Por cristãos menos raivosos

Imagem: Google

Márcio Rosa, no Inquietações de um aprendiz

Dia desses, postei numa rede social uma crítica a um desses pastores televisivos, mais especificamente a um que é bem raivoso e histriônico, que prometia ir à São Paulo, ele mesmo do Rio de Janeiro, para “arrebentar” um candidato a prefeito. Minha pequena postagem demonstrava minha inquietação diante do estímulo à intolerância que aquele senhor promove. Sua linguagem violenta é deselegante e imprópria para um cristão, para dizer o mínimo. Tal pessoa tem uma obsessão contra homossexuais que talvez só Freud poderia explicar.

Mal sabia eu que, em poucos minutos depois da minha postagem, levaria uma saraivada de impropérios escritos por gente religiosa, que, pelo visto, foi muito bem doutrinada pelo tal pregador. Fiquei espantado com a violência das palavras, com a insolência, com o desrespeito e a intolerância de quem se diz discípulo de Jesus de Nazaré.

Fiquei a imaginar qual o benefício que gente assim pode trazer a um mundo já violento, intolerante e cruel. Qual a diferença positiva, qual a transformação, qual o bem que se pode produzir tendo essa postura belicosa? Nenhuma. Ao contrário, foram pessoas assim que promoveram as Cruzadas sanguinolentas na Idade Média e que acenderam as fogueiras aos pés de quem pensava diferente. Será que a vida e a mensagem de Jesus tiveram o propósito de gerar esse tipo de pessoa? Acredito que não.

Esse pessoal vive dizendo que não podemos ser iguais às “pessoas do mundo” e tal, mas não há nada mais mundano do que ser intolerante, discriminatório, odioso. Para ser diferente, num mundo violento e sem graça, é necessário promover a igualdade, a dignidade das pessoas, independente da condição social, cor, religião ou orientação sexual. Para ser diferente, é preciso ter gentileza no viver para, como disse o profeta, gerar gentileza. Diferente é quem abre mão da violência no agir e no falar. É ter um olhar compreensivo e humano para com os diferentes. O que passa disso é mundanismo disfarçado de piedade, uma piedade pervertida, como diz Ricardo Quadros Gouvêa.

Não consigo enxergar Cristo nessa gente de cenho franzido e dedo em riste, porque não consigo ver amor em suas atitudes. E onde não há amor não há Deus, e, ao contrário, onde há amor, Deus aí está, como disse Tolstói. Cristo era amigo de pecadores, gostava de festas, amante da comensalidade, tinha bom papo. Promoveu a dignidade de pessoas que, na época, eram excluídas como mulheres, crianças, leprosos e prostitutas. Gostava de fazer amigos, comer peixe assado com pão à beira da praia, conversar no alpendre, à beira de um poço ou numa caminhada qualquer.

Jesus só franzia o cenho e colocava o dedo em riste para reprovar com veemência quem fazia comércio das coisas sagradas, ganhando dinheiro às custas da fé alheia, quem usava a religião para manipular pessoas com o propósito de conseguir poder político e econômico, hipócritas, portanto. Coincidentemente, os pregadores televisivos não utilizam seus programas para reprovar as mesmas coisas, elegeram um outro grupo para bater. Por que será?

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