É tempo de nos sentarmos

Bruno Reikdal, no blog Devaneios… apenas devaneios

Me preocupo muito quando vejo um homem se levantar e apenas estender a mão para apontar o dedo na direção do rosto dos que estão sentados. Me preocupo mais ainda quando um grupo de homens se levantam para tal. Perco o sono quando uma comunidade inteira decide tomar essa postura. Para fechar minha coleção de preocupações, me desespero quando outro grupo se levanta para rir da cara do primeiro que se levantou. Isso apenas piora quando eu me vejo pertencente de um desses grupos.

Não gosto muito de “ismos”. Legalismo, fundamentalismo, liberalismo, feminismo, machismo, colonialismo, capitalismo, socialismo… Acho que apenas com “cristianismo” me dei bem, mas não por causa do “ismo”, e sim do Cristo. Ismos são generalizações, categorias, multidão sem rosto, corpo e cérebro. Grupos que se unem para chacota ou para humilhação, são  amantes dos ismos. Se encaixam, e tem orgulho de se encaixar, em alguma torcida desorganizada que não se senta para cear junto, mas fica de pé a rodear o mundo e procurar o primeiro justo que seja digno  de sofrimento.

Fico chateado com minha religião, muitas vezes ela dá mancadas com seus fiéis. Porém, sou amante  e defensor dos religiosos, dos que abraçam a Fé e, com toda simplicidade, põe o corpo no chão em silêncio para ouvir o Mestre, ao invés de se levantar e acusar os “mentirosos”. A Fé não é funcionária da verdade, mas consolo de quem é oprimido. A Fé não é uma universalidade que faz todo sentido e responde corretamente as perguntas que lhe são propostas, mas um calado vento que escreve no chão as leis que os fiéis precisam ouvir para suportar a vida, aguentar as acusações.

Muita coisa não faz sentido. Provavelmente todos já ouviram falar da estória de Jesus do “quem não tem pecado que atire a primeira pedra” (João 8), mas às vezes nos escapa algumas cenas; nos preocupamos muito com as palavras e as “verdades ditas” e pouco com a Fé vivida. Nos esquecemos de quem estava de pé e quem estava no chão.

Fariseus imponentes jogaram uma prostituta mentirosa no chão. Deus se sentou perto dela. Homens de pé acusaram aquela falsa esperando capciosamente a resposta eterna que solucionaria os problemas do pecado. Deus sentado no chão escrevia na areia. Os detentores da verdade provavelmente tinham um sorriso no rosto enquanto viam aquele homem simples rabiscando qualquer coisa e uma prostituta envergonhada. Deus com seu dedo escreveu uma lei do Espírito na areia, onde o vento pode soprar e apagar o que fora verdadeiro naquele instante. Os homens de pé ouviram a lei e foram embora. Deus sentado pediu que a prostituta percebesse que o Criador estava sentado ao seu lado, no chão e não no alto. A mulher se levantou. Deus estava sentado; despreocupado com o que fora dito e na esperança dos próximos passos.

Não fez muita diferença o ismo da estória. O que transformou tudo foi o Cristo. Não fez muita diferença a lei escrita, dita ou seguida. O dedo na areia e Deus no chão sim. A verdade não se implantou no mundo por causa de uma Teologia, mas salvou uma vida colocando os pés no chão. O Espírito não sopra quando os homens se levantam, mas quando ele quer. Deus não fala quando um grupo encontra a verdade, mas quando Cristo está sentado com os oprimidos. A salvação é dom de Deus.

Gratis i Kristus

Comentários

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1 Comentário

  1. Lindíssimo texto! Eu diria que é água para os “perdidos no deserto”, que infelizmente, não são poucos.

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