Desmentindo imagens antirreligiosas preconceituosas

Robson Fernando de Souza, no Bule Voador

Como prometido, eu trouxe, mesmo com o encerramento da sequência regularmente semanal, mais um post da sérieDesmentindo imagens antirreligiosas preconceituosas, já que encontrei figuras antirreligiosas que merecem muito críticas e refutações. As duas imagens abaixo, assim como as outras, tratam as religiões em geral como escórias, generalizam à sua essência abusos de facções fundamentalistas e distorcem a relação, conflitante ou não, entre religião e ciência/tecnologia.

A primeira insiste que um mundo sem religião seria hoje em dia um mundo “jetsoniano”, de progresso incessante e prosperidade humana. E  a segunda trata cristianismo, islamismo e judaísmo como lixo, escória, rejeito, algo que precisa ser extirpado da humanidade – e sua refutação provavelmente será polêmica, já que trabalha em cima da possibilidade de liberalização gradual dessas religiões, algo que nem todo ateu concorda ou tem paciência de aguardar.

Repetindo a mensagem dos outros posts: refutar essas imagens é importante não só para amadurecer o movimento ateísta, como também para evitar que os religiosos criem mais um motivo para preconceituar os ateus – o de que seríamos pessoas arrogantes e dispostas a mentir e distorcer fatos para hostilizar e combater a fé e espiritualidade de quem possui crenças religiosas.

 

“Religioff” 2

Essa imagem, que idealiza a existência de uma utopia “jetsoniana” unicamente graças à extinção ou inexistência das religiões, comete os seguintes erros e falácias:

a) Como toda imagem antirreligiosa que vem passando por aqui, essa também generaliza a todos os sistemas religiosos existentes – o que inclui desde as religiões abraâmicas até os sincretismos, neopaganismos, xamanismos, crenças indígenas, religiões dhármicas etc. – os abusos de uma denominação cristã (Igreja Católica medieval);

b) Falácia do espantalho: Diz que as religiões e a espiritualidade impedem o desenvolvimento das tecnologias, que religião (antropologicamente falando) teria algo intrínseco contra a tecnologia, quando isso nunca chegou a ser verdade, nem mesmo com a perseguição de cientistas questionadores de dogmas na Europa católica e no Oriente Médio depois do fim da Era de Ouro do Islamismo, e hoje em dia não há qualquer tentativa religiosa de impedimento do desenvolvimento das Engenharias e suas tecnologias;

c) Insiste no erro da imagem do falso “buraco científico” da “Idade das Trevas cristã”, ao supor uma realidade que seria impossível de qualquer jeito de acontecer no segundo milênio da era cristã;

d) Supõe, de forma totalmente infactual e improvável, que o futuro “jetsoniano” da imagem não terá qualquer forma de espiritualidade, mesmo minoritariamente;

e)Non sequitur com conclusão irrelevante: Estabelece uma relação, que na verdade não existe, entre a Inquisição e o futuro tecnológico das civilizações ocidentais. Cria a seguinte linha de raciocínio desconexa: “A Igreja Católica promoveu a Inquisição no passado, logo um mundo sem religião terá um futuro de tecnologias apreciavelmente avançadas.”

f) Cria uma falsa relação de oposição entre dois fatos que na realidade não possuem qualquer relação entre si – a Inquisição das idades Média e Moderna e o desenvolvimento tecnológico ocidental do século 21;

g) Também cria uma falsa oposição entre espiritualidade e a tecnologia, afirmando inveridicamente que uma sociedade com religiões não pode desfrutar de um desenvolvimento científico-tecnológico apreciável e assim negando partes valiosas da História humana – como o desenvolvimento das civilizações engenheiras da Antiguidade e da Idade Média (egípcios, maias, astecas, incas, nazcas, gregos, romanos, fenícios, chineses, sumérios etc.), a Era de Ouro do Islamismo, o fato de muitos nomes clássicos da Ciência terem sido religiosos e até mesmo tentado inserir crenças cristãs no meio científico (como Isaac Newton, René Descartes e o monge Gregor Mendel), entre tantos outros acontecimentos;

h) Ignora que, sem religiões para inspirar a tecnologia arquitetônica nas mais diversas civilizações – incluindo a Europa católica -, a Engenharia Civil de hoje provavelmente estaria séculos atrás do seu estado atual. Ou seja, se tivermos cidades “jetsonianas” até o final do século 21, iremos dever isso, em parte, aos avanços desse ramo da Engenharia empreendidos graças à demanda religiosa por templos;

i) Ignora as relações, destrinchadas por Max Weber, entre a ética protestante euro-americana e o desenvolvimento do paradigma industrial-capitalista do progresso material e tecnológico.

 

A “evolução” intolerante que compara religiões abraâmicas a lixo

Uma mania de muitos ateus credofóbicos é comparar religiões, mesmo em sua essência espiritual e filosófica, a lixo e afirmar que elas precisam ser erradicadas para que a humanidade vivencie uma evolução moral e racionalista. É o caso dessa imagem. Como está claro, ela é preconceituosa e ofensiva, ao tratar fé e espiritualidade como lixo. Longe de perceber que culturas e também religiões vivenciam mudanças internas influenciadas de fora e/ou de dentro, trata o cristianismo, islamismo e judaísmo como coisas completamente malignas, descartáveis e incapazes de serem reformadas.

É de se acreditar que se critica aí a imutabilidade moral dos livros sagrados das três religiões, mas, se for isso mesmo, cai-se em erro. Isso porque religiões podem sim mudar, a exemplo de muitas igrejas cristãs espalhadas pelas Américas, em especial no Brasil e nos EUA. Nesses dois países, muitas igrejas defendiam o racismo, inferiorizavam negros, mas isso virtualmente acabou – ou pelo menos as igrejas racistas tornaram-se uma minoria quase imperceptível. O Conclílio Vaticano Segundo é outro exemplo de mudança religiosa, já que liberalizou diversos aspectos da doutrina e liturgia católicas.

Outros exemplos de mudanças religiosas foram a decisão da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (Mórmon) de não mais recusar negros, o aparecimento de igrejas cristãs que respeitam a homossexualidade e a diversidade de crenças e descrenças, o fim do Tribunal do Santo Ofício como entidade judiciária paralela aos Estados, a abolição do antissemitismo enquanto dogma da Igreja Católica e a realização contemporânea de eventos ecumênicos – que seriam repudiados dois séculos atrás.

Religiões podem mudar, mesmo que isso seja lento e implique o abandono de parte da doutrina original dos livros sagrados – como o escravismo e o supremacismo etnocultural. É possível sim que o cristianismo, islamismo e judaísmo se tornem no futuro religiões libertárias, sem que isso prejudique o caráter espiritual dessas crenças.

Por outro lado, negar essa colocação é um direito, mas comparar fé e espiritualidade a lixo é uma ofensa enorme que inviabiliza o diálogo entre ateus e teístas. Não só perpetua uma situação de intolerância mútua, como também proporciona que os ateus continuem sendo vítimas de ódio religioso por “motivos” cada vez mais numerosos.

Se o indivíduo quer criticar as religiões, que o faça. Mas lançar ofensas infantis, como a difamação gratuita de personagens como Maomé e Jesus e a profanação de comparar símbolos sagrados com um lixo a ser eliminado, não é nem de longe uma maneira racional e sábia de convencer os religiosos à reflexão sobre a possibilidade de suas crenças morais e espirituais estarem erradas. Não é nem um pouco produtivo e inteligente tentar ateificar a sociedade colocando na mesa posições intolerantes e fechadas a debate que, passando longe de esclarecer e dialogar dialeticamente, têm como única consequência lógica a incitação da revolta e ódio reativo dos religiosos contra os ateus.

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