Cinzas das horas

Arte de Priscila Seabra

Laion Monteiro, no blog Ensaios do Afeto

A vida desmentiria mais uma dura convicção. Justamente ela, a que afirmou com todas as letras que não se permitiria mais àquele tipo de movimento. Ela, que na roda dos amigos mostrava-se impenetrável, fechando possibilidades, testando o próprio destino. Ela, que escondia sua timidez no excesso de palavras e evidenciava fraquezas antes que alguém as descobrisse. Agora, não sabia o que fazer com tanto medo, tanta preocupação. Desconhecia-se tão vulnerável.

E quanto mais vulnerável se tornava, mais força empreendia pra se defender. Como aceitar isso? Onde eu me descuidei? Não quero, ou melhor, não posso. Estou bem como estou, mas…e isso, e isso…aqui dentro de mim que me faz parecer uma criança numa nova brincadeira? Não, não é possível. Pronto: você não está assim. É coisa da sua cabeça, brigava consigo. Não é verdade que estou assim. Era muita negação pra não ser nada. O medo explicava tanta violência. Temia sofrer novamente o que havia desacostumado de sofrer.

Atormentava-se diante da possibilidade de se desconhecer um pouco mais já na casa dos 30. A atenção no trabalho ficou afetada: rasurava coisas sem nenhum sentido, apagava o que nem tinha feito, acompanhava as idas e vindas do ventilador, imaginava diálogos, antecipava reações, relia emails institucionais antigos pra não revelar seu completo estado de desatenção: ela nunca estava onde estava. Quando é o exato instante em que um sentimento irrompe em nós? O que fazemos ou deixamos de fazer pra que tudo aconteça ou deixe de acontecer? Donos da razão ou servos passionais? Ela vigiava os anseios com a mesma obsessão que vigiava o telefone. Sozinha, tinha medo de se sentir observada; acompanhada, medo de deixar os outros sozinhos. Não se controlava mais. Perdeu as rédeas de si e o que sabia somente era que dentro dela havia uma águia que batia suas asas violentamente.

Passou a respeitar solenemente os romances dos amigos. Estranhamente deixou de falar de amor. Ela tinha medo, o medo a tinha. Inventava histórias e razões pra se ver livre do medo. E assim, com medo, concluía sempre pelos outros por sentir medo de estar sendo óbvia demais. A verdade é que ela havia desistido da vida e não se conformava que a vida não havia desistido dela. Sua infância estava novamente à tona. Arquitetava perguntas necessárias e evasivas baratas. Tinha medo da vergonha que aparece nas sinceridades; de corar, falando de curiosidades.

Esforçava-se em ser interessante, em equilibrar a entrega e não deixar escapar nada pelos olhos. Dentro dela, um caos generalizado. Lembrava do passado e das vezes que viveu algo semelhante. Das vezes em que, sozinha nisso tudo, precisou matar o amor pra que o amor não a matasse. Voltou pra academia, procurava entender o que acontecia com ela – queria acabar com aquilo tudo. Perdeu a liberdade e já não podia escolher não querer, ela era. Era alguém que descobria um pouco mais da vida e menos de si, mais de si e um pouco menos da vida. Treinava a mente pra não querer, mas um cheiro fazia desabar sua resistência. Todas as suas certezas, convicções e posturas ruíram.

O destino falou mais alto e a realidade se impôs. Vivia nas cinzas das horas. Não sabia o que fazer com tanta inteligência. Seu pensamento sentia, seu sentimento pensava. Tudo o que olhava era marcado por aquela loucura. Sua razão já tinha virado escrava da paixão. Na noite de uma sexta-feira, apagou o cigarro na janela molhada e secou rapidamente uma lágrima que sulcara seu rosto nu. Teve medo de, mais uma vez, voltar sozinha da viagem que todo o seu corpo já tinha feito pra dentro do peito dele.

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