Deus não serve pra nada. E agora?

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Publicado por Sostenes Lima

“Se queremos ser autenticamente cristãos, é preciso chegar a crer que Deus é perfeitamente inútil” [François Varillon].

Para que serve Deus? Essa pergunta está na base do sentimento religioso humano. Diante de nossa inalienável condição de desamparo – potencializada, segundo Freud, a) pela contingência da natureza, b) pela finitude e decadência do corpo e c) pelas crises que relações sociais desencadeiam[1]– resta-nos recorrer a Deus, mesmo que Ele dê pouco (ou nenhum) sinal de resposta. O homo religiosus fundamenta sua existência na confiança (ou apenas esperança) de que Deus serve para explicar o desconhecido, atenuar ou reverter a ameaça da natureza, e dar amparo e proteção. Nisso se funda a religião, uma estrutura social[2], cultural, econômica, discursiva universal, tanto no tempo quanto no espaço.

A religião nasceu com o ser humano. O homo sapiens não apenas conseguiu autoconsciência, mas também auterconsciência, das quais nasce a religião. O homo sapiens percebeu que para fora de si existe um mundo desconhecido, contingente, ameaçador; numinoso, por assim dizer. Diante de tanto temor, imediatamente o homo sapiens se torna homo religiosus. Busca explicações para aquilo que desconhece e que o ameaça.

O homo religiosus constrói, então, via discurso e representação social, um ser magnifico, obsconditus, em quem pode depositar seu sentimento de desamparo e temor diante da vida e do mundo. Esse ser que controla tudo pode ser acionado. Restava ao homo religiosus descobrir como fazer isso. Logo desenvolveu os meios para tal. Construiu rituais, os mais diversos. Percebeu que, por meio deles, Deus podia ser agradado, adulado. Isso fazia com que Ele se tornasse favorável a quem oficiava os ritos. O adorador garantiria, então, proteção contra os infortúnios e imprevisibilidade da vida.

O homo sapiens descobriu (construiu) e nos legou um ser que incorpora com perfeição a condição de um superpai protetor e amparador, podendo ser, ainda, um agente de ameaça e vingança contra os inimigos.

O homo sapiens não demorou a perceber que, diante de um Deus que se alimenta de sacrifícios humanos, é preciso tratar a agenda dos rituais com responsabilidade. Não se pode esquecer nenhum ritual; também não se pode fazer o ritual de qualquer jeito. É preciso dedicação e diligência para manter a ordem e excelência das cerimônias. A equação é simples: ritos em dia é igual a Deus feliz, aplacado, favorável. Mas se houver vacilo, a coisa pode ficar muito, mas muito, complicada. Qualquer descuido na prática dos rituais pode mexer com o humor de Deus, tornando-o instantaneamente irado, vingativo. Um Deus sem adulação, bajulação vira demônio, de tão mal que se torna.

Por isso, os manuais de religião recomendam que, entre todas as atividades da vida, a religiosa seja a mais séria e importante. Nunca se sabe o que Deus pode fazer. Vai que, num determinado dia, Ele acorda com a pá virada! Vai que, exatamente nesse dia, o cara se esquece da porção diária de oração bajulação! Meu Deus! O que será do sujeito? Tenho medo do que pode acontecer com essa pessoa.

Brincadeiras à parte, essa é, em linhas gerais, a essência de nosso sentimento religioso. As práticas brevemente descritas acima estão presentes em toda religião: cristianismo, judaísmo, islamismo etc.

Quero deixar claro, antes de partir para a pergunta que dá título a este ensaio, que não pretendo dizer aqui que as práticas cristãs não são uma religião. São sim! Também não estou dizendo que a religião é irrelevante à experiência humana, podendo ser superada por quem alcançou o nirvana do saber. Absolutamente! A prática religiosa é uma experiência cultural extremamente importante para a vida humana, tanto sob o ponto de vista do enfrentamento das angústias existenciais individuais, quanto sob o ponto de vista da organização social.

Portanto, não tenho a intenção de defender aqui que é possível ser cristão sem estar imerso numa experiência religiosa. Isso seria um contrassenso. Não é meu propósito demonizar a religião em si. O que pretendo é mostrar que a fé cristã, embora ancorado no sentimento religioso, exige um passo à frente, sobretudo, em direção a um Deus inútil. Do contrário, estaremos navegando apenas na superfície da experiência religiosa, algo mais ou menos igual em praticamente todas as religiões, com diferenças rituais irrelevantes.

Para mim, pouco importa se a divindade a quem se pede chuva se chama Zeus, Jeová, Dagon, Baal, Tupã, Jesus, Shiva, Brahma etc. A experiência interior é a mesma, só que com elementos externos – liturgia e utensílios – diferentes.

Diferença no ritual não garante condição espiritual, existencial diferente. Logo, o nome do Deus usado para controlar a natureza, ou qualquer outro fenômeno contingente da vida, pouco importa. De qualquer modo se estará diante de um ritual de magia, visto aqui como um conjunto de procedimentos litúrgicos que visam atrair o favor da divindade ou exorcizar, afastar, sua ira.

Voltemos à nossa pergunta inicial. Para que serve Deus? Qualquer resposta que se dê para essa pergunta, na qual Deus seja visto como útil, provedor, controlador etc., mostrará Deus como um produto religioso, bastante aquém do Deus que se revelou na pessoa do Cristo encarnado.

Não se trata de negar o caráter religioso de Deus, ou da natureza da religião como uma experiência de atenuação da vida, mas de buscar uma experiência que vai além disso. Deus visto como um ser útil, por meio do qual se pode dar um jeitinho na vida, é comum a todas as religiões do mundo. Se pararmos por aqui, não há qualquer razão, além da adequação cultural, para ser cristão.

Ser cristão de verdade implica transcender o sentimento de desamparo diante do mundo e da vida (algo que incessantemente nos compele a buscar um Deus amparador, protetor, controlador). Significa rumar em direção a um Deus que provoca em nós um sentimento de contemplação e uma sede incontrolável de relacionamento. Significa buscar uma fusão com Deus, tendo o Cristo encarnado como referência. Ser cristão é desejar Deus, não precisar de Deus. Quem precisa de Deus para ajeitar questões contingentes (e mal administradas) da vida cotidiana, ainda está vivendo uma experiência religiosa pré-cristã, imatura, um pouco mágica.

Uma das verdades mais complicadas e difíceis de aceitar, com a qual me deparo diariamente, é esta: o Deus da fé cristã não serve para nada. Ele é completamente inútil. Disso decorre meu maior desafio em ser cristão. Reside aí uma das maiores angústias e contradições que enfrento na vida.

Vivo constantemente em contradição. Sei que de Deus nada posso esperar senão amor, amizade, ternura, companheirismo. Sei que é o desejo que deve me mover a Deus, não a expectativa. O Deus cristão – “perfeitamente inútil”, como bem descreve Varillon – se oferece a mim como um amigo, com quem posso me tornar um, enquanto enfrento a vida. O Deus cristão não é um balcão onde posso comprar, por meio de rituais, provimentos para o dia a dia.

Contudo, se alguém do meu lado adoece, logo sou instado (por mim mesmo e pelos outros) a orar para que Deus cure. Se alguém vai fazer uma viagem que envolve algum perigo, lá estou eu orando por proteção. Se o período de estiagem de uma determinada estação se estica além da conta, mais oração para que Deus faça chover.

Não posso ser hipócrita. Confesso que já orei por todos esses motivos. Ainda oro, embora com algum desconforto e culpa. Sou contraditório, eu sei. E, pelo jeito, vou continuar sendo. Realmente não sei como resolver esse dilema. Tenho convicção de que, em minha experiência de fé, devo avançar em direção a um Deus amigo, companheiro, diante do qual tudo que posso fazer é contemplar, estar perto, dialogar, abraçar, amar, estar nele e ele em mim. Mas acabo voltando ao Deus que serve para tudo, inclusive para garantir uma vaga no estacionamento enquanto dou a volta no quarteirão. Oro a Deus para que, estando mim, me ajude a enfrentar esse drama, essa contradição.

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[1] Para mais detalhes, sugiro a leitura de: Sigmund Freud. O mal-estar na civilização. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução de J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996[1930]. v. 21. p. 84-85.
[2] Utilizo o termo estrutura social aqui conforme desenvolvido por Anthony Giddens, em A constituição da sociedade (3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009) e Norman Fairclough, em Language and globalization (London/New York: Routledge, 2006).

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