‘Religião separa as pessoas mais do que as une’, diz diretor de ‘A tentação’ e tataraneto de Darwin

Cauê Muraro, no G1

Matthew Chapman escreve e dirige longa sobre fundamentalista religioso.
Ele também comenta seu próximo trabalho, ao lado de Glória Pires.

Ao longo de sua carreira, o britânico  Matthew Chapman dirigiu apenas cinco filmes, sendo o mais recente “A tentação”, em cartaz no Brasil desde sexta-feira (10). Ele atribui essa pouca dedicação à atividade a seus outros interesses, como a literatura de não-ficção, seus trabalhos como roteirista e – em especial – a ciência.

Tataraneto de Charles Darwin (1809-1882), Chapman fundou em 2008 a Science Debate, descrita em seu site oficial como “a maior iniciativa de política científica da história dos Estados Unidos” com a assinatura de “quase 30 ganhadores do prêmio Nobel”.

A religião e seus efeitos estão na pauta de Chapman, como prova o enredo “A tentação”, com Liv Tyler, Patrick Wilson, Charlie Hunnam e Terrence Howard. “Lamentavelmente, religião separa as pessoas, mais do que as une”, conta ao G1 em entrevista por telefone, de Nova York.

Lá, fica uma de suas casas – a outra está no Arpoador, no Rio. Ele é casado com a atriz brasileira Denise Dumont desde 1989. A última visita ao Brail foi para atuar como roteirista de “The art of losing”, de Bruno Barreto. O longa narra a relação amorosa entre a poeta americana Elizabeth Bishop (1911-1979) e a arquiteta brasileira Lota de M. Soares (Glória Pires). Durante a conversa, Chapman elogiou bastante Glória, colocando-a no mesmo nível de Helen Mirren. Veja, a seguir, os principais trechos:
G1 – No seu site, ‘A tentação’ é descrito como ‘um thriller filosófico’. O que você quis dizer exatamente com isso?
Matthew Chapman –
 Bem, todo thriller tem alguma coisa contra a qual você está lutando, então você quer descobrir quem matou quem, onde está determinada pessoa… A minha questão [em “A tentação”] é a diferença filosófica entre dois homens. Mas eu não quis soar pretensioso – é realmente um thriller e uma história de amor.

G1 – O filme mostra a disputa entre um fundamentalista religioso e um ateu, envolve fé e sacrifício. Então, tenho que perguntar a você sobre o recente incidente nos Estados Unidos, quando um homem invadiu um templo Sikh e matou seis pessoas…
Chapman –
 Eu acho que, lamentavelmente, religião separa as pessoas – mais do que as une. Quer dizer, se você olhar para os judeus e para os árabes, eles comem a mesma comida, eles vivem na mesma terra, eles dividem em grande parte os mesmos mares, eles são mães e pais, têm filhos, ou seja, têm muitas coisas em comum. A única coisa a dividi-los é disputa por território e religião.

G1 – Você se preocupou em evitar a impressão de que os personagens de ‘A tentação’ existem apenas para justificar um argumento prévio, e não como pessoas de verdade?
Chapman –
 Sim, é, foi uma preocupação. Eu escolho os atores que acredito ter muito dos personagens neles mesmos, e eles ainda são seres humanos interessantes. Uso humor também. E, no meio dessa batalha filosófica, há uma verdadeira dor emocional para todo mundo. É interessante, porque algumas pessoas, ao perder alguém próximo, pensam que não pode existir um Deus, já que, se Ele existisse, não faria isso [tiraria uma vida]. Outras pessoas dirão: “Oh, meu Deus, eu perdi meu filho (ou meu marido ou minha esposa), eu preciso ter Deus ao meu lado, para me ajudar a superar isso”. Mas, no meio de tudo, há sempre a dor do ser humano.

G1 – Ao longo de sua carreira, você dirigiu apenas cinco filmes. Por que tão poucos? Porque você gasta o tempo com outras preocupações, como ciência e política?
Chapman –
 Estou tentando fazer os candidatos a presidente a debaterem sobre ciência. Nós conseguimos na eleição passada que Obama respondesse às perguntas, e agora estamos tentando fazer com que ele concorde de novo. O que queremos mesmo é um debate cara a cara sobre mudanças climáticas, preservação dos oceanos, água potável, extinção de espécies, vacinas – todas essas questões que vão definir nosso futuro.

G1 – O seu interesse por ciência se deve ao fato de você ser tataraneto do Charles Darwin? Nos seus tempos de colégio, você já se envolvia com isso?
Chapman –
 Não. E não me interessava nem pelo Darwin. Porque na Inglaterra, na Europa como um todo, realmente ninguém realmente questiona a evolução. Foi só quando vim para os Estados Unidos que vi pessoas dizendo que a Terra tinha 10 mil anos de idade e que Deus criou Adão e Eva, todos os animais foram colocados dentro da arca – isso é inacreditável num país sofisticado assim.

G1 – Você também escreveu sobre o massacre no Colorado, algumas semanas atrás. Pessoalmente, como roteirista e diretor, você foi afetado pelo fato de isso ter ocorrido justamente num cinema?
Chapman –
 Sim, e de um jeito muito complicado. Porque acredito que os filmes podem melhorar as pessoas, fazê-las enxergarem umas às outras com clareza, serem compreensivas. Se isso é possível, o oposto também é. Acho que os filmes americanos se tornaram ofensivamente violentos – isso é triste, grotesco e esquisito. Por que, sendo o país mais poderoso do mundo, você precisa continuar celebrando o quanto você é durão? Se você é durão, você não precisa ficar fazendo propaganda disso o tempo inteiro. Então, acho que esse “cinema americano de macho” é, na verdade, revelador da fraqueza

nas entranhas do país. Lamento admitir isso, mas… (risos).

G1 – Numa edição recente a revista ‘The Hollywood Reporter’ trazia um artigo do cineaste Peter Bogdanovich em que ele propunha exatamente este questão: ‘E se os filmes foram parte do problema?’. Na sua opinião, eles são?
Chapman –
 [Pensa alguns segundos] Sim, acho que eles são. Como eu disse, acho que podemos ter um cinema que é bom e então tornar as pessoas melhores. Mas o contrário também vale: [com um cinema que é ruim] você pode fazer as pessoas achar que as outras são alvos a serem atingidos.

 

G1 – Você também já escreveu sobre a situação nas favelas do Rio de Janeiro. Quando foi a última vez em que esteve no país?
Chapman –
 Estou sempre indo e vindo, faz cerca de 20 anos. A última vez foi há coisa de seis semanas. Fui trabalhar com um diretor brasileiro, Bruno Barreto, escrevi um roteiro para ele, com a Glória Pires, [o filme] é sobre Elizabeth Bishop e Lota de M. Soares. A produção agora está vindo para Nova York, para rodar umas cenas aqui.

G1 – E o que acha do trabalho da Glória Pires?
Chapman –
 Ela é incrível. Acho que é uma das melhores atrizes que já vi – e eu já dirigi Helen Mirren, Jennifer Jason Leigh, Liv Tyler. Enfim, já dirigi atrizes muito boas, e Glória Pires está no mesmo patamar, além de ser uma mulher adorável.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for ‘Religião separa as pessoas mais do que as une’, diz diretor de ‘A tentação’ e tataraneto de Darwin

1 Comentário

  1. Gilberto disse:

    Concordo.

Deixe o seu comentário