Todo brasileiro deveria ir ao menos uma vez na vida ao show de Roberto Carlos

Vitor Angelo, no Virgula

Do mesmo jeito que muçulmanos têm que visitar Meca antes de morrer e os judeus fazer reverência ao Muro das Lamentações, os brasileiros deveriam ao menos uma vez na vida ir a um show de Roberto Carlos. É um rito de reconhecimento. E uma destas apresentações aconteceu nesta quarta-feira (07), no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, abrindo a sua nova turnê de quatro shows na capital paulista com ingressos esgotados.

Nesta festa ecumênica e miscigenada que é ser brasileiro parece que Roberto passa incólume por gerações como a voz que dá vida a esta alma paradoxal que é ao mesmo tempo romântica e rebelde, sensual e espiritual.

Como é grande o nosso amor por ele, toca sua orquestra antes da entrada triunfal do rei. Depois de cantar “Emoções”, Roberto agradece os patrocinadores logo em seu discurso inicial. Fala de uma marca de produtos alimentícios e faz um breve merchandising de um cartão de crédito. Nada poderia ser mais atual que isto, nestes tempos que o brasileiro passou da barbárie ao consumismo sem conhecer a cidadania. E o cantor, em sua forma mais cordial, é nossa melhor tradução.

Em um momento de marketing próprio e menos agressivo que sua introdução no show, ele comentou da felicidade de ter uma música sua na novela das 21h da Globo. “Recebi a visita da minha amiga Gloria Perez e mostrei a ela essa música que eu tinha acabado de fazer. Ela disse que era a canção certa para ser o tema do casal principal da novela”, disse no meio do show orgulhoso. “Esse Cara Sou Eu” é o tema romântico de Morena (Nanda Costa) e Theo (Rodrigo Lombardi) em “Salve Jorge”.

E sempre foi assim, Roberto continua traduzindo o Brasil – mesmo seu lado meio obscuro – da forma mais bela. Na Jovem Guarda, nos anos 60, imprimia um perfil rebelde e roqueiro, mas muito mais de fachada do que efetivamente propondo novas mudanças estéticas e políticas. Esta atitude em nada difere da alma brasileira, muito pouco dada às rupturas e revoluções, sempre acochambrando as mudanças com seu tal jeitinho com as velhas tradições.

Seguindo com a tradição da música brasileira, se transformou em cantor romântico no meios dos anos 70,  e novamente traduziu um espírito nacional que confunde como em nenhum outro lugar o sexual com o amoroso. Por isto não poderia faltar no show um pot-pourri com “Café da Manhã”, “Os Seus Botões”, “Falando Sério” e “O Côncavo e o Convexo”. Paradoxalmente, Roberto é conhecido pela sua religiosidade. Católico, cantou “Nossa Senhora” e terminou com o soul “Jesus Cristo”. Tudo cabe em Roberto, tudo cabe em nós.

Durante décadas ninguém entendeu tanto e transformou em músicas o melhor do inconsciente coletivo do país como Roberto Carlos. Não à toa, qualquer brasileiro reconhece e consegue cantar suas músicas já nos primeiros acordes, e foi isto que aconteceu no show que perfilou com seus excelentes músicos, jogo de luzes impecável, pérolas do cancioneiro como “Detalhes”, “É Preciso Saber Viver”, “Lady Laura” e “O Portão”

Nestas duas últimas músicas, ele provou como a alquimia entre sua vida e obra talvez seja um destes ingredientes para entender como ele compreende tanto nós, algo que não sabemos muito explicar mas que sentimos como o fato de sermos deste país, encrustado no hemisfério sul. Da homenagem à mãe que faleceu em 2010 a explicação que o cachorro que “sorriu latindo” da letra de “O Portão” é uma referência ao seu cão Axaxá, ele sabe muito bem que o que move sua música é entender de forma clara e simples (nunca simplista) como vivemos, como sentimos.

E tendo este entendimento do sentimento nacional, não seria diferente ele dedicar o show para a apresentadora Hebe Camargo que faleceu recentemente e causou comoção no país. Aliás, ambos ao terminarem um evento sempre distribuíam rosas, Roberto ainda as joga na plateia realizando uma imagem de alta dosagem espiritual, daqueles que entendem a alma, a alma de um povo.

fotos: Gabriel Quintão

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