A disseminação da Cultura do Estupro

Gustavo Di Lorenzo, no Comunicadores

Ao observar algumas mulheres de biquíni caminhando na praia, um grupo de amigos se questiona: “Já pensou se a gente fosse invisível?”. A suposição vira realidade e os homens (agora invisíveis e apenas notáveis como latinhas flutuantes) se aproveitam da situação para abusar das mulheres na praia e invadir o banheiro feminino.

Essa propaganda vem sendo veiculada na TV há alguns meses, pela Nova Schin. Ao primeiro olhar, pode parecer uma piada, uma brincadeira – mas pensando bem, tem algo profundamente perturbador nesses 40 segundos, que milhões de pessoas assistiram nos intervalos de seus programas favoritos.

Não é novidade que as propagandas de cerveja, focadas no público masculino, tendem a apelar para o machismo: sempre com mulheres de corpos esculturais de biquíni, dando bola para o cara com a cerveja na mão. Se não é isso, é semelhante. Mas dessa vez, a questão é mais grave: a Nova Schin, mostrando uma brincadeira de amigos na praia, escancarou uma ferida na história da relação homem-mulher: a cultura do estupro.

Apresentar um grupo de homens atacando sexualmente mulheres não é, e nunca deveria ser, considerado piada. Tratar esse tema de forma cômica é tão prejudicial à questão quanto ignorá-la. É transformando um assunto importantíssimo em brincadeira, que difundimos essa cultura como inocente, enquanto se trata de um crime sexual gravíssimo.

É tratando dessa camuflagem de normalidade por cima desse crime sexual, que existe o termo “cultura do estupro” – bastante difundido em debates feministas, mas pouco conhecido pelo grande público. A cultura do estupro é, basicamente, um conjunto de crenças e máximas (absurdas) que minimizam a importância da violência contra a mulher. Alguns exemplos: acreditar que o homem é naturalmente violento e que isso justifica alguns atos agressivos; crer que o homem, por seu instinto animal, tem que se reproduzir e que isso explica algumas atitudes impensáveis; colocar sobre as vestes da mulher a razão de um estupro (quem nunca ouviu a frase “com essa roupa ela está pedindo para ser estuprada”?).

Existe uma luta muito grande para desconstruir a cultura do estupro, desfazendo essas crenças e esclarecendo alguns pontos. Quem acompanha discussões sobre o tema pela internet, vê o esforço que existe por parte de várias escritoras para esse processo. Infelizmente, o debate ainda está, em sua grande maioria, sendo feito por mulheres – enquanto deveria envolver ambos os gêneros. Mas, pensando de forma otimista, esse debate cresceu muito nos últimos anos.

E é exatamente por esse pensamento otimista, que a revolta por esse caso específico da Nova Schin é tão grande. Em um momento de esclarecimento e solução, é um grande retrocesso ter a cultura do estupro escancarada nos televisores brasileiros. É como se, enquanto alguns tentam resolver um problema, outros estão ali, batendo o pé para que ele persista.

E o que podemos fazer por isso? É simples: esclarecer. O grande problema da cultura do estupro é o quanto ela consegue parecer natural. Nosso dever, como comunicadores e formadores de opinião, é disseminar esse debate – mostrar para o maior número de pessoas que isso não é natural, e que o estupro, em qualquer forma, é crime. Nosso dever, acima de tudo, é abrir os vários olhos fechados que encontramos por aí.

Comentários

Uma ideia sobre “A disseminação da Cultura do Estupro

  1. Vania Schoen

    Sorte que não tem comercial com pessoas que se embriagam e ficam “fáceis”. É Isso que a bebida provoca. O resto só é fantasia, maliciosa mas dentro da normalidade.

    Responder

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