Escravos modernos

Ricardo Barbosa de Sousa

O historiador Theodore Zeldin, em seu livro “Uma História Íntima da Humanidade”, vê a história como meio para interpretar as experiências pessoais e emocionais. Um de seus personagens é uma mulher frustrada com a vida e com sua incapacidade de mudar sua realidade. Ela se vê presa num sistema. Zeldin mostra que a escravidão, no passado, foi sustentada por três razões principais. A primeira foi o medo. As pessoas aceitavam os sofrimentos e humilhações impostos por reis e senhores porque tinham medo da morte e das consequências de uma liberdade sem segurança. Para ele “o medo sempre foi mais poderoso que o desejo de liberdade”.

A segunda razão é que os seres humanos tornaram-se escravos voluntariamente. A forma de se escapar da responsabilidade que a realidade impõe é sujeitar-se a algum tipo de dominação. A terceira é que o escravo do passado é, surpreendentemente, o ancestral do executivo e burocrata de hoje. No passado, os homens livres, que eram parte de uma pequena elite, não trabalhavam, consideravam indigno trabalhar para os outros. Somente os escravos trabalhavam.

De certa forma, a escravidão continua. No passado, famintos vendiam seus corpos como escravos; hoje o corpo continua sendo oferecido como mercadoria para pagar aluguel e colocar comida na mesa. No passado, os escravos trabalhavam em troca de comida, roupa e moradia; hoje uma grande massa de operários trabalha e mal consegue pagar pela comida, roupa e moradia. Executivos trabalham doze horas por dia, às vezes sete dias por semana, para manter algum acionista milionário em seu iate no Mediterrâneo. É claro que recebem um bom salário pelo trabalho, mas no passado os escravos mais sofisticados também eram pagos. Segundo Zeldin, no passado muitos escravos se faziam eunucos e abriam mão de ter uma família para se dedicarem aos seus senhores. Hoje muitos profissionais não querem ter filhos e sacrificam suas famílias em nome da carreira.

A liberdade não consiste num conjunto de leis que garantem algum direito, nem na ilusão de que ser livre é fazer o que deseja. Mesmo sabendo que tenho o direito de ir e vir, pesa sobre mim a escolha do lugar para onde quero ir e quando devo voltar. Mesmo sendo livre para fazer o que desejar, pesarão sobre mim as consequências do meu desejo.

Não somos livres, pelo menos não no sentido que muitos apregoam. Os adultos trabalham — e trabalham para alguém, mesmo quando são donos do seu negócio. Qualquer escolha livre implica a renúncia de outras possibilidades. E isso limita a liberdade. Talvez a nossa única liberdade seja a de escolher a quem servir.

A condição de escravos traz sempre algum tipo de frustração. Numa cultura narcisista, o fracasso é inaceitável e a realidade, insuportável. No entanto, todos nós fracassamos, e a realidade, quase sempre, é dolorosa. As frustrações são fruto de nossas limitações — limitações que insistimos em não aceitar.

“Negar a morte, não visitar os cemitérios, não vestir luto, tudo isto parecia uma afirmação da vida, e de fato o foi em certa medida. Mas, paradoxalmente, acabou se transformando numa armadilha, mais uma das muitas que a sociedade moderna fabricou para que o homem não sinta as situações limite, aquelas em que nosso mundo desaba, as únicas capazes de nos despertar desta inércia que nos move” — observou o escritor argentino Ernesto Sábato (1911-2011).

A consciência de quem somos e quem Deus é nos ajuda a lidar com o dilema da escravidão e das frustrações. Reconhecer que somos pecadores e que vivemos num mundo marcado pela queda nos ajuda a aceitar os espinhos da vida e o lugar do suor para ter o pão de cada dia. Reconhecer Deus, em seu Filho Jesus Cristo, nos ajuda a perceber que somente um ser totalmente livre pode oferecer liberdade. Seguir a Cristo é colocar-se sob a autoridade do único que pode nos conduzir no caminho da liberdade. É por isso que Jesus afirma: “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”.

A escravidão moderna não pode ser simplesmente abolida. A solução estaria em se ter a coragem de escolher a quem servir. Jesus disse: “Não podeis servir a Deus e às riquezas”. É impossível agradar a ambos. Somente as escolhas feitas por amor refletem a liberdade humana.

• Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de “Janelas para a Vida” e “O Caminho do Coração”.

foto: google

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