelles acredita, porém, que retratar as angústias da alma humana é trabalhar em algo tão nobre quanto escancarar a miséria de uma nação, como fez no premiado “Cidade de Deus” (2002), ou nos grandes temas de suas outras obras.

Valor: “Cidade de Deus”, “Jardineiro Fiel”, “Ensaio sobre a Cegueira” e agora “360”, adaptado da obra de Arthur Schnitzler. Essa diversidade não pode colocar em risco a definição de uma filmografia mais autoral?

Fernando Meirelles: Não me importo muito em ser visto como um autor ou em estar construindo uma carreira. Não tenho mais idade para isso. Conto as histórias que, por razões diferentes, me interessaram e acho que justamente o fato de elas serem diferentes é o que me instiga. Elas me obrigam a aprender coisas novas e a inventar soluções. Quando eu me sinto mais seguro, andando em um terreno já percorrido, fico meio no piloto automático e não dá certo. Ao menos não para mim.

Valor: O que esse novo trabalho trouxe tanto em termos pessoais como profissionais?

Meirelles: Queria muito fazer um filme pequeno, fácil de ser assistido, despretensioso. “360” me pareceu um bom roteiro nesse sentido. Achei interessante poder trabalhar com o roteirista Peter Morgan e sabia que poderia contar com um ótimo elenco internacional, como aconteceu. Isso também me motivou. O processo foi tão tranquilo que, às vezes, eu me perguntava se não estaria fazendo algo errado, me cobrando pouco. Hoje eu me sinto mais seguro para dirigir qualquer tipo de ator. Esse filme me ajudou a perceber isso.

Valor: As histórias de “360” mostram pessoas movidas pela culpa e por uma preocupação com a própria reputação. O que mais nos impede de ceder a nossas pulsões – o medo de sermos pegos ou a culpa por eventualmente fazer algo moralmente errado?

Meirelles: Parece que nós já nascemos culpados. A ideia do pecado original é isso, já saímos da barriga da mãe com uma dívida. Freud falava do complexo de Édipo como parte do processo de nosso desenvolvimento. A culpa tem papel fundamental ali por querermos matar o pai e ficar com a mãe. A culpa é uma espécie de freio que nos impede de ir aonde nos levariam nossas pulsões. Ela nos faz reprimir nossos impulsos e sublimar nossos desejos, criando assim a cultura. Não há saída para nossa culpa a não ser administrá-la. Estamos condenados a não ser plenamente felizes e a viver com essa angústia instalada no peito. E ainda bem que é assim. Uma pessoa sem culpa é uma ameaça ambulante.

Valor: Transportando esse raciocínio para o universo político brasileiro, como responderia a essa mesma pergunta?

Meirelles: Na esfera individual, quem não consegue enxergar o outro ou não sabe o que é culpa são os psicopatas. Na política, o distúrbio análogo é a sociopatia. Os sociopatas são indivíduos egocêntricos, desprovidos de valores morais, que desconhecem as regras do convívio social, as leis e obrigações. Um sociopata, tipo muito comum entre homens públicos, não sente remorso nem culpa pelo que faz, portanto nunca será modificado, mesmo se punido. Não há STF [Supremo Tribunal Federal] que o breque.

Valor: Seu filme também fala sobre o medo da punição como fator inibidor da plena realização de nossos desejos.

Meirelles: O filme fala sobre medo de punição por tabela, mas me parece que, em todas as histórias, os personagens estão lidando mesmo é com suas consciências. Não há antagonistas, a luta é sempre interna. Mesmo no caso do estuprador, seu medo maior é ter de enfrentar o julgamento dos que estão a seu redor, e não a lei. Em “360”, há um momento em que o Ben Foster se sente observado quando está ao telefone e, como reação, toca de leve o pé de uma menina. Esse toque é muito mais por uma necessidade absurda de contato humano para aliviar a solidão do que a busca por sexo.

Valor: Você já disse que os convites para dirigir filmes costumam ir aparecendo e você acaba, muitas vezes, sendo levado por eles. O fato de ser assediado por produtores internacionais não o impede de ter mais tranquilidade para escolher o próximo filme?

Meirelles: Quando começo a achar que já está na hora de filmar de novo, fico mais vulnerável a propostas que possam aparecer na minha frente. No fim do ano, começo a rodar um novo longa, “Nemesis”. Comecei a trabalhar no roteiro com o Bráulio Mantovani desde o início e me lembrei de como é bom desenvolver um filme do zero, coisa que eu não fazia desde “Cidade de Deus”. Depois dessa constatação, pretendo resistir mais a convites e tentar desenvolver minhas próprias histórias.

Valor: Em que estágio se encontra a produção de “Nemesis”? Você já fechou o elenco?

Meirelles: O roteiro está muito bom, eu estou animado. É uma biografia do [armador grego Aristóteles] Onassis, mas na verdade é uma história sobre o ódio. Aliás, já que toquei no assunto, o Onassis era um sociopata típico, charmoso e sedutor como todos os sociopatas são. O elenco está sendo contatado e será anunciado durante o festival de Toronto, em setembro.

Valor: Se pudesse escolher um tema universal para um futuro filme, qual você escolheria e por quê?

Meirelles: Adoraria fazer um filme sobre a questão ambiental. Penso nisso, mas ainda não achei um jeito ou uma história para falar sobre esse assunto sem parecer um “ecochato” ou um “biodesagradável”.

Valor: Essa migração de grandes talentos brasileiros para as produções globais não nos priva de ver temas locais e socialmente relevantes abordados por cineastas como o senhor? Ou o cinema não deve ter essa preocupação?

Meirelles: O cinema pode ter essa preocupação, mas não precisa tê-la necessariamente. Falar da psique humana, de questões afetivas e da ciência ou fazer rir são igualmente temas nobres. Tenho feito filmes fora do Brasil por uma questão de conveniência: eles são mais fáceis em relação a financiamento e já nascem com distribuição mundial garantida. Mas ando com muita vontade de voltar a filmar em português e isso deve acontecer depois de “Nemesis”.

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