As promessas do troféu

Giuliano Barcelos, no Irmãos.com

Sempre fui revoltado com o mercantilismo que acontece no meio gospel, porém tomei a decisão diante de Deus de não ser mais omisso frente a esta operação maligna que tem assediado com veemência cristãos bem intencionados até o ponto de conseguir seduzir alguns com as mais astutas artimanhas do inimigo de nossas almas. Já disse o pastor Martin Luther King Jr, “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”.

Ocorre, pela segunda vez, o Troféu Promessas, realizado pela Geo Eventos e promovido pela Rede Globo, que tem como principal objetivo reunir e premiar os cantores da música evangélica nacional que cumprem com excelência o papel que têm de adoradores, conforme material divulgado pela assessoria de imprensa do troféu e publicado em diversos sites.

Tal declaração já  suscita de início uma pergunta: se a adoração é (ou pelo menos deveria ser) feita exclusivamente a Deus, como julgar qual é o melhor adorador, ou mesmo o mais relevante? Número de cópias de CDs vendidas? Número de shows? Público nos shows?

Olhando os candidatos e músicas concorrentes em cada uma das categorias do troféu, tem indicações que me dão arrepios na espinha. Só para citar um exemplo, “Sabor de Mel”, da Damares, concorre como melhor música, uma canção recheada de frases e pensamentos anti-bíblicos. Nem quero apresentar uma defesa bíblica contra esta e outras músicas, senão este artigo vira um livro, visto que a intenção principal não é esta mesmo porque, ter “Para Nossa Alegria” concorrendo como revelação é pregar chiclete na cruz!

Sondando um pouco mais o site do troféu, temos outra declaração interessante: “Mais do que uma simples premiação, o Troféu Promessas torna-se instrumento para honrar a vida daqueles que se dedicam a exaltar fielmente o Senhor por meio da música.”

Não tenho nada contra reconhecer o talento musical e até mesmo a dedicação desses cantores e bandas, ainda que tudo seja vaidade, como o azedo Eclesiastes nos ensina. O que me preocupa neste ponto é a ditadura da honra que cada vez mais “toma posse” do meio cristão, notadamente o meio neo-pentecostal. É um tal de Deus vai te honrardaqui, Deus vai me honrar dali e Deus tem que me honrar acolá que chega a assustar. Essa coisa toda talvez faça alguns se lembrarem de um certo rei, né? Rei de alguma outra terra, e olha que isto nem é coisa nova.

Zé Bruno, líder da banda Resgate escreveu um texto primoroso usando de muita ironia para revelar um pouco do funcionamento da votação do troféu e alguns “benefícios” de se ganhar a tal estatueta em forma de arca. Qualquer coisa que eu fale aqui neste sentido é chover no molhado.

A Geo Eventos é uma empresa especializada em eventos nem tendo como principal foco o mercado gospel. A Globo é conhecida por não ser a emissora mais amiga dos cristãos, então por que as duas se juntam para promover um festival gospel? Não consigo encontrar outra resposta senão MERCADO!

O mercado gospel é o segundo do país em vendagem de CDs, perdendo apenas para o sertanejo. A Som Livre, empresa da Rede Globo, distribui CDs do Diante do Trono; a Sony Music criou uma divisão específica para o meio gospel e tem entre suas contratadas Cassiane e Damares.

Não se iluda, não há nenhum prêmio criado que não sirva ao comércio, ao mercado. Ter em seu filme um ator premiado com o Oscar é mais caro para o produtor. O show de um cantor agraciado com o Grammy não é diferente.

Sei que haverá quem diga que com isso a Palavra de Deus está alcançando lugares nunca dantes conseguidos. Que esta é uma oportunidade de ouro que não pode ser ignorada e que é Deus quem está abrindo essas portas. Eu entendo a postura dessas pessoas, consigo compreender a lógica desse argumento, mas continuo achando isso tão vontade de Deus quanto foi a transformação do cristianismo na religião oficial do império romano por Constantino, golpe tão bem engendrado que transformou a Igreja Cristã Primitiva na Igreja Católica Apostólica Romana com toda a sua história nada cristã. E, sinceramente, isso também me parece um pouco de desculpa para que alguns cristãos não precisem evangelizar, já que a música gospel está chegando em todos os cantos.

Aprendi na igreja que congrego que comparação não é coisa de Deus, pois Deus não fica preocupado em premiar se um é melhor cristão que o outro e concordo com isso. Isto é vaidade!

Como disse brilhantemente Al Pacino no final do filme Advogado do Diabo, fazendo ele o papel do próprio cramulhão: “A vaidade é definitivamente o meu pecado favorito”.

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