Zeca Camargo: Para os que insistem que Baby do Brasil é uma piada

título original: Curti

Zeca Camargo, no G1

Supostamente, Baby do Brasil é uma lembrança de uma piada. Para uma geração que se acostumou a ler, no máximo, legendas de fotos (na verdade, para uma ou duas gerações que vieram antes dessa, e prepararam o terreno para a atual, que adora achar que é revolucionária – quando o ato mais subversivo que seus representantes conseguem exercer é disparar gracinhas na internet com duas ou três palavras ofensivas, de preferência com erros de ortografia e/ou concordância), enfim, para essas gerações que, se já ouviram a expressão “contexto histórico”, acham que ela quer dizer “twitters de mais de 140 caracteres”, Baby do Brasil talvez soe mesmo como uma piada.

Afinal de contas, ela é tudo que quem ri dela morre de medo de ser: livre, desencanada, corajosa, curiosa, criativa, feliz – e cósmica. Já encontrei mais de uma pessoa que pensa assim e, quando meus sólidos argumentos (geralmente de cunho musical) em defesa de Baby não são suficientes para convencê-las do contrário, eu gosto de contar uma história dos meus tempos de MTV Brasil – ou seja, de quase 20 anos atrás.

Baby não é a protagonista dela, mas sim o Sepultura. Isso mesmo: o Sepultura – uma banda que não é exatamente fraca de atitude. Pois bem, no início dos anos 90, quando a MTV do B foi gravar com eles uma reportagem na Disneylândia, em Los Angeles, a direção do parque, sempre preocupada com a imagem do estabelecimento, viu os braços tatuados dos integrantes da banda e exigiu: se eles quisessem circular por ali e registrar tudo; teriam que usar camisetas de manga comprida, justamente para esconder suas tattoos.

E o que o Sepultura fez? O Sepultura – radical, irado, animal! – fez o quê? Comprou camisetas de manga comprida (com os personagens Disney estampados – não me lembro de todos, mas com certeza um deles levava o Pateta no peito) e foi em frente com a gravação.

O que essa história tem a ver com Baby do Brasil? Para ser breve: quando ela – e seu então companheiro, o sensacional guitarrista Pepeu Gomes, viram-se diante de uma situação semelhante, no mesmo parque de diversões, o que eles fizeram? Deram as costas, foram embora, e gravaram uma música chamada “Barrados na Disneylândia”! Se isso não for “atitude”, então não sei mais o que essa palavra significa.

Para minha leve decepção, “Barrados” não foi incluída no repertório que Baby cantou na última quarta-feira num show que fui conferir no Rio de Janeiro. Mas foi, garanto, uma decepção menor, superada, de longe, pelo prazer de perceber que eu sabia cantar quase todas as músicas – aliás, todas, menos uma – que ela e seu filho, Pedro Baby, escolheram para esse retorno, hum, secular.

Esclarecendo resumidamente, “secular” pode ser considerado como o contrário de “religioso”. Como você sabe, há mais de uma década, Baby do Brasil segurou na mão de Deus – e foi. A transformação, de “porra loca” a “casta ovelha”, serviu de mais munição para quem sempre a insistia a fazer dela uma piada. Mas você acha que ela estava muito preocupada com isso? No coração de Baby, não há dúvidas.

“Papai do céu” – a quem ela evoca com essas mesmas palavras, num tom menos lúdico do que carinhoso – é quem a guia desde então, e tudo que faz na vida, inclusive a decisão de estar novamente num palco cantando seus velhos sucessos “pagãos” (que, diga-se, como percebeu espertamente seu filho, nem estão tão longe assim de um bom gospel).

Como ela me contou numa entrevista antes do show, quando Pedro Baby chegou com a ideia de resgatar o repertório antigo da mãe, a primeira providencia dela foi orar, para sentir se o todo-poderoso abençoaria tal decisão. E, generoso como ele só, Deus sentiu que boa parte de seus fiéis celebrariam esse retorno como se um coro angelical descesse dos céus entoando as mais pias cantatas de Bach! E Baby então disse sim. Amén!

Assim, ontem no palco montado no Jóquei Clube carioca, logo depois de uma sessão ao ar livre do filme “De volta para o futuro” – que, segundo Baby, era exatamente o que ela estava fazendo, voltando “para o futuro” -, aquela figura tão “estranha”, desta vez com os cabelos pintados de roxo (para combinar com sua saia?), fazia as vezes de uma pastora acidental, cantando para um punhado de convertidos, sucessos como “Um auê com você”, “Dia de índio”, “Mexe comigo”, e… “Telúrica”! “O pensamento das flores… Significado das cores”… Que prazer ouvir aquilo de novo de sua boca. Foi o nirvana na Terra! Teve também, claro, “Menino do Rio”, que foi (e, suspeito, ainda é) o hino da minha geração, interpretada em parceria com Caetano Veloso – que, sentado ao lado de Baby, a ouviu contar, plena primeira vez, que quando escutava o próprio Caetano no rádio, ainda criança, virava-se para seu pai e dizia: “Eu queria ser amiga desse pessoal aí, eles tem tudo a ver comigo”… Caetano, com uma deixa preciosa dessas, sorriu largo. E os dez anos que os separam – ele, com 70 recém-completos, e ela com seus 60 (“de planeta Terra”, como faz questão de frisar) – dissolveram-se num momento de feliz de adolescência atemporal. Em outro flash de ternura, não apenas dez anos, mas uma geração inteira tornou-se irrelevante quando Baby deu o microfone para Pedro, seu filho, cantar com ela. Como idealizador do “revival”, ele estava radiante de alegria. E com razão: teria sido muito fácil para Pedro, sendo filho (de pai, Pepeu, e mãe) de quem é, colar na genética e tentar uma carreira musical. Mas como todo bom artista teimoso, ele foi buscar um caminho próprio – que passou, entre tantas colaborações felizes, por trabalhos com Gal Costa e Marisa Monte, que, presente na plateia da noite de ontem, aprovava tudo com um sutil mas genuíno gingado, que insinuava ao mesmo tempo admiração e saudade.

Saudade essa que estava presente em todos nós, pelo menos em todos nós que tivemos a chance de ouvir as rádios quando as canções de Baby eram tão tocadas quanto os “parapapás” de hoje. Saudade que estranhamente reverberava também em gente muito mais nova, que sequer era nascida quando Baby já era iluminada por todas as cores do arco-íris – esbarrei com mais de um filho (uma filha) de amigos por lá, em encontros que, ao contrário de serem constrangedores, eram felizes certificados de que éramos todos testemunhas de um espetáculo transcendente.

Ali na frente, do palco, Baby sorria com uma alegria que só não era maior do que a de seu filho. E devolvendo a cada espectador essa emoção, ela desfilava tudo aquilo que, os mais míopes sempre enxergaram como motivo de piada – a voz solta, as cores livres, os versos loucos, o riso fácil. E justamente por tudo isso, ainda deve ter gente rindo dela até hoje – que gente mais sem humor… Explicar para essas pessoas a beleza de ter Baby novamente no palco é um exercício fútil. Aos acostumados à preguiça de resumir todas as opiniões a simples símbolos, os parágrafos que deixei aqui hoje são uma mera somatória de esforços inúteis. A esses, basta a mãozinha indicando que… curti o show dela. Mas para você que veio até aqui comigo, quem sabe, tudo isso que escrevi não faz tanto sentido quanto o mantra que serve de refrão a uma das músicas mais lindas que Baby já gravou?

“Cósmica, a claridade das manhãs / Cósmica, o infinito lá no céu / Cósmica, como a própria Natureza”…

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