Igreja promove baile especial para surdos no Rio de Janeiro

Frequentadores do primeiro baile especial para surdos promovido pela Igreja Batista Betânica, em Sulacap, na Zona Oeste do Rio
Frequentadores do primeiro baile especial para surdos promovido pela Igreja Batista Betânia, em Sulacap, na Zona Oeste do Rio

Bruno Cunha, no Extra

O gari Aleandro Lopes é daqueles que dança conforme a música. Mas só quando a pista está bombando mesmo. Vítima de meningite na infância, ele perdeu a audição, mas não o rebolado. E, sem a vassoura, passou a riscar os salões na companhia da potência das caixas de som, de preferência no volume máximo. A última vez foi no primeiro Baile para Surdos, em Sulacap, onde o público entrou num só ritmo, o da inclusão social.

— Eu frequentava o baile funk do Grêmio de Realengo, mesmo sem ouvir nada. Ia com amigos, dois surdos e o resto ouvinte. Lá, ficava juntinho das caixas de som. A roupa mexia, e eu dançava — gesticula em Libras Aleandro, a sua língua oficial.

Aos 34 anos, Aleandro quis sentir novamente a vibração das ondas sonoras de cada música no Baile para Surdos, promovido pela Igreja Batista Betânia. Fã de forró atualmente, chegou com a mulher, a operadora de máquina Zaira Moraes, de 37 anos, surda de nascença. Usando um aparelho auditivo, ela conta que a mãe teve rubéola durante a gravidez.

— Me senti ótima aqui. Deu até para lembrar os velhos tempos. Eu frequentava pagode e forró. E dançava em festas de casamento — disse Zaira, grávida de 8 meses.

A caixa de som virada para o chão: vibração aumenta e ajuda os frequentadores do baile de Sulacap
A caixa de som virada para o chão: vibração aumenta e ajuda os frequentadores do baile de Sulacap

Já a dona de casa Areta Rocha Vieira, de 30 anos, vibrava a cada música, é claro. Portadora de um marcapasso, o coração dela também pulsou na frequência do som. E de felicidade, já que ela, surda, tinha vergonha de dançar na frente dos outros:

— É a primeira vez que danço em uma festa. Nos casamentos eu só fico sentada. Acho que as pessoas me olham com preconceito (devido à surdez).

O namorado, Leonardo Dias, de 22 anos, nem esquenta. Com o preconceito.

— As pessoas olham e riem. Já aconteceu de me verem dançando em um casamento e balançarem a cabeça negativamente. Mas eu não ligo para isso — conta ele.

Funcionária de uma fábrica, Priscila Rodrigues, de 26 anos, também não. De calça jeans, blusa rosa e bolsa trançada no corpo, ela tascou na boca a mistura do batom vermelho com o rosa e chegou no baile disposta a balançar o corpo na pista de dança. E também o coração:

— Nunca fui a um baile. Só dancei em festa de aniversário. E sei que a pista está bombando quando a vibração da música fica forte. Mas queria um namorado.

DJ surpreso com convite

O público do baile chegou a um espaço anexo à igreja quase que falando pelos cotovelos. O “bate-mão” (sinônimo de bate-papo) só silenciou quando o DJ Fagner Henrique, de 27 anos, começou a tocar. Música eletrônica, de preferência, como a de David Guetta.

Apesar da experiência em festas de aniversário, Fagner balançou quando ouviu, em alto e bom som, o convite da igreja, o de tocar para quem não ouve nada.

— Contei para alguns amigos, e eles me perguntaram se faria mímicas. Mas escolhi as músicas que têm mais grave e, quando vi eles dançando, fiquei surpreso. Agora, como fazem para traduzir a música para a emoção, eu não sei explicar — admite.

Responsável pelo baile, a sanitarista Aline Albuquerque, de 30 anos, sabe. Integrante do Ministério Efatá, que trabalha na igreja com ações sociais para pessoas com deficiências, ela conta que o grupo percebeu a necessidade de promover um lazer saudável para os surdos, “livrando eles do uso de drogas ou de bebidas”.

— A ideia é colocar o som no grave para aumentar as ondas de vibração. Eles sentem a vibração, captam o ritmo e dançam — disse Aline.

Das seis caixas grandes e amplificadas, algumas foram viradas para as paredes. Outras, aumentavam o impacto da música viradas para o chão, em cima de tablados.

Mas o baile, gratuito, não é gospel. Ao contrário, está aberto a todas as religiões. E a paquera é permitida.

Fotos: Urbano Erbiste / Extra

dica do Leandro Pontes

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