O fantasma do voto de cabresto volta a nos assombrar?

Débora F., no Loucos Por Uma Causa

Por muito tempo acreditou-se que religião e política fossem coisas opostas. E assim, choveu de “irmãozinhos” votando nulo e em branco, abstendo de seu dever como cidadão. Porém, de um tempo para cá, a gama política (assim como tantas outras) percebeu o crescimento explosivo (leia-se ‘inchamento’?) do povo evangélico, achando assim um meio de alavancar sua candidatura.

Infelizmente, nessa época de eleições muitos púlpitos viraram palanques e alguns cultos mais parecem comícios eleitorais. Remetendo ao antigo(?) ‘voto de cabresto’ muito presente na República Velha, em que coronéis “compravam” o voto das classes menos favorecidas, há hoje o chamado ‘voto de cajado’, onde pastores e líderes espirituais e/ou religiosos “impõem” aos fiéis um certo candidato, ou como diriam os próprios: ‘candidatos oficiais da igreja’.

Contrariando tudo isso, a Rede Fale, uma rede de pessoas que oram e se manifestam a favor da justiça e defesa dos direitos humanos, desenvolveu a campanha “Fale contra o voto de cajado“, contra todo e qualquer tipo de manifestação do eleitorado evangélico por suas lideranças eclesiásticas em favor de interesses políticos particulares¹. A Rede Fale tem promovido debates, palestras e outras programações com o objetivo de conscientizar os cristãos. Afinal, somos cristãos, mas também somos cidadãos, e como tais precisamos exercer nossa função. Reclamar das autoridades e até orar por elas não resolve se junto com isso não vier a ação.

Outrossim, o simples fato de um candidato se intitular cristão não quer dizer nada. O dito “Irmão vota em irmão” não deve ser levado a sério, já que, infelizmente, poucos dos candidatos “cristãos” apresentam propostas relevantes para a sociedade. Acerca disso, Sérgio Pavarini afirma: “(…) os caciques gospel ainda são cortejados em épocas de eleição, abrindo os púlpitos para quem estiver à frente nas pesquisas. Oram, profetizam e ungem candidatos, numa pantomima que ilustra como nosso preço continua baixo. […] Sem propostas efetivas para transformar a nação, a cambada bancada evangélica se concentra em combater o trinômio aborto + pedofilia + casamento gay. Tudo em nome de uma moral frouxa e seletiva que não impediu vários deles de participar de escândalo$ variados.”² Sem falar que o mal testemunho de alguns membros da ala evangélica acaba por reforçar críticas ao evangelho.

Muitos enxergam nos cargos políticos um meio fácil e rápido de ganhar dinheiro, o que leva a uma enxurrada de pessoas se candidatando sem ter a mínima condição. Pode se observar isso pela quantidade de bizarrices nas propagandas políticas, coisas como “Candidata Filé” ou “João da Pipoca”. Pessoas que mal sabem o que estão fazendo ali e que não possuem, na maioria das vezes, propostas consistentes, terão condições de governar uma cidade ou selecionar quais leis serão aprovadas?

Votar em um “irmão” da igreja só porque ele vai financiar ($) a marcha para Jesus, ou pior, porque o pastor levou ele ao púlpito e até orou por ele e o ungiu, são motivos medíocres. Um candidato, ainda que cristão, não está lá apenas para beneficiar a religião A ou a igreja B, muitos menos para se beneficiar. Ele deve confrontar a realidade atual e lutar contra um dos maiores males da atualidade: a desigualdade social. E assim como Jesus Cristo ouviu o grito dos excluídos e voltou-se aos marginalizados, sejam os políticos (cristãos ou não) a voz dos injustiçados e a vez dos indefesos.

“Fale a favor daqueles que não podem se defender. Proteja os direitos de todos os desamparados. Fale por eles e seja um juiz justo. Proteja os direitos dos pobres e dos necessitados.” {Provérbios 31:9}

Ficou interessado e quer saber mais? Acesse o site da Rede Fale: http://redefale.blogspot.com.br/

Notas:
(1) http://www.facebook.com/redefale
(2) PAVARINI, Sérgio. Minha alma está a(r)mada: lições de vida que o rock nacional me ensinou. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2011.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for O fantasma do voto de cabresto volta a nos assombrar?

Deixe o seu comentário