Baby do Brasil ressurge em show dirigido pelo filho

 Baby e Pedro estarão juntos dia 31 num palco montado no Jockey Club Foto: Divulgação/Daniela Dacorso
Baby e Pedro estarão juntos dia 31 num palco montado no Jockey Club

Leonardo Lichote, em O Globo

Bernadete Dinorah fugiu de casa aos 16 anos, saindo de Niterói e caindo em Salvador, onde assistiu ao show “Barra 69”, conheceu Caetano, Gil, Moraes, Pepeu, participou da criação dos Novos Baianos e se tornou Baby Consuelo — nome de uma personagem do filme “Meteorango Kid”, de André Luiz Oliveira. Tempos depois, a roda da vida deu uma volta completa, e foi a vez de seu quarto filho, Pedro Baby, decidir tomar seu rumo e, aos 17, partir sozinho para morar nos Estados Unidos, para tentar construir sua identidade musical por lá.— Quando decidi ir, fui falar com minha mãe, que disse algo de que nunca me esqueci: “Que bom que você não vai precisar fugir, porque eu precisei.” Entendi ali que ela estava me abençoando — diz Pedro. — Não falava uma palavra de inglês. Mas minha mãe sempre me ensinou a lei da ação e reação. É só fazer o bem que ele volta.

Como Baby (e como o pai, Pepeu Gomes, de quem ela se separou no fim dos anos 1980), Pedro amadureceu na estrada. Hoje, aos 34 anos, guitarrista e violonista de artistas como Marisa Monte e Gal Costa, assina a direção musical do show que a mãe faz no dia 31, no Vivo Open Air, no Jockey Club, com participação de Caetano e, sugestivamente, após a exibição de “De volta para o futuro”. O menino que era levado no colo da cantora na capa do disco “Pra enlouquecer”, de 1979, agora procura levar a mãe de volta a um lugar que é o seu — como cantora que afirmou sua originalidade com os Novos Baianos na década de 1970 e emplacou hits ao longo dos anos 1980. Um lugar do qual andava afastada.

— Ela tem uma neta de 21 anos que nunca a viu cantar. Tem uma geração nova que não faz ideia de quem seja Baby do Brasil — explica Pedro, que se inspirou na experiência como músico do show “Recanto”, de Gal, que redimensionou a baiana na música brasileira contemporânea. — Um dia Gal me perguntou se eu já tinha tocado com a minha mãe. E disse: “Deve ser a maior emoção para uma mãe tocar com o filho.” Foi meio um recado, “vai tocar com a sua mãe!”. Já vinha pensando nisso há dois anos, quando Diogo (o empresário Diogo Pires Gonçalves) me sugeriu a ideia. Agora é o momento certo, e um presente para os 60 anos dela.

Sobre Lady Gaga: ‘Oro sempre por ela’

O sumiço de Baby tem a ver com sua conversão à fé evangélica, no fim dos anos 1990 — ela chegou a fundar a própria igreja, Ministério do Espírito Santo de Deus em Nome do Senhor Jesus Cristo. Lançou três CDs gospel desde então, mas pouco atuou fora do nicho religioso.

— Nesse período, além do gospel, só fiz um tributo a Assis Valente e um show com Ademilde Fonseca e Elza Soares — conta, apontando indiretamente duas referências fundamentais (ela também destaca Gal como uma “influência fantástica”). — Nunca fiquei preocupada em dar prosseguimento ao sucesso. A obra está aí e vai ser avaliada. Agora está sendo delicioso ver o olhar de Pedro sobre mim. E lembrar o que fiz, ver no repertório uma lista enorme de sucessos. Construí uma carreira maravilhosa, com arranjos lindos de Pepeu. E tive uma importância grande em termos de comportamento, cantando grávida, falando do homem poder ser feminino sem deixar de ser homem (ela é coautora de “Masculino e feminino”, sucesso de Pepeu). Minha formação foi com os Novos Baianos, nosso único interesse era fazer música… e jogar bola (“Fazendo música, jogando bola” é uma canção sua e de Pepeu). Eu me acostumei a ser expressão da minha criatividade.

Sua liberdade se refletia nas roupas e nas cores do cabelo (“Ela e meu pai foram barrados na Disneylândia por causa das roupas e dos cabelos, ou seja, eles eram ousados até para os Estados Unidos, supostamente mais livres”, diz Pedro, lembrando o episódio que gerou a canção “Barrados na Disneylândia” ). Por seus adereços incomuns (espelho na testa, por exemplo), amigos chamaram a sua atenção sobre Lady Gaga:

— Disseram: “Ela faz o que você fazia lá atrás” — conta Baby. — Mas ela cai para um lado mais grotesco, pesado, que nunca foi a minha. Quando soube, procurei e vi umas imagens dela numa cama cheia de cobras… Fiquei com uma pena danada (risos). Fico preocupada com essa menina, oro sempre por ela. Sério!

A cantora não vê incompatibilidade entre sua devoção ao cristianismo e as canções feitas no período antes da conversão:

— Sempre fui muito espiritual. Quando fui para a Bahia, aos 16 anos, foi um chamado de Deus. E hoje vejo que todas as minhas canções espirituais têm relação com o cristianismo: “Telúrica”, “Sem pecado e sem juízo”. Segui vários caminhos, mas nada me agrada mais do que estar com a diretoria, com Papai. Não quero mais saber de recepcionista — diz a cantora, em ótima forma vocal. — Não bebo, não fumo, me cuido. De tudo que experimentei, a melhor onda é a do Espírito Santo.

O repertório do show do Vivo Open Air — a ideia é que seja o primeiro de uma série — contemplará as chamadas “canções espirituais” pré-gospel. Além das citadas por Baby, estará lá “Minha oração”, gravada em “Ao vivo em Montreux” (1980):

— Uma música que tira todo o ranço de caretice — diz Baby.

A canção é um dos lados B pinçados por Pedro para o show, que incluirá também sucessos, numa panorâmica da carreira da cantora. Panorâmica pessoal, nota o diretor:

— É meu olhar, o que eu gosto, o que eu tenho saudade de ouvi-la cantar. Sucessos como “Menino do Rio” (que Caetano compôs para ela), “Sem pecado e sem juízo”, “Todo dia era dia de índio”, coisas dos Novos Baianos como “Tinindo trincando”, esquecidas que vão soar como inéditas, músicas que ela nunca cantou ao vivo… Quero lembrar a compositora, trazer canções que as pessoas não sabem que são dela, como “Masculino e feminino”, que ela fez para meu pai.

A ideia de Pedro é mostrar as “diversas Babys” (a própria se define como tendo “um lado chique e outro hippie”), num roteiro repleto de memórias:

— Ela sempre foi uma grande incentivadora minha, de minhas irmãs (do trio SNZ), do meu pai. Ela me põe no palco desde os 6, 7 anos, eu ia lá fingindo que tocava. A primeira vez que toquei num palco de verdade foi em 1992, com ela, em “Menino do Rio”. E foi com o dinheiro do show que fiz com ela no carnaval de 1996 que viajei para os Estados Unidos (onde viveu entre 1996 e 2001 e entre 2003 e 2006).

Pedro quis formar uma banda que tivesse o espírito daquela que acompanhou Baby e Pepeu (“Havia um clima família, muito sorriso por trás do som feito por aquela turma que vinha dos Novos Baianos e seguiu com meus pais”, define). Chamou então um grupo de músicos (quase todos de sua geração) como o primo Betão Aguiar, os amigos de temporada em Nova York Renato Brasa e Carlos Darci (ex-Black Rio), Donatinho, Leonardo Reis, Guerrinha e Maico Lopes.

— São todos amigos de longa data, pelo menos dez anos — conta Pedro. — Muita coisa vai ficar bem próxima dos arranjos originais, que eram modernos, tinham ideias superamarradas. Mas, naturalmente, são diferentes na mão de músicos dessa geração.

A cantora — sobre quem o diretor Rafael Saar prepara o documentário “Apopcalipse segundo Baby” — não pensa nos desdobramentos do show:

— Só quero fazer meu melhor sempre, onde entrar.

Sobre a chance de um CD nascer do show, Pedro brinca:

— Só Deus sabe.

foto: Divulgação/Daniela Dacorso

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