Rede “contra o voto de cajado” discute liberdade de pensamento nas igrejas


O pastor batista Leandro Alonzo critica o messianismo evangélico contra candidaturas como a de Dilma em 2010

Cezar Xavier, no Spresso SP

Em meio ao uso inescrupuloso da estrutura de igrejas evangélicas em campanhas de candidatos a prefeito em São Paulo, a seção São Paulo da Rede Fale – grupo de evangélicos ligado à defesa da cidadania e dos direitos sociais – realizou nesta sexta-feira (21) à noite, na Associação Hokkaido de Cultura e Assistência, na Vila Mariana, um encontro para debater o que chamam de “voto de cajado”, equivalente do “voto de cabresto” no meio religioso.

A campanha teve início por meio das redes sociais no dia 22 de agosto e já ganhou a adesão de cerca de cem mil pessoas, segundo seus organizadores. Outros eventos semelhantes ocorrem nesta semana em Aracaju (SE), na Assembleia de Deus de Fortaleza, na Comunidade Cristã de Belo Horizonte, na Sal da Terra de Uberlândia e na Igreja Batista do Rio de Janeiro. Em São Paulo, participaram pastores, teólogos e lideranças de juventude evangélica como a Aliança de Negros e Negras Evangélicos de São Paulo (representada por Paulo Saraiva).

Foi apresentado um vídeo bastante didático explicando o voto de cajado, que se impõe sobre os crentes a partir da autoridade do pastor, sem permitir questionamentos pessoais. O vídeo lembra que o número de evangélicos subiu mais de 61% nos últimos dez anos, sendo que só em São Paulo, 58% são católicos e 22% são evangélicos. Termina perguntando: Você vai levantar a bandeira da justiça ou vai votar no candidato só porque o pastor mandou?

Sabedoria de Salomão

Vários participantes questionaram o silêncio de evangélicos diante de tantas injustiças e violações que ocorrem no país, manifestando-se apenas de maneira oportunista na forma do balcão de negócios das eleições. Caio Cesar Marçal, missionário em Belo Horizonte e secretário de Mobilização da Rede Fale, abriu o debate com os versículos 8 e 9 do capítulo 31 de Provérbios: “Abre a tua boca a favor do mudo, pela causa de todos que são designados à destruição. Abre a tua boca; julga retamente; e faze justiça aos pobres e aos necessitados.”

Marçal explicou que a Rede Fale é um grupo de irmãs e irmãos, pessoas vinculadas a movimentos sociais diversos, que se reuniram para proclamar o evangelho de amor. “Queremos repensar o que significa ser discípulo de Jesus num mundo dividido por injustiças e desigualdade. Desconfio de proposta espiritual que desconsidere a dimensão da justiça, mas também da justiça desvinculada da fé”, ressaltou. O mobilizador afirmou que o voto de cajado não é novo, “mas quando usa o nome de Deus fica mais feio”, disse se referindo a pastores que dizem terem recebido a revelação de que determinado candidato será o melhor prefeito.

Consumismo evangélico

A economista e psicóloga Isabelle Ludovico tocou num tema sensível, o modo como evangélicos consomem e querem ser consumidos no mercado. Como psicóloga, Isabelle entende o voto de cajado apenas como um sintoma desse materialismo e vazio espiritual. “A igreja está cada vez mais parecida com a sociedade, que é cada vez mais um balcão de negócios”, afirmou a escritora.

Ela lembrou que a herança cultural brasileira é coronelista, o que explica porque as igrejas que mais crescem são aquelas com líderes carismáticos e autoritários. Ela chamou de “abuso espiritual” o que fazem esses líderes ao impor um modo de pensar a sociedade baseada nos seus interesses empresariais. “O eleitor não deve se sentir culpado por fazer uma escolha diferente do seu líder espiritual”, afirmou Isabelle.

O surgimento das igrejas neo-pentecostais nos anos 80, com forte presença midiática, é responsável pela ênfase no poder temporal, na igreja como mediadora da graça, com hierarquia rígida. Para ela, esses 25 anos de “promiscuidade” entre evangélicos e políticos têm ajudado no crescimento do movimento pentecostal a um custo espiritual.

Na opinião da economista, isto é reflexo também de políticas públicas dos últimos governos que ampliam a capacidade de consumo do brasileiro, mas não o inclui como usuário de serviços públicos de qualidade. “Desta forma, os excluídos não questionam o modelo, querem apenas ser incluídos no consumo. Em vez de lutar coletivamente por serviços públicos de qualidade, o caminho é individual é de consumo”, lamentou, citando análise de Wladimir Safatle e Paul Singer.

Para ela, o lulismo promoveu um esvaziamento dos movimentos sociais e suas demandas que questionam o modelo de desigualdade social brasileiro.  Ela ainda citou a forma como o movimento hip-hop surgiu questionando os valores do consumismo, e agora o movimento funk originado nas favelas cariocas vão no sentido oposto valorizando o desejo de ter e comprar. “Se tudo que dá sentido a uma vida pode ser comprado num shopping, então São Paulo merece Celso Russomanno”, atacou ela, citando o candidato do PRB, que ostenta apoios evangélicos e se tornou conhecido fazendo defesa do consumidor na televisão.

Isabelle parodiou outro economista, Karl Marx, ao dizer que o consumo é o ópio do povo. “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo”, citou ela 1 João 2:16-17, comparando a concupiscência da carne e dos olhos ao hedonismo e ao consumismo e a soberba da vida a uma sociedade competitiva e excludente que não tem lugar pra todo mundo.

Isabelle ainda criticou o fato dos evangélicos não serem os primeiros a levantar bandeiras como a defesa do meio ambiente, por exemplo. “Além de denunciar o voto de cajado, temos que anunciar um novo modelo de sociedade que questione esse consumismo. O bem estar material não trouxe o bem estar mental, como comprovam o consumo de drogas, ansiolíticos e antidepressivos”, propôs a psicóloga.

Deus e o Diabo na terra de Dilma

O teólogo e pastor batista Leandro Seawright Alonzo analisou o atraso brasileiro com seus líderes evangélicos messiânicos numa eterna luta pela salvação da pátria contra as forças da esquerda política. Doutorando em história protestante no período da ditadura militar pela USP, mestre em Ciência da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo e autor do livro “Entre Deus, o Diabo e Dilma”, Alonzo considera que a eleição de 2010 foi uma vergonha para evangélicos históricos e pentecostais. “Se Deus foi o cabo eleitoral de José Serra e Marina Silva, que Deus é esse que perde para o Diabo”, questionou o pastor, revelando a confusão instalada entre evangélicos, naquele período, com pastores e parlamentares evangélicos que defendiam Dilma, enquanto outros a demonizavam.

Entre os piores detratores da candidatura de Dilma Rousseff está o pastor Paschoal Piragibe, de Curitiba, que venceu a Convenção Batista. “O que por si só é indicativo dos rumos que as lideranças da igreja estão tomando”, lamentou.

Alonzo denunciou o descompasso entre discursos demonizadores de políticos em campanha e dos homossexuais, enquanto graves violências sociais ocorrem e as mesmas lideranças religiosas não se manifestam. “Onde estavam estes pastores e bispos quando os direitos humanos foram violados no Pinheirinho”, questionou, referindo-se à violenta desapropriação de um bairro pobre em São José dos Campos pela Polícia Mílitar.

Ele criticou os pastores que dão espaço em seus púlpitos para discursos demonizadores dos governos de esquerda, em defesa do reacionarismo e fascismo de direita. “Direito e esquerda são necessárias para a democracia e para a alternância de poder. Embora o lulopetismo não dê conta das demandas sociais a médio prazo, não se pode negar a força das camadas trabalhadoras e da igreja na origem do PT”, defendeu.

Alonzo dialogou com Isabelle ao lembrar que o protestantismo brasileiro tem uma forte influência do “american way of life” de sua origem. Uma lógica capitalista baseada no patriotismo, no racismo e no protestantismo. Esse imaginário norte-americano é o que domina as escolas teológicas em que o seminarista sai querendo salvar o Irã das forças do mal.

Alonzo aponta a dificuldade que o brasileiro ainda tem com a laicidade. “Estamos preparados para ter ensino religioso adequado nas escolas? Uma mãe evangélica provavelmente vai ficar escandalizada se seu filho tiver contato com a mitologia iorubá, embora ache normal que seu filho saiba tudo sobre mitologia ariana”, questionou.

Na prática não temos laicidade, segundo ele, mas um conjunto de leis que deveriam garantir a laicidade. No entanto, Alonzo lembra que pastores de autoestima baixa, “que se vendem por pouco”, estão aí para garantir que o Estado Laico não se efetive plenamente, uma luta que é de todos os evangélicos protestantes, desde Lutero. “O sagrado é aquilo que o profano não toca impunemente”, encerrou ele, citando o sociólogo Emile Durkheim.

Interesses legítimos

A polêmica bem humorada foi provocada por Gedeon Alencar, doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP e diretor do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos (ICEC), ao defender o voto de cajado num primeiro momento. “Sempre se criticou a alienação dos evangélicos e agora se critica esse envolvimento excessivo”, afirmou.

Gedeon afirma como legítimos os interesses e demandas de evangélicos na disputa democrática, como qualquer outro grupo social. “Por que outros deputados podem defender interesses corporativistas e evangélicos não?”, foi uma das muitas perguntas deixadas para o debate. Mais à frente, ele mesmo ponderou que o grande problema do corporativismo evangélico é que se resume a “moralismo da pior espécie possível”.

“O pastor orienta na vida conjugal, na vida espiritual, mas não pode orientar na vida política?” Para ele, a própria Rede Fale está orientando uma postura política aos evangélicos.

Gedeon acredita que há uma tipificação muito rancorosa dos pentecostais. Ele citou uma pesquisa Datafolha, de 14 de julho, feita durante a Marcha pra Jesus, em que um terço dos participantes votariam em candidatos indicados pelo pastor, um terço talvez e outro que preferia decidir sozinho. Gedeon ressaltou, no entanto, que o Datafolha define evangélico como esse público propenso à mistificação daquele tipo de espetáculo e liderança pastoral.

O teólogo também afirmou ter dúvida sobre a força das lideranças sobre o voto de seus crentes e sua tentativa de estabelecer uma “teocracia gospel” de tipo islâmica, como parecem “salivar” algumas lideranças neofascistas da direita evangélica. “A campanha fascista contra Dilma não fez o efeito que as lideranças evangélicas queriam”, lembrou ele.

Outro problema apontado por ele para o voto de cajado é o modo como a mística evangélica é utilizada para justificar escolhas. Ele citou um pastor assembleiano que dizia que Deus revelou que Anthony Garotinho era o melhor presidente para o país. “A diferença é que quando Lula indica um candidato ou a atriz famosa e bonita indica um shampoo que ela nunca usou, não diz que foi Deus que revelou para ele que aquele é o candidato pronto, definitivo e verdadeiro”, comparou, lembrando também que se o se o shampoo não funcionar, a atriz perde credibilidade.

Gedeon encerrou expressando esperança com as novas gerações críticas de eleitores que se mostram menos propensos a essa mística e divinização enganadora. Ele citou uma personagem de reportagem da Folha de S. Paulo que disse: “na minha igreja falaram pra não votar na Dilma, mas eu ganho Bolsa Família e vou votar nela”.

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