Deus é o silêncio

Marcia Tiburi, em Vida Breve

Lembrando que um padre lhe dissera que o silêncio é sagrado, a mulher que passara a noite em claro com uma crise de enxaqueca caminhou pela rua e entrou na igreja depois de comprar os remédios prescritos pelo médico do pronto-socorro, onde foi buscar alívio.

A cabeça ainda doía e ela lembrou-se de rezar pedindo ajuda contra o mal que a mortificava. Se em todos os lugares, rádios, televisores, conversas, objetos que caíam, carros que passavam, tudo provocava uma sensação de catástrofe craniana no mundo profano da vida diária, na igreja ela encontraria a paz, a temperatura e a acústica que se pediu a Deus. A enxaqueca entrava pelos poros, era uma espécie de dor do mundo que podia ser curada com fé e paz. Talvez a enxaqueca tivesse algum fundo simbólico e pudesse ser curada com um pouco de contrição. Era assim que ela pensava. O silêncio podia ser remédio melhor do que aspirinas.

Ela pagou cinco reais para entrar na igreja a outra mulher sentada à porta com um livro por assinar, que lhe entregou um cupom e um panfleto. Ela agradeceu e entrou rapidamente no recinto onde sentiu aquela dúvida bem-aventurada de que estivesse realmente só. Podia-se sentir o peso das paredes, a luminescência dos metais antigos. A abóbada toda pintada e os santos entregues ao simples estar no mundo provocaram nela um suspiro teológico. Era bom demais para ser verdade. Ela se ajoelhou e pôde ouvir o eco do seu próprio movimento sobre o banco de madeira. Abaixou a cabeça, uniu as mãos e penetrou no silêncio sagrado guardado dentro da construção de séculos. Em segundos, sentiu-se tendo um lugar no mundo. Afundou na concentração como quem deita em cama de algodão depois de um dia de trabalho.

Só que não durou. De repente, um voz irrompeu pela igreja desfazendo seu ritual particular. Era a mulher da portaria que resolvera fazer o papel de um estranho guia turístico.

— Esse é o altar-mor. E esses são azulejos portugueses. E os santos foram retirados porque precisávamos limpar. Não é fácil limpar os santos.

A mulher da enxaqueca permaneceu quieta, levantou os olhos decepcionada, sem mudar de posição. A mulher da portaria chamou-a para ver, dizendo que explicaria tudo sobre a igreja:

— Você pagou pra entrar e visitar, tem que saber o que está visitando.

— Obrigada, não precisa, só quero mesmo um pouco de silêncio.

A mulher da portaria, entre a obrigação e a preguiça, preferiu a segunda e deixou a mulher sozinha com sua enxaqueca.

Ela pôde voltar à contrição. Entregou-se ao gesto penetrando novamente no silêncio do qual esperava tanto. Em segundos sentiu-se tendo de novo um lugar no mundo.

Na rua, um carro com alto-falantes a um volume altíssimo, tocando alguma daquelas músicas de que até Deus duvida, acabou logo com a ascese que nem bem começava.

Nós que observamos a cena podemos pensar várias coisas. Que há algo que não cabe nesse mundo, que nele não tem lugar. Algo que não se pode ter, porque não se pode comprar. Algo que escapa, que não se pode ter por preço algum. Talvez isso seja Deus. Em nosso mundo, seu nome é silêncio.

Ilustração: Rafa Camargo

Dica do João Marcos

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