CSI: Brasileira integra seleto time de artistas forenses nos EUA

Chris Delboni, no Direto de Miami

Se você gosta de assistir séries na TV, como CSI, está acostumado com cenas fortes em necrotérios, onde profissionais fazem autópsias e reconstituem os rostos das vítimas em busca de pistas.

CSI é uma febre no mundo inteiro, inclusive aí no Brasil, mas o que pouca gente sabe é que há uma brasileira no time de cerca de somente 50 profissionais contratados nos Estados Unidos para trabalhar exclusivamente como artista forense. Ela se chama Catyana Skory e trabalha no departamento de policia do condado de Broward, em Fort Lauderdale.

Catyana Skory no estacionamento do Broward Sheriff’s Office. Foto de Carla Guarilha.

esde maio de 2008, quando chegou na Flórida, Skory já fez a reconstrução facial e crânio-facial de mais de 170 vítimas para identificar cadáveres.

Quando ela não é chamada imediatamente no local do crime ou acidente, a primeira parada de Skory é no necrotério, onde ela observa o cadáver e tira fotos. Depois, ela leva para seu escritório a cabeça do morto e todos os relatórios policiais para começar a visualizar o rosto.

“Informação de cabelo e roupa é muito importante”, diz a artista forense, que começa o trabalho esculpindo e reconstruindo a cabeça. Primeiro ela coloca os olhos e depois músculos para dar forma. “Só olhando o crânio dá para ler o rosto”, diz.

Skory no seu escritório do Broward Sheriff’s Office. Foto de Carla Guarilha

Skory nasceu em São Paulo, em 1975.

Mas sua história com o Brasil começou em 1927, quando seus bisavós imigraram do Japão para o município de Registro, hoje conhecido como o marco da colonização japonesa no estado. Junto no navio vinha a filha do casal, com 7 anos, a avó de Catyana, Teruko Matsuzawa, a pessoa mais importante de sua vida.

“Ela era divertida e estava sempre sorrido”, diz a neta que mantém a foto da avó no escritório, a única foto de família pendurada na parede, ao lado dos seus computadores, como se fosse uma luz inspiradora.

“Sempre busque a felicidade onde estiver” foi a maior lição que aprendeu da avó, com quem conviveu intimamente. “Ela morou conosco depois do divórcio dos meus pais e comigo depois da minha separação”, diz Skory.

Foto de Carla Guarilha.

Sua mãe saiu de casa cedo para estudar letras em São Paulo, onde conheceu o pai de Catyana, um dos primeiros jovens americanos a aderir ao programa de Peace Corps, criado pelo governo Kennedy, em 1961, como uma espécie de intercâmbio com o intuito de aproximar os países, facilitando a paz mundial e compreensão entre os povos. Logo se casaram e quando o prazo do trabalho voluntário do pai no Brasil terminou, o casal se mudou para Nova York, com a filha pequena.

Catyana tinha pouco mais de um ano.

Ela cresceu nos Estados Unidos, mas sua avó, apesar de ter nascido no Japão, continuou sempre sendo seu maior eixo com suas raízes no Brasil. Era a única pessoa com quem falava português na família e com quem passava as férias escolares em Registro – até ela falecer, há dois anos.

Catyana diz que como ela, sua avó também nunca teve medo da morte.

“Ela queria conhecer o necrotério e eu levei”, conta Catyana. Ao saírem, bem humorada, a avó ligou para alguns amigos para contar: “Eu vi uma pessoa morta hoje”.

“O mundo é maior do que conseguimos ver”, diz Catyana. “Não dá para saber o que está embaixo de tudo ou atrás”.

Dizem que todo mundo sempre tem “esqueletos no armário”. Skory traz os seus para o escritório. Foto de Carla Guarilha.

Catyana se vê mais como uma artista plástica do que uma cientista. Ela adora pintar.

Seus estudos universitários começaram no curso de artes na Universidade de Colorado. Mas uma aula de antropologia mudou seu rumo. Ela se encantou com a disciplina.

“Eu queria entender as raízes da humanidade, dentro de conceitos de moral, ética e cultura”, diz a artista forense, que tem dupla nacionalidade – brasileira por nascimento e americana pelo pai. “Era muito confuso. No Brasil, eu não era brasileira. Nos Estados Unidos, eu não era americana. Não sou branca nem asiática”.

Antropologia ajudou no seu autoconhecimento e na formação de uma identidade individual que hoje compreende melhor aos 37 anos, mas foi também a disciplina que lhe abriu as portas para uma nova descoberta: ciência forense.

Foi lendo um livro de antropologia numa visita ao Brasil, em 1997, que descobriu o trabalho de reconstrução facial.

Se formou em antropologia e história na Universidade do Estado de Nova York em 1996 e, em 2000, completou mestrado em ciência forense na Universidade George Washington, na capital americana.

Entre 2000 e 2008, trabalhou no instituto médico legal em Fairfax, Virginia, depois em Dallas no Texas e foi investigadora de CSI – Crime Scene Investigator – em Manassas, também em Virginia, até ser contratada há quatro anos em Broward, exclusivamente como artista forense.

Catyana Skory usa Photoshop no processo de reconstrução facial. Foto de Carla Guarilha.

“Os mortos têm paz mas não têm voz”, diz ela. Com seu trabalho, Catyana diz que consegue dar “voz” através de uma imagem para que os mortos sejam identificados por seus familiares, trazendo assim um pouco de paz para eles.

Como existem muito poucos profissionais no país, o último caso que resolveu foi um pedido especial do instituto médico legal de Ohio, que enviou o crânio da vitima e todo o material disponível. “Fiz a reconstrução facial, mandei a fotografia e colocaram na televisão”, diz a artista forense. “Em um dia a sobrinha dele telefonou e disse: ‘acho que esse é meu tio’”.

Para saber mais sobre o trabalho de Catyana Skory, visite sua página na rede social LinkedIn, onde ela também criou um grupo de discussão para artistas forenses no mundo — Linkedin Discussion Group for Forensic Artists.

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