Amigos, amigos – Cyro e Drummond

Imagem: Google

Ricardo Gondim

Carlos Drummond de Andrade e Cyro dos Anjos foram grandes amigos. Ao longo da vida, trocaram inúmeras cartas (sim, naquele tempo se escreviam cartas). Do Rio de Janeiro, em 22 de julho de 1936, Drummond narrou os seus sentimentos após visitar Belo Horizonte.
A capacidade do poeta de expressar o que outros sentem, mas não conseguem dizer, encanta. Vale reproduzir um trechinho:

[…]
Eu vou mal. Voltei bouleverse [do francês: perturbado, transtornado] dessa curta viagem de 3 dias ao País das Recordações. Trouxe, entre outras verificações, a de que estou ficando velho. É prova disso o estado de extrema sensibilidade em que me deixou o contato com alguns amigos, alguns lugares e uma certa pessoa [Drummond refere-se provavelmente a Célia Neves].

Nunca Belo Horizonte me deixou uma impressão assim: a princípio de transbordamento jovial; depois de inquietação e perplexidade. O coração e o espírito trabalharam muito e voltaram fatigados.

De par com isso, senti saudades absurdas da infância (que aparentemente não vinham ao caso), senti uma enorme necessidade de volver às origens mais obscuras e concluí, de tudo isso, que estou ficando velho.

Chamo velhice a um estado de abandono de todo o material e experiência crítica acumulado entre os 20 e 30 anos, período que para nós foi de análise do mundo, de ceticismo, de dissolução das verdades, e principais verdades.

Agora transposta a fronteira dos trinta, começa um trabalho diferente. Em mim, pelo menos, está sendo assim! As recordações de infância, principalmente, que eram quase ocultas na minha vida emotiva, são hoje violentas e numerosas. E o passado próximo, que considero tão perdido como o tempo, igualmente me perturba a um ponto que você nem pode avaliar como é doloroso, embora seja evidente o prazer que eu sinto em recompô-lo.

Eis aí, meu caro Cyro: não há mais ironia nem penetração das coisas por uma crítica incessante. Estou cheio de imagens e evocações. Recomeço a acreditar no primado dos sentimentos e a submeter-me a eles, sem discutir. Será talvez um estado passageiro, mas é a aventura presente da minha vida, e eu a vivo com sinceridade.
[…]
C

[Drummond assinava apenas o C]
[Cyro e Drummond – Correspondência de Cyro dos Anjos e Carlos Drummond de Andrade – Editora Globo, p. 80]

fonte: site do Ricardo Gondim

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