Viver, uma comédia

Imagem: Google

Ricardo Gondim

No esplêndido Dom Quixote de la Mancha, o Cavaleiro Andante se encontra com uma trupe de atores. O grupo acabara de encenar. Na correria do próximo espetáculo, ninguém teve tempo de trocar de roupa. Sancho Pança e D. Quixote estranham a aparência da equipe:

“Quem guiava as mulas e servia de carreiro era um feio demônio. Vinha o carro a céu aberto, sem toldo nem coberta alguma. A primeira figura que se ofereceu aos olhos de D. Quixote foi o da própria Morte, com rosto humano; junto dela vinha um anjo com grandes asas pintadas; a um lado estava um imperador com uma coroa, parecendo ser de ouro, na cabeça; aos pés da Morte estava o deus que chamam Cupido, sem venda nos olhos, mas com seu arco, sua aljava e suas setas…”

Desta vez D Quixote não alucina; não troca os saltimbancos por seres do além”“-Pela fé de cavaleiro andante – respondeu D. Quixote – imaginei que alguma grande aventura se me oferecia, e agora digo que é mister tocar as aparências com as mãos para tomar pé do desengano”.

Com o grupo fantasiado, o herói de Cervantes não se engana: roupas e adereços não passam de cenário. As coroas não são de ouro e nem as espadas, de aço. Sancho Pança então relembra D. Quixote de que “nunca os cetros e as coroas dos imperadores farsantes foram de ouro puro”.

O Cavaleiro da Triste Figura reage à fala do escudeiro Sancho Pança:

“- Assim é verdade – replicou D. Quixote -, pois não seria acertado que os atavios da comédia fossem finos, senão fingidos e aparentes, como o é a própria comédia, a qual quero, Sancho, que prezes, tendo-a em tua boa graça, e pelo menos conseguinte àqueles que as representam e as compõem, porque todos são instrumentos de fazer um grande bem à república, pondo-nos um espelho defronte cada passo, onde se veem ao vivo as ações da vida humana, e nenhuma comparação há que mais ao vivo os represente o que somos e o que havemos de ser como a comédia e os comediantes. Se não diz-me: já não viste representar alguma comédia onde se veem reis, imperadores e pontífices, cavaleiros, damas e outros vários personagens? Um faz de rufião, outro de embusteiro, este de mercador, aquele de soldado, outro de simples discreto, outro de enamorado simples. E acabada a comédia e despindo-se dos vestidos dela, ficam todos os atores iguais”.

Sancho Pança concorda. E D. Quixote arremata:

“Pois o mesmo – disse – D. Quixote – ocorre na comédia e trato deste mundo, onde uns fazem de imperador, outros de pontífices e, enfim, todas quantas figuras se podem introduzir numa comédia; mas em chegando ao fim, que é quando se acaba a vida, a todos a morte lhes tira as roupas que os diferençavam e ficam iguais na sepultura”.

Fernando Pessoa também fala das fantasias – que naquela época chamavam Dominó – que de tanto usarmos, grudam na cara.

“Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara
Estava pregada à cara.
Quando a tirei e me vi no espelho.
Já tinha envelhecido.”


Se admitirmos que não passamos de personagens mal ensaiados, estamos em bom caminho. Façamos isso, entretanto, antes que tenhamos envelhecido.

Soli Deo Gloria

Fonte: Blog do Ricardo Gondim

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