Mexendo só um dedo, sobrevivente do AVC chega ao pós-doutorado

Luciana Scotti ficou muda e tetraplégica por causa da doença mas diz não ter parado no tempo. “Ser forte foi minha única opção”

Aos 22 anos, Luciana Scotti sobreviveu à doença que mais mata as mulheres no País . Não entrou para os 49 mil casos de mortes femininas anuais por acidente vascular cerebral (AVC) , mas aos 40 faz parte dos 400 mil brasileiros que todos os anos passam a carregar as sequelas físicas e psicológicas deste problema de saúde.

Ao abrir os olhos no hospital em São Paulo – após três meses de inconsciência – Luciana estava muda, sem os movimentos de braços e pernas e com dificuldade para engolir e respirar. Estava também mergulhada na angústia de não poder falar sobre o que fazer com a promissora carreira de farmacêutica, com o namoro recém começado e com os planos de conhecer o mundo só com uma mochila nas costas.

Com o movimento que restou apenas no dedo médio da mão esquerda, ela – que era a mais bonita da turma da USP, diziam os colegas – descobriu que palavra escrita pode ser gritada, chorada ou sussurrada. Escreveu em 1997, com todas estas entonações que cabem nas letras, o livro “Sem asas ao amanhecer” (Ed. Nome da Rosa).

A publicação chega em 2012 na 11ª edição, dezoito anos depois do AVC de Luciana. O título, reconhece a autora, perdeu um pouco do sentido: com o mesmo dedo médio que desabafou a revolta e a superação em letras, Luciana Scotti voou longe.

Aprendeu a escrever em inglês, espanhol e italiano. Em 2002, terminou o mestrado na USP, seis anos depois concluiu o doutorado e virou referência nacional em modelagem molecular (técnica usada na biologia e no tratamnto de doenças). Há cinco anos, terminou o pós-doutorado na Universidade Federal da Paraíba, Estado onde mora. Só este ano, o mesmo dedo assinou 10 produções bibliográficas. Ela dá aulas, é revisora científica e elabora palestras virtuais.

A fisioterapia e a ginástica intensa também renderam maior sustentação do dorso, melhor mobilidade no braço esquerdo, controle do fôlego e “gás” na autoestima. Pela internet, Luciana Scotti conheceu amores, desmanchou namoros e noivados, fez amigos, escreveu sobre saudades. A piscina, a praia e a cervejinha eventual – tomada de canudo – são os hobbies preferidos, além da leitura, do cinema e da música.

Único caminho

O AVC precoce que cruzou e moldou o caminho da farmacêutica responde por um em cada dez casos no País, segundo estudo inédito da rede Brasil AVC. Em mulheres com menos de 30 anos,  amistura entre cigarro e pílula anticoncepcional é o fator mais associado à doença.

“Estamos muito preocupados com a antecipação dos AVCs nas pacientes, um fenômeno mundial”, alerta a neurologista da Rede Brasil, Scheila Ouriques.

“As jovens estão mais obesas, mais hipertensas, mais estressadas, e tudo isso é gatilho para o AVC”.

O Ministério da Saúde elegeu a doença como problema crônico prioritário a ser combatido e quer fortalecer a rede com 200 hospitais para o atendimento de qualidade. Quando não mata, o AVC incapacita sendo a causa mais recorrente nos serviços de reabilitação públicos.

Luciana Scotti, que fumava e tomava pílula aos 22 anos, é rápida ao responder como conseguiu transformar a doença mais letal e incapacitante do mundo em um acidente no percurso, hoje repleto de realizações: “Por pura falta de opção”, escreveu. “Aprendi a ser forte, quando ser forte era a minha única opção”.

Aos 40 anos, Luciana não está entre os 49 mil mortos anuais por AVC e seu currículo renega a informação de que representa os 400 mil incapacitados pela doença. Se fosse para escolher um grupo numérico mais representativo, a farmacêutica pode ser incluída entre os 10 mil profissionais com títulos de doutores no País.

Leia abaixo trechos do bate-papo feito por email, em que Luciana Scotti avaliou a vida pós-AVC. As entonações de suas letras não deixam dúvida. Luciana é sobrevivente e não vítima do acidente vascular cerebral.

iG Saúde: Como é a sua rotina? Como é despertada a curiosidade de uma pesquisadora?

Luciana: Durmo tarde, 23h, 24h, 1h. Dependendo do trabalho, acordo cedo, 6h ou 7h. E já coloco o biquíni, aqui no prédio tem um espaço legal para tomar sol. Esse solzinho da manhã é uma DELÍCIA. Depois de uma hora de sol, tomo banho, vou para frente do computador e trabalho até as 19h. Malho, faço alongamento por uma hora e volto para o computador. Mas não tenho muita rotina. Tudo depende das necessidades e planos do dia. A curiosidade do pesquisador nasce na vontade de aprender mais sobre um fenômeno.

iG Saúde: Você dá aulas e palestras. Como é este processo? Ficou com medo na primeira vez que fez essas coisas?

Luciana: Com medo, nunca! Apenas não acho legal fazer palestras sem a infraestrutura que necessito. Nessas horas minha mãe me ajuda bastante e fala por mim. Mas o ideal é ter um data-show e computador. Assim, mostro slides. Antes redijo um texto e imprimo. Na medida em que mostro os slides, qualquer um vai lendo o texto, entende?

iG Saúde: Fazer pesquisa no Brasil não é nada fácil. Como decidiu seguir nessa área? Foi muito difícil?

Luciana: Não decidi, o destino decidiu por mim. Quando tive o AVC era recém-formada, trabalhava em uma multinacional e planejava mudar de país. Veio o AVC e MUDOU TUDO. Depois de viver 3 anos em uma cama hospitalar, fiz mestrado em Cosmetologia. Já no doutorado fui tendendo para a modelagem molecular. Hoje, com 5 anos de pós-doutorado em modelagem voltada para quimioterapia, posso dizer que AMO O QUE FAÇO. Usando estatística e química, analiso a estrutura molecular. Quando estou trabalhando me sinto tão bem. GOSTO DE VER AS COISAS DANDO FRUTOS.

iG Saúde: E quando não está trabalhando, o que gosta de fazer?

Luciana: AMO O SOL. AMO TOMAR O SOLZINHO NO MEU PRÉDIO. Também é demais um CHURRASCO COM OS AMIGOS à beira da piscina ou passar o dia na praia com cervejinha e petiscos. AMO MUITO TUDO ISSO!

iG Saúde: Você faz fisioterapia ainda? Como estão os seus movimentos?

Luciana: Tento malhar todo dia uma hora. Também ensino alongamentos para as moças que me ajudam, ou seja, montei uma miniclínica no meu quarto. Não sei dizer sobre os meus movimentos. O IMPORTANTE É MANTER UM PONTO DE REFERÊNCIA. Se você pensar que eu me comunicava piscando e hoje teclo num teclado normal, acho QUE ESTOU BEM.

iG Saúde: Li seu livro “Sem asas” há muitos anos. Lembro que você dizia sentir falta da palavra falada, mas tinha aprendido o peso e a importância da palavra escrita. O que é escrever para você?

Luciana: A escrita é um poderoso meio de comunicação. Serve como um desabafo sigiloso, nunca vai espalhar por aí os seus segredos

iG Saúde: A beleza também é uma constante na sua vida. No “Sem asas” lembro que você passou por uns períodos de revolta com o corpo. Hoje está em paz com o espelho?

Luciana : Sim, ainda mais malhando e tomando sol. A revolta faz parte do processo de luto que vem com a deficiência. Mas a aceitação é a saída do luto.

iG Saúde: De uns tempos para cá, a sexualidade e o prazer perderam um pouco do tabu (um pouco, porque ainda existe muito). Parte da sociedade entendeu que cadeira de rodas não aniquila apetite sexual. Como você lidou com isso?

Luciana: Eu sou uma mulher, só que estou numa cadeira de rodas e, infelizmente, muda. Não entendo porque eu deva ser diferente das outras mulheres. Essa pergunta é bem comum, como lido com o apetite sexual…Ué, como todo mundo. Mas por ser uma mulher madura e que já sofreu muito, agora sou BEM seletiva. Sexo e prazer é pouco pra mim…não interessa.

iG Saúde: O seu dedo médio da mão esquerda e a sua mente inquieta levaram você para um patamar onde poucos brasileiros conseguem chegar. O que ainda quer alcançar?

Luciana: Bom, apesar dos meus limites físicos produzo bastante, e trabalhos de qualidade. Só este ano já publiquei 10 artigos científicos, e tenho mais um outro aceito para publicação…. Dentro da comunidade científica essas conquistas são admiráveis, mesmo pra quem não possui limites físicos. Você não acha uma injustiça social e uma burrice não aproveitarem minha mão-de-obra especializada? Esse é meu sonho, ter um emprego na faculdade. Muitos colegas, com currículo e produtividade inferiores, prestam concurso e passam. Eu nem posso prestar concurso na faculdade, porque não falo. Depois dizem q os deficientes físicos não têm emprego por serem poucos especializados. E eu???????????????????

iG Saúde: O que é mais limitador: piedade ou preconceito?

Luciana : Ao meu ver, o preconceito. A piedade não limita, entendo e até concordo. Você não tem dó de quem tem sequelas de um AVC? Eu tenho, é humano. Mas me achar incapaz e pouco inteligente por ser deficiente física é comum. Isso é preconceito.

iG Saúde: O AVC é a doença que mais mata no Brasil e a que mais incapacita. Como você conseguiu transformar o AVC em um “acidente de percurso”?

Luciana : POR PURA FALTA DE OPÇÃO. ‘APRENDI SER FORTE, quando SER FORTE ERA MINHA ÚNICA OPÇÃO.

Comentários

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1 Comentário

  1. Naillê Silva disse:

    Essa mulher é um espetáculo, ela tem uma força interior que é o inverso da aparência, pois embora aparentemente frágil tem uma garra para superar gigantes, afinal nada na vida nos exige mais força do que termos que nos superarmos e ela faz isso todos os dias!
    Parabéns!

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