Como resiste o caimbé

Caimbé - Lavrado - Foto por Tiago Turcatel

Márcio Rosa, no Inquietações de um aprendiz

Fiz, dia desses, uma viagem incrível para um dos lugares mais lindos que já visitei. Chamei alguns amigos e fomos de Boa Vista rumo à Uiramutã, município mais setentrional do Brasil. O caminho já vale a viagem, savanas, ou como chamamos aqui, lavrados, a perder de vista, cavalos lavradeiros e, ao longe, serras majestosas. Chegando mais perto da vila, que é a sede do município, começa a subida de um conjunto de serras, montanhas e mais montanhas compõem um cenário de beleza única. Já no alto, contempla-se o vale do Cotingo, uma imensidão de beleza ainda pouco conhecida.

Já instalados na cidade, visitamos as cachoeiras do Urucá e das Sete Quedas. A do Urucá é a cachoeira mais linda que já estive, onde pude tomar banho, mergulhar, apreciar uma riqueza que não tem preço. É um cenário paradisíaco. Vale a pena.

Já na volta, um amigo me fez reparar em algo curioso. Na estrada entre o Contão e o Surumú predomina na paisagem o lavrado com serras ao longe. Nesse lavrado, além de encontrar, vez por outra, os cavalos lavradeiros galopando, há muitas pedras e muito caimbé, essa árvore que de longe parece um cajueiro, mas é uma planta típica de cerrados e lavrados. O curioso é que muitos caimbés nascem no meio de um amontoado de pedras e mesmo assim permanecem verdejantes. Ora, o solo é arenoso, a estação é seca (em Roraima temos a estação chuvosa e a seca), o sol causticante e as pedras enormes. Mesmo assim o caimbé está lá, verdinho.

Impossível não refletir sobre capacidade de resistência daquela planta, mesmo diante de todas as intempéries. Analisando objetivamente, não era pra haver possibilidade de permanecer algo tão viçoso. Fez sentido pra mim a música do Zeca Preto e do Neuber Uchoa, Canto das Pedras, quando fala de “como resiste o caimbé”.

Pensei logo na existência humana, nessa nossa vida tão frágil, mas que, tantas vezes, resiste mesmo diante das impossibilidades. Há certas situações experimentada por nós mesmos ou por pessoas ao nosso redor em que se olha e, analisando objetivamente, é de se pensar que não será possível resistir. A sequidão do ambiente e o sol inclemente, símbolos de uma sociedade tantas vezes hostil, impiedosa e implacável. Os oásis de generosidade, gratidão e solidariedade rareiam e, às vezes, secam. E ainda há as enormes pedras para escalar ou das quais é preciso desviar, como nos meandros surpreendentes da nossa caminhada. Mesmo assim, depois de um tempo, está lá a pessoa se levantando do meio das pedras, do meio de um ambiente inóspito, e prosseguindo a vida, tal qual o caimbé no lavrado. Como o ser humano é extraordinário e como a vida é incrível!

Voltei de Uiramutã com mais esperança. Quero ser como o caimbé, que mesmo diante de todas as impossibilidades, está lá, verdejante, no meio do lavrado.

foto: Tiago Turcatel

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