“Tomo pílula, não pego HIV”: os jovens “invencíveis” vão viver para sempre


Famosa estátua de Bruxelas ‘Manneken Pis’ antes e depois de ser coberta por ‘camisinha’ no Dia Mundial de Luta contra a Aids.

Leonardo Sakamoto, no Blog do Sakamoto

Perdoem-me, de antemão, aqueles que lerão um certo moralismo neste texto. Não foi essa a intenção, até porque sou – orgulhosamente – um pervertido e um depravado. Mas é incrível o que a gente, como professor, não escuta na mesa do bar, de orelhada nos corredores e mesmo através de bizarras pegadinhas da vida, que transforma docente em vigário confessor, como se tivesse eu o poder para absolver alguém. De fato, falta diálogo e informação em algumas casas para que alguém prefira conversar com o seu professor do que com o pai ou a mãe.

O fato é que me assusta a quantidade de casos de jovens que, ainda, transam loucamente sem proteção. As justificativas são as mesmas de sempre: “não deu tempo”, “ele disse que não tem pereba nenhuma, “eu não vi nada de errado com ele”, “ela pareceu tão limpinha”, “imagina, uma mina, como ela, de família, não tem nada”, “ele não gozou dentro” e, uma das minhas preferidas, “eu tomo pílula”.

Além do machismo idiota que cria frases como “ah, mas se eu não fizer dessa forma, ele vai me trocar por outra”, “não quero que ele pense que eu desconfio dele” e “helloooo, o cara é o máximo! Você acha que ele vai me fazer isso”. Sim, vai sim.

Gostaria de lembrar que o sentimento de invencibilidade presente em “eu sou fodão! Nada me atinge!” e o velho e bom “isso acontece só com quem pega mina/mano trash” encurta a vida e funciona como instrumento de seleção natural, inclusive. Tem o mesmo DNA presente em declarações de orgulho de macho-besta (“prefiro morrer do que deixar alguém enfiar o dedo onde não é bem-vindo!”), ou seja, nada vai me acontecer nunca porque tenho um impávido pênis. Jovens invencíveis vivem para sempre – na memória de seus amigos.

Descobri, recentemente, as desculpas que usam justificativas de classe social e dados estatísticos com legitimidade duvidosa, como em “você sabe, a gente é de classe média alta. A incidência de HIV entre a gente é muito baixa, então não tem com que se preocupar”. Tipo, roleta russa não pega quem tem dindim na conta bancária?

Ou os argumentos nonsense de quem parece ter vivido longe da civilização até agora: “ah, se der problema, posso abortar e se for doença é só tomar um remédio e sara” e “HIV só pega de homem para mulher e não o contrário”.

Não quero adentrar em uma seara comportamental que é competentemente tocada pelo Jairo Bouer e o Xico Sá, mas hoje é o Dia Mundial de Luta contra a Aids. E há uma tendência de crescimento de novas infecções pelo HIV em quem tem entre 15 a 29 anos. Nessa faixa, há 44,35 registros para cada 100 mil habitantes, enquanto a média nacional é de 20,2 para cada 100 mil.

De acordo com a pesquisa “Juventude, Comportamento e DST/Aids” realizada pela Caixa Seguros com o acompanhamento do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana de Saúde e divulgada pela Agência Brasil e o UOL, 40% dos jovens entrevistados não consideram o uso de camisinha um método eficaz na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis ou gravidez.

Teoricamente, o grau de escolaridade influencia nas práticas adotadas pelos jovens. Por isso, espanta um pouco que alguns dos estudantes de onde dou aula pensem assim. Na minha humilde opinião, o problema não reside apenas no acesso à informação, mas de como ela chega até eles. Muita coisa é percebidas como “coisa chata” e blá blá blá que não lhe diz respeito.

Interessante, portanto, é que relatar histórias de conhecidos, com uma vida igual a deles e contraíram o vírus, choca bem mais do que os programas de conscientização tradicional. Provavelmente porque a percepção de que isso só acontece com o “outro”, o “distante”, o “diferente” se rompe quando o problema bate à porta. Fazer fluir essa informação, com uma troca de quem vive com a doença e quem não, é um trabalho lento, mas essencial,

Lembrando que não é fácil alguém mais jovem, que sente o mundo pulsando no peito, dar ouvidos a alguém mais velho em questões de comportamento. Sem contar a parte desta geração que foi criada pelos pais em um mundo de fantasia e “não gosta de notícias triste”.

Prevenir é fundamental. Mas vale lembrar que contrair HIV não é o fim do mundo. Conviver com a doença é difícil, mas possível, como milhares de pessoas fazem todos os dias por aqui. Duro é ter que aguentar o preconceito de uma sociedade que transforma quem carrega o vírus em pária.

“Sakamoto, deixa de ser idiota. Não existe esse tal preconceito.” Sim, claro, até temos amigos amigos “aidéticos” e “contaminados pela Aids”, não é mesmo? Da mesma forma que temos amigos gays, negros, índios, nordestinos…

É idiota e tosco ostentar qualquer forma de segregação a quem possui uma doença que não é contagiosa através do contato social. Pior ainda ouvir as justificativas esfarrapadas dadas por empregadores que barram uma promoção ou a contratação de alguém porque descobrem que a pessoa vive com HIV, apesar de proibido.

Os locais de convivência coletiva, como o trabalho e a universidade, podem ser usados para o diálogo, a acolhida e o apoio e a troca de informações. Ou serem vetores de disseminação do medo, ajudando a manter o véu de ignorância que ainda cobre o assunto, e garantindo que a epidemia se espalhe ainda mais.

foto: Francois Lenoir/Reuters

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