O conto da gentil senhorinha

Resting in chair, foto capturada na internet - autor desconhecido
Resting in chair, foto capturada na internet – autor desconhecido

Helena Beatriz Pacitti

“A única diferença entre os santos e os pecadores é que todo santo tem um passado e todo pecador tem um futuro.
Lorde Illingworth, personagem de Oscar Wilde

Era uma mulher que há muito passara da meia idade, suave cabeleira branca, uma senhorinha de aspecto gentil. Quanto aos hábitos, possuía palavras e modos econômicos,  o sobradinho com decoração monástica, poucos livros e algumas plantas. Mas era uma senhorinha prática. Por precaução, o único objeto que ficava fora do lugar era uma caixa de ferramentas que costumava deixar no mini porta malas do seu carrinho, um WV Fusca 72 original, apelidado carinhosamente de Pé de boi.

Aquela gentil senhora não era dada a gula nem a extravagâncias de qualquer natureza. De manhã exercitava-se com as amigas na hidroginástica, ia de fusquinha pé de boi ao escritório onde era secretária há mais de 35 anos e cumpria satisfatoriamente suas tarefas. Nem sonhava em se aposentar.

Na volta a casa, dedicava-se a um jantar frugal, molhar os vasinhos, um cochilo na hora da novela e uma pequena caminhada nas imediações. As contas a pagar, visitas aos parentes e compras de mercado tinham dia certo. Até as férias eram cuidadosamente planejadas: roteiro, duração, companhias, café, almoço e jantar.  Sem imprevistos.

Uma tarde ela chegou a casa e se deparou com algo inusual : um carro estranho bloqueava totalmente a porta da sua garagem. A senhora calma pediu ajuda ao rapaz da banca de jornal e tentaram empurrar o carro com suavidade, mas em vão: o motorista havia puxado o freio de mão.  Nenhum bilhete nos vidros.  Nenhum sinal de emergência.  Indagou nas imediações de quem seria. Roubado e abandonado?

Serenamente, pensou em possíveis soluções: chamar a companhia de trânsito, dar queixa na delegacia, usar um alto-falante, deixar um recadinho no vidro. Tudo lhe soava inútil. A tranquilidade lentamente se dissipava e uma única idéia permanecia na mente. Murmurou: “Idéia doida”.  Mas a idéia doida retrucou que se recusava a ir embora.

Então a gentil senhorinha teve o seu dia de fúria. Foi até o fusquinha, debruçou-se no porta malas e pegou martelo, chave de fenda, um pé de cabra e alguns parafusos da caixa de ferramentas.

Completamente seduzida pela idéia,  furou pneus, riscou a lataria, quebrou o parabrisa e as lanternas.  Fez tudo sem raiva, com surpreendente energia adquirida na hidroginástica, sem se importar com quem passava. A sensação era boa, quase libertadora – sentiu-se leve feito pluma. Admirou o estrago, recolheu as ferramentas e se retirou, ajeitando com as mãos os cabelos brancos.

Naquele noite,  finda a euforia e após o término da novela, foi rezar e censurou-se levemente por aquele impulso primitivo. Era um animal a defender seu território.  Mas onde é que eu estava com a cabeça?  Por fim, entendeu que havia sido um ato isolado, único. Pediu perdão a Deus e dormiu feito um anjo.

Os dias seguintes sucederam com horários certos, refeições leves, conversas amenas. A rotina se instalara como sempre. Um dia foi pagar contas e depois fazer compras no supermercado.  Lá dentro o mesmo trajeto: primeiro os produtos de limpeza, depois os enlatados e por último os hortifruti.

Dirigiu-se ao estacionamento, as chaves do carro no bolsinha do lado direito e o ticket de saída já na mão esquerda. Sabia bem onde havia parado. “Vaga na coluna 3 do setor B”.  Boa vaga, por sinal, já que o supermercado estava lotadíssimo. Tão lotado que notou vários carros mal estacionados bloqueando a saída de algumas vagas.

Então viu que o seu pé de boi também estava bloqueado. Não podia sair. Outras pessoas na mesma situação reclamavam indignadas: “onde já se viu, obstruir uma vaga demarcada?” , “vou chamar o gerente”, “um absurdo!!!”.

A senhorinha ergueu os cantos da boca em discreto sorriso. Ajeitou com as mãos a cabeleira branca, abandonou o carrinho cheio de compras.  Foi até o fusquinha, debruçou-se no mini porta malas e pegou martelo, chave de fenda, um pé de cabra e alguns parafusos da caixa de ferramentas.

fonte: Timilique!

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