O inferno mora na alma

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Publicado por Sostenes Lima

De vez em quando o inferno se aproxima de mim, me envolve, me enreda. Fico com a alma dilacerada. Me desumanizo. Começo a lutar. E, com muito, esforço consigo enfraquecer as minhas trevas. Sei que não é uma vitória definitiva. O inferno me perseguirá outras vezes. Estarei, em outros momentos, à mercê de suas forças sutis e avassaladoras.

Houve um tempo em que eu tinha muito medo do inferno. Eu ficava aterrorizado com o cenário que os pregadores pintavam. Ficava ainda mais amedrontado quando alguém me dizia: “Se você continuar se comportando assim vai acabar indo para o inferno”.

Na minha infância, a ameaça de inferno era um expediente de controle muitíssimo eficaz. Quando a meninada se reunia e começava a aprontar, a expressão “cuidado com o inferno” era quase sempre suficiente para restaurar a ordem. Quando ouvia isso, a meninada ficava atônita; logo se lembrava de que Deus manda os desobedientes para um lugar bem longe, governado por Satanás. Lá os rebeldes são eternamente queimados; o fogo nunca apaga e bicho nunca morre.

Hoje, o inferno não me assusta mais. Aquele medo aterrador, quase sinistro, de ir para um lugar fétido, quente e comandado por um ser chifrudo que tortura suas vítimas com um tridente não me impressiona mais. Nenhuma pregação ou fala sobre o inferno me comove. O que mudou?

Descobri que o inferno não é um lugar para onde se vai depois da morte. Não, definitivamente não. O inferno mora bem aqui do lado; está entre nós, está em nós.

O inferno não é uma pessoa; ele está nas pessoas. O inferno não é uma coisa; ele está nas coisas. O inferno não é um lugar; ele está nos lugares; O inferno não é o mal; ele está no mal. O inferno não é uma entidade de outro mundo; ele está neste mundo. Não são as pessoas que vão para o inferno; é o inferno que vai para dentro das pessoas. Ninguém é torturado no inferno; é o inferno que, entrando nas pessoas, começa a impulsioná-las a um autoflagelo emocional e existencial. Ninguém é morto no inferno; é o inferno que, uma vez instalado nas pessoas, começa a matá-las por dentro.

O inferno não é uma categoria religiosa ou teológica. Sua existência não depende da anuência ou catalogação de uma determinada tradição e/ou dogma. Não é a religião que o institui; são as pessoas que o tornam real. O inferno existe porque pessoas existem. Ele está em todo lugar por onde o ser humano anda. O inferno mora na alma humana.

Embora não pareça, o inferno que a tradição religiosa pinta é muito menos terrível que o inferno que reside aqui. A postulação de um inferno fora do nosso mundo contribuiu, e muito, para que o inferno daqui atuasse livremente, se tornando cada vez mais infernal. A religião, ao fabricar um inferno em outras paragens cósmicas, como um ajuste de contas para depois da morte, mitigou o inferno daqui, tornou-o invisível. De certo modo, liberou as as pessoas para viverem no inferno se darem conta disso. Também deu liberdade para o homem infernal disseminar inferno sem que as forças anti-inferno possam constrangê-lo. Afinal de contas, o castigo está destinado para a vida no além. Pouco-se combate, reprime ou remedia aqui. É lá que tudo que tudo finalmente será pago.

Os religiosos e fundamentalistas também ganharam muito com essa história de construir um inferno no além. Com essa medida, eles puderam amansar, e maquiar ainda mais, os infernos e demônios que povoam a religião. Acabaram se livrando do risco de verem expostas as alianças espúrias que mantêm com os infernos e demônios que sutilmente governam as estruturas de poder da religião.

Hoje, o que sinto pelo inferno é uma enorme indignação. Sei que nem sempre percebo os infernos que existem no meu entorno, especialmente aqueles que estão sendo encubados dentro mim. Mas travo uma luta contínua para que o inferno jamais se torne comum, imperceptível. O inferno fica muito mais medonho, efetivo e devastador quando não é notado. Preciso lutar para que as cortinas que o envolvem e que o mascaram sejam destruídas. Preciso lutar para que as vísceras podres do inferno sejam expostas.

O inferno pode ser combatido tanto no plano pessoal e quanto no plano social. Contudo, em ambos os casos, a ação se constitui basicamente de plantar e cultivar amor. O que é o inferno senão uma ausência de amor, uma rejeição ao amor, um ódio declarado ao amor? O inferno se alimenta de tudo que mata o amor: indiferença, ódio, sadismo, presunção, ambição, inveja, ressentimento, mágoa etc.

O inferno nasce do fracasso do amor. Onde o amor floresce, o inferno morre. Onde o amor fracassa, o inferno finca raízes, se fortalece, constrói uma sede de governo, edifica repartições de comando.

A população do inferno não é feita de gente morta. São os vivos que vão para lá vivem aqui. Sempre que desprezamos o amor, passamos a engrossar as fileiras do inferno. E não há prática religiosa capaz de nos livrar do inferno. Apenas o amor pode pôr para fora o inferno que mora em nós.

O apóstolo João nos adverte: “Quem se recusa a amar não sabe o que mais importa sobre Deus, pois Deus é amor” [1 Jo. 1.8]*. Quando nos opomos a amar, plantamos no paraíso de Deus, o mundo em que vivemos, uma serpente semente de inferno. Não há oração, culto, louvor, campanha, novena, penitência, seja lá o que for, que mate essa semente. Tudo que importa para Deus é o amor. Sem amor, não há adoração que valha a pena. Sem amor, até as mais profundas preces se tornam sementes de inferno. A religião não pode destruir o inferno. Na verdade, em alguns casos, a religião faz é potencializar o inferno. Apenas o amor (Deus) pode aniquilar o inferno. Amemos.

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