Tempos hipermodernos, velhos personagens

Tom Fernandes, no Pequenos Dramas

Deve ser difícil a vida hoje para lobos bobos e ovelhas lelés. São personagens caricatos, de ingenuidade e esperteza também caricatas. São personas monocromáticas vivendo em um mundo em cores de alta fidelidade. Não deve ser fácil para os lobos bobos ter Reinaldo Azevedo como referência política e Olavo de Carvalho como livre pensador. Se bem que cultuar Zé Dirceu e Paulo Henrique Amorim como tais é prova de que a maquininha de tosquiar acabou lobotomizando as ovelhinhas.

Fácil, tranquilo como uma manhã de domingo deve ser repetir jargões, bordões e frases feitas copiadas da internet e servidas com arrogância em conversas. Basta serem dogmáticas e atribuídas a alguma figura “incontestável”. Quer transformar esta manhã num domingo sangrento? Discorde! Diga ao dono da verdade “Professor, deixe as crianças em paz!” e, pronto, você será atacado. Afinal, coisa que lobos bobos, de profundidade alguma, sabem fazer é atacar de forma um tanto apatetada quem mostre o quanto são ridículos em cima de foguetes caçando passarinhos.

Reconheço que lidar com a informação, com o conhecimento, com o saber fora das páginas absolutas dos livros caros de uma época em que ler era símbolo de status social e econômico é tarefa que assusta. Saber que num ponto qualquer da rede há alguém mais arguto, mais novo, mais pronto e mais hábil deve ser desolador pra quem se prende ao ranço academicista e, leitor privilegiado que era dos jornais da capital, se supunha muito melhor que os inteligentes locais. Hoje, ser apenas mais um comentarista de blog de política com viés maniqueísta, seja ultraconservador, seja revolucionário ultrajovem, deve provocar calafrios dignos do Frajola ao se ver abismo abaixo.

O que fazer, para onde ir, se só você tem as palavras de vida eterna?, perguntam os adoradores da santa platitude. Os cultuadores do óbvio ululante agora procuram qualquer lugar comum para se sentirem em casa. Mas há uma porta pintada na parede! Há uma saída pela esquerda! Esta até o Eufrazino Troca Tapas sabe: “Se não pode com eles, junte-se a eles!” Ou, na impossibilidade, junte-se aos inimigos deles. O que pode haver de pior nestes dias do que essa desconstrução do saber e dos sabidões? O renascer dos trolls, dos ataques covardes e, preferencialmente, anônimos. Junte-se a este exército numa emboscada final.

Nesta hora, até as ovelhinhas sabem o que fazer. Basta berrar toda vez que a pessoa odiada abrir a boca. Nem precisa fazer sentido, berrem!, explica o Manual da Ofensa Geral e Desqualificada. Para que discutir abertamente, para que se abrir ao argumento pelo argumento, para que reconhecer algo novo vindo de alguém também novo? O MOGD diz que, uma vez que seus argumentos de autoridade sejam descontruídos, você deve acusar seu inimigo (Lembre-se sempre: Deus está do lado de quem vai vencer!) de ser inferior; mas diga isso com um adjetivo no diminutivo. Tente “bobinho” se tiver respeito pelo adversário. Se não, vá de “burrinho” mesmo e tente esconder seu desespero. Se o interlocutor ousar descontruir sua fonte ou replicar com outra, apele e o chame de “pretensioso” (afinal, quem pode contradizer você e escapar ileso, não é mesmo?). Percebeu que a plateia está solidária ao pobre coitado? É hora de pesar a mão e chamá-lo de “ignorante”. Persista duvidando das capacidades intelectuais até plantar uma razoável dúvida sobre seu oponente. Já dura o embate e você está sem forças para continuar? Lembre-se das aulinhas de teatro do colegial (ou da Carminha) e se faça de ofendido. Diga, com olhar de Madre Tereza, que não vai mais tentar salvar o “arrogante” da perdição que é pensar por conta própria.

Nesta hora, quem sabe resolva rezar, mas só se for de fato devoto. Ser católico por opção política conservadora ou simpatizante dos evangélicos por tesão no Malafaia não serve. Reze para que Deus destrua o diferente, o que não pensa igual, o que não aceitou seu cabrestão. Mas, cuidado, como bom católico, você deve conhecer Provérbios 20:10 e saber que “ter dois pesos e duas medidas é objeto de abominação para o Senhor”.

Enfim, se tiver sobrado alguma coisa aí dentro, além da caiada casca, tente rir da situação e entenda que os tempos mudaram. Troque as farpas, os tapas e o deboche por um pouco de sinceridade. A coisa ruim é que nem lobos bobos, nem ovelhas lelés, nem mesmo os discípulos do Eufrazino entendem o valor de uma bela risada. Ao fim de tudo, estarão chamuscados, bufando e tentando entender o que deu errado, uma vez que do outro lado do monitor, alguém rindo perguntará: “O que que há, velhinho?”

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Tempos hipermodernos, velhos personagens

Deixe o seu comentário