Bebê a blog: o limite da exposição das crianças na Internet

Bruno Astuto, na Época

Que pais resistem à deliciosa tentação de sacar da carteira uma foto do filho para exibir toda a graça e a felicidade que o fofucho proporciona? Desde que o mundo é mundo, seja em miniaturas a óleo dentro do camafeu a retratos em preto e branco, é impossível negar o orgulho da descendência e o impulso de despertar o elogio alheio — até porque, ai de quem reagir a uma imagem do pimpolho dizendo “mas que criança feia”. Todo bebê é lindo e ficou estabelecido que é a cara do pai, com leves traços da mãe.

Mas, em tempos de Facebook, Instagram e celular, para que carregar mais um papel impresso na bolsa? Estão lá, ao escrutínio dos amigos virtuais, todos os passos, sorrisos, dentinhos e roupinhas dos pequenos — alguns nem bem saídos da maternidade. Uma amiga se disse outro dia chocada com o álbum virtual de fotografias de uma conhecida na sala de parto, com direito, sobretudo, a posições ginecológicas. E claro que o filme do parto também estava lá, incluindo a trilha sonora e os efeitos especiais feitos por uma empresa especializada em criar sites para divulgação do parto.

Temos, adultos, a faculdade de estar ou não numa rede social. O direito de querer, ou não, ter um perfil aqui e ali, controlando aquilo que desejamos postar. Como não conhecemos claramente as regras de armazenagem de nossas fotos nos provedores desse mega auto-Big Brother, desenvolvemos um filtro intuitivo que nos impede de colocar uma foto comprometedora, esteticamente desfavorável ou da qual poderemos nos arrepender no futuro. Também gozamos da liberdade de deletar um registro do namoro que já terminou ou de uma imagem que merece ser esquecida.

Mas não no Facebook alheio. Nele, ajoelhou, tem que rezar. Se a pessoa não quiser apagar a foto, mesmo diante de repetidas súplicas, não haverá Cristo que consiga dissuadi-la. Para não ser vítima de uma foto indesejada, é preciso não posar para ela e conviver com o estigma da antipatia. Ainda assim, existe o poder da escolha, a faculdade que nos diferencia das outras espécies — e viva ela.

Um bebezinho não tem o poder de dizer sim ou não, e essa geração recém-nascida ainda não sabe o que a aguarda. Pensei nisso diante do novo fenômeno da web, os baby bloggers, bebês que “assinam” blogs de estilo e gracinhas mantidos pelos próprios pais. É o caso do Tiny Times, de uma mãe inglesa que registra a mínima caretinha e gargalhada do filho de dois anos a bordo de roupa

s de grife com a devida legenda dando o crédito à marca. Ao contrário das inúmeras blogueiras de moda que vêm ganhando rios de dinheiro com esse negócio, o pequeno faz propaganda fashion sem faturar um tostão. Mas já existem empresas de olho nele, devido ao sucesso da empreitada. Ele foi até convidado para a primeira fila do desfile da semana de moda da Austrália, onde vive mamãe.

Já há paparazzi nas ruas das grandes capitais fashion do planeta especializados em capturar imagens de bebês estilosos para sites como o Hide and Ho, o Children with Swang e o Planet Awesome Kid, o pioneiro do gênero, com milhões de visitantes em busca de inspiração para vestir suas crianças no último grito da moda. Não por acaso, a maioria das grifes de luxo está lançando linhas infantis, de olho no crescimento de 8,5% do mercado.

Será que, assim que se derem conta da própria aparência (o que acontece, em geral, a partir dos 3 anos), essas crianças não desenvolverão uma sufocante angústia de parecer eternamente bonitas para agradar aos pais? Ou a fobia de exposição que, até o advento das redes sociais, era “privilégio” dos filhos de celebridades? Ou pior: uma irresistível atração pelas câmeras e pela autopromoção para se sentirem amadas e cortejadas?

Postar uma ou outra foto do bebê na rede é bem compreensível; quase o mesmo impulso que nos leva a sacar o retrato da carteira. O problema, como sempre, é o exagero. Ao tentar fazer do filho uma isca de curtidas e comentários positivos nas redes sociais, os pais lhe negam o direito ao anonimato e à discrição. É em casos como esses que dou valor ao bom e velho álbum de papel, que desenterramos do fundo do armário, por vontade própria, para recuperar as lembranças que não temos dos tempos em que dormíamos candidamente no berço protegidos por papai e mamãe — sem que um flash estivesse à nossa espreita a todo instante.

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