A mulher troféu

Walcyr Carrasco, na Revista Época

Walcyr Carrasco é jornalista, autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão

Tenho amigos que gostam de exibir a mulher. São homens maduros que entram em crise no casamento de muitos anos. E apaixonam-se por outra mais jovem. Conheço um empresário que teve um caso com a secretária. Pagou novos seios de silicone para a nova paixão. Plástica total no rosto. Transformada em sex symbol, a secretária foi promovida a diretora. Ganhou carro e apartamento. Orgulhoso, ele a exibia diante dos funcionários. A mulher, elegante e refinada, descobriu tudo. Separaram-se. Mas a secretária já era casada. Na loucura da paixão, o empresário teve problemas financeiros. Hoje vive sozinho numa casa alugada. A secretária continua com o marido. Mesmo assim, ele não se arrepende. Mostra fotos dela, de peito inchado:

–Vejam só que mulher!

Sempre acreditei que um relacionamento vive de afinidades. Hoje vejo que alguns são alicerçados no exibicionismo masculino. Um grande empresário paulistano, apesar da idade, cerca-se de garotinhas. Suponho que a maior parte delas recebe um “presente” a cada encontro. Durante certa época, ele oferecia um carro a cada namorada do momento. Eram tantas que, dizia-se, tinha conta corrente na concessionária. A vida é dele. Se é feliz assim, não é problema meu. Eu me admirava com o prazer que esse senhor tinha em ser fotografado ao lado das moçoilas. Bem, pelo menos uma prova de sanidade ele deu: não se casou com nenhuma. Há casos em que o madurão não só se apaixona como se casa com a bonitona. Nada contra. O amor é possível em qualquer situação, e a diferença de idade não quer dizer coisa alguma. Mas é surpreendente. Boa parte dessas relações, assim que nasce uma criança, termina no tribunal, com a moça exigindo pensão e boa parte do patrimônio. Na verdade, nesses casos, tenho pena é da criança.

Uma vez fui visitar um casal. Ele, advogado. Ela, precocemente aposentada da carreira de sexy simbol. Às tantas, ele puxou o assunto:

– Sabe que ela já posou nua?

Claro que eu sabia. Mas fiz expressão de surpresa.

– Não diga!

Ele foi até o quarto. Voltou com a revista, já bastante manuseada.

– Olhe aqui.

Mostrou as fotos orgulhoso.

– Quando nos casamos, ela havia acabado de posar.

O que dizer para um marido que exibe as fotos da esposa nua? Nenhum livro de etiqueta explica! Exclamei:

– Que corpo perfeito!

Como sou autor de novelas, ambos viram, na minha admiração, uma oportunidade.

– Leve a revista, disse ele. Tenho outras.

– Mas… mas…

– Eu autografo!, ela se ofereceu, animadíssima, cruzando as pernas no shortinho minúsculo.

E me deu a revista orgulhosa.

Quando me despedi, o marido ainda deu a ideia:

– Quem sabe você bota minha mulher nua numa novela, hein?

Sempre achei que um relacionamento vive de afinidades. Mas, hoje, alguns são alicerçados no exibicionismo

Quando conto essas histórias, muita gente acha que só acontecem no meio artístico. Coisa nenhuma. Acredito que seja mais frequente no mundo empresarial e entre altos executivos. Afinal, é onde rola mais dinheiro. Nem acho que as maiores culpadas sejam as garotas. Muitas delas, vindo da classe média baixa, são criadas para encontrar um príncipe encantado. Para elas, um príncipe barrigudo e grisalho não é tão ruim assim.

Estão acostumadas com a ideia desde a adolescência. Além disso, muitos homens também mantêm a boa forma. Algumas até devem sentir-se surpresas quando o marido gosta que saiam vestidas de piriguetes. Outras, mais espertas, acham que faz parte do acordo. Já vi isso acontecer em todo lugar. Até mesmo há alguns anos no Hotel Ritz, em Paris, numa ceia de Natal. Um senhor maduro degustava a refeição ao lado de uma jovem quase nua, de tão curta a saia e grande o decote. De vez em quando, ele olhava para as outras mesas, com ar vitorioso.

Atualmente, há uma tendência entre algumas mulheres de se comportar de maneira semelhante. São profissionais de sucesso que se relacionam com um garotão. O musculoso faz o mesmo papel da piriguete. Ou também não trabalha ou tem um emprego mais leve, distante da concorrência selvagem das grandes empresas. Elas também se exibem para as amigas:

–Viu meu gato?

É um risco abandonar a companhia de anos, com quem se divide a vida. Principalmente em troca de um troféu que parece ridículo para quem tem bom-senso. O que mais me espanta é ouvir esses homens e mulheres narrando fatos para provar que a bonitona ou o rapagão estão realmente apaixonados. Já dizia Nelson Rodrigues que dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro. Mas, certamente, é outra qualidade de amor.

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