Crer para ver: exposição de obras (in)visíveis

O público tem saído da Hayward Gallery, em Londres, dizendo que a exposição de obras invisíveis está entre as melhores da cidade. E não, isso não é uma piada

Visitante observa Untitled (A Curse) na mostra em Londres, obra de Tom Friedman. A galeria coloca o público diante de um dos mais relevantes e ainda desconfortáveis momentos da arte

Marcelo Rezende, na Bravo!

Aparentemente não há nada lá. Ao menos nada para ser observado ou tocado. Os ambientes não exibem coisa alguma, mas não se deixe enganar pelos olhos. Tudo está repleto. A prova é oferecida até o dia 5 de agosto pela Hayward Gallery, no complexo cultural de SouthBank, em Londres. A galeria coloca os espectadores diante de um dos mais relevantes – ainda que desconfortáveis e inquietantes – momentos da arte com a exposição Invisível – Arte sobre o Não Visto 1957-2012.

Exibir o invisível é (e historicamente tem sido) se expor a certo ridículo. As imagens de pessoas circulando por salas e admirando o que parece ser coisa nenhuma já se tornaram um clássico. Desde junho, essas cenas têm retornado à imprensa europeia, recolocando a mais repetida questão na mente do espectador contemporâneo: isso é arte?

Sim, é. Estranha, falível, radical, com poucos altos e muitos baixos, mas definitivamente arte desde que Yves Klein, na década de 1950, propôs uma exposição na galeria Iris Clert, em Paris, composta de salas vazias. Ele pintou todas as paredes de branco e passou horas trabalhando no espaço até realizar o que chamou de “a especialização da sensibilidade no estado material cru da sensibilidade pictorial estabilizada”. Para todos os que visitaram o local, o projeto foi entendido e resumido de forma mais simples: o vazio.

 

Espectadora passa em frente a Breath, Floating in Color as Well as Black and White (Venice), de Bruno Jakob. O que os olhos não veem, o coração sente

Pedestal

A presença (ou ausência) de Klein na mostra da galeria londrina se dá junto de artistas de diferentes gerações, que foram atraídos pelas ideias do genial criador francês, morto em 1962, aos 34 anos. Para Klein, tudo se explicava assim: “Agora quero ir além da arte, além da sensibilidade e dentro da vida. Quero ir para o vazio”.

Após a declaração, e com o tempo, esse apelo ao vazio encantou o primeiro grupo de artistas conceituais (para quem a arte é uma ideia, uma pesquisa e um projeto, e não necessariamente um objeto, como uma pintura ou escultura) e todos os que vieram depois. Até mesmo o norte-americano pop Andy Warhol se deixou levar, criando em 1985 a sua “escultura invisível”, composta apenas de um pedestal. Em 1968, o alemão Joseph Beuys também apresentou um trabalho do gênero: Intuição, uma pequena caixa de madeira com nada dentro. E, já neste novo século, um compatriota de Beuys, Jeppe Hein, propôs em 2006 um Labirinto Invisível, no parisiense Centro Georges Pompidou: um imenso salão vazio.

Para Klein, o vazio sempre foi pleno, já que a força e a intenção dos artistas se revelam capazes de impregnar um ambiente com conceitos e desejos, possibilitando ao espectador sentir algo que não pode ser visto. Exatamente do mesmo modo que alguém pode sentir, ao visitar uma igreja ou qualquer outro espaço de culto religioso, uma atmosfera diferente da rua ou do cotidiano. O sagrado é imaterial.

Mas, para muitos dos nomes presentes na Hayward Gallery, o invisível e o vazio devem ser entendidos como críticas ao mercado de arte, jogos da imaginação ou ataques contra variadas formas de poder. Ou mesmo uma brincadeira. O que os olhos não veem, ao menos nesse caso, o coração sente.

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