Quando inteligência é regra, estupidez fica mais interessante

Poucos de nós somos tão inteligentes quanto gostaríamos de ser. Você é mais inteligente que o Joãozinho, mas parece burro ao lado da Mariazinha: a inteligência humana varia.

Lars Leetaru/The New York Times

David Dobbs, no The New York Times

Isso é importante, porque pessoas inteligentes geralmente ganham mais dinheiro, têm melhor saúde, criam filhos mais espertos, sentem-se mais felizes e, para piorar, ainda vivem mais.

Mas de onde vem a inteligência? Como ela é construída? Pesquisadores fizeram um grande esforço para encontrar uma resposta em nossos genes. Com a queda do preço do sequenciamento genético, analisaram os genomas de milhares de pessoas, em busca de variantes genéticas que afetassem claramente a inteligência, encontrando, ao final, o grandioso total de duas variantes.

Uma determina o risco de Alzheimer e afeta o Q.I. apenas no fim da vida; a outra parece criar um cérebro maior, mas aumenta o Q.I. em somente 1,29 ponto.

Talvez outros fatores genéticos estejam em questão: um relatório publicado no ano passado concluiu que muitas centenas de variantes genéticas em conjunto seriam responsáveis por 40 a 50 por cento das diferenças na inteligência entre os 3.500 sujeitos do estudo. Entretanto, os autores não foram capazes de determinar quais genes possuíam efeitos mais significativos. E quando tentaram utilizar os genes para prever diferenças na inteligência, eles foram responsáveis por apenas um por cento das diferenças de Q.I.

“Se é tão difícil encontrar efeitos em um por cento”, afirmou o professor de genética comportamental do King’s College de Londres, Robert Plomin, para a revista New Scientist, “chegamos à conclusão de que o copo está 99 por cento vazio”.

Mas o “copo genético” está realmente vazio, ou simplesmente estamos olhando para a coisa errada? Kevin Mitchell, neurogeneticista do desenvolvimento do Trinity College, em Dublin, acredita na segunda opção. Num ensaio publicado no mês de julho em seu blog Wiring the Brain, Mitchell propôs que, ao invés de pensar na genética da inteligência, devemos começar a imaginar a “genética da estupidez”, conforme diz o título do ensaio. Não devemos mais procurar pelas dinâmicas genéticas que ajudam a construir a inteligência, mas pelas que a destroem.

 A premissa desse argumento é a de que uma vez que a seleção natural gerou o conjunto de genes que compõem nosso cérebro grande e inteligente, esses genes se “fixaram” na população humana; praticamente todo mundo recebe o mesmo conjunto de genes e apenas algumas variantes preciosas afetam a inteligência. Isso explicaria a incapacidade de os pesquisadores encontrarem muitas variantes com efeitos mensuráveis.

Mas em outros âmbitos genéticos, as diferenças entre os indivíduos são profundas, como por exemplo, a carga mutacional – o número de mutações que carregamos. Essas mutações tendem a ocorrer em famílias, ou seja, alguns de nós geramos e retemos mais mutações que outros. Entre nossos 23.000 genes, eu posso ter 1.000 mutações, enquanto você tem apenas 500.

A maioria das mutações não apresenta qualquer efeito. Contudo, quando isso acontece, o número de problemas costuma ser muito maior que o de soluções, afirmou Mitchell em uma entrevista, “simplesmente porque é muito mais fácil estragar as coisas do que melhorá-las”.

Abra o capô de um carro que está funcionando e aperte aleatoriamente alguns parafusos e provavelmente o motor funcionará pior do que antes. Da mesma maneira, mutações que alterem o desenvolvimento ou as operações naturais do cérebro provavelmente o tornarão mais lento. A inteligente Mariazinha do começo do texto provavelmente é um modelo padrão vindo de fábrica com baixa carga mutacional, ao invés de um superesportivo artesanal feito sob medida.

Nós também herdamos – por meio de genes que ainda não foram identificados, obviamente – um traço conhecido como estabilidade de desenvolvimento. Em outras palavras, a precisão com a qual o modelo genético é reproduzido. A estabilidade de desenvolvimento garante que o projeto seja seguido à risca, revelando-se de forma mais clara na simetria física. Os dois lados de nossos corpos e cérebros são construídos separadamente a partir do mesmo esquema de 23.000 genes. Pessoas com grande estabilidade de desenvolvimento tornam-se extremamente simétricas. Os dois pés calçarão sapatos do mesmo tamanho, os dois lados do rosto serão idênticos.

Pessoas com menor estabilidade de desenvolvimento tem um pé muito maior que o outro, ou dois rostos na mesma cara. Está duvidando? Tire uma foto digital do seu rosto, divida a imagem ao meio e faça uma cópia espelhada bem no meio. Em seguida, faça uma cópia espelhada de cada e junte com a metade original. Nos dois rostos que acabou de criar – um espelhado para a direita e outra para a esquerda –, poderá ver sua estabilidade de desenvolvimento, ou a falta dela.

Ambas as faces podem ser mais bonitas do que você na vida real, pois geralmente consideramos faces simétricas mais atraentes. Além disso, simetria e inteligência costumam andar lado a lado, uma vez que ambas são o resultado da estabilidade de desenvolvimento. Talvez achemos rostos simétricos mais atraentes porque isso implica em estabilidade no desenvolvimento genético, criando recursos valiosos para a escolha de um parceiro, como melhor adaptabilidade e, naturalmente, inteligência – ou, nas palavras de Mitchell, uma relativa falta de estupidez.

Para os geneticistas, essas ideias não são radicais ou contrárias. Leonid Kruglyak, geneticista de Princeton que estuda leveduras e platelmintos, comentou em um e-mail que os geneticistas reconhecem há muito tempo que as mutações poderiam “jogar areia nas engrenagens do cérebro”, e que o surgimento de características é muito complexo.

“Na melhor das hipóteses, falar sobre a relação direta entre genes e características é uma simplificação extrema”, escreveu, “e uma tremenda falácia, no pior dos casos”.

Mitchell concordou:

“Essa não é uma ideia nova”, afirmou. “Mas ainda não tinha sido aplicada aos estudos de inteligência.”

De fato, talvez não seja nova em folha. Mas esse tipo de “inversão de pensamento” (segundo a bióloga aposentada Janet Kwasniak no blog de neurociências Thoughts on Thoughts) frequentemente dá vazão a novas abordagens em relação a problemas intratáveis.

O Dr. Jay Giedd, que estuda desenvolvimento cerebral nos Institutos Nacionais de Saúde, realizou pesquisas que sugerem que o cérebro floresce por meio de diversos arcos de desenvolvimento, que o tornam reativo às experiências – e vulnerável aos erros. No começo, afirmou por e-mail, não acreditou na ideia de Mitchell. Então, discutiu a esse respeito com colegas em um encontro de neurociências.

“Meu pensamento inicial era o de que seria muito fácil derrubar esse argumento”, afirmou Giedd. Mas quanto mais discutiam, mas sentido fazia. “Todos que discutiram a ideia concluíram que a lógica está perfeita.”

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