Vitor Belfort: “O problema é talco na bunda”

título original: Lutador-empresário, Belfort transforma entrevista em palestra e filosofa sobre religião, esporte e negócios

Maurício Dehò, no UOL Esporte

O veterano Vitor Belfort fez sua carreira colocando os punhos em ação, mas nos últimos anos, seu comportamento fora dos ringues também passou a ser parte fundamental de sua imagem. E não por polêmicas ou confusões. Desenvolto para falar, ele gosta de fazer de suas entrevistas oportunidades para filosofar, citar ditados, dar exemplos e falar de seus negócios extra-ringue. E foi isso que ele fez na quarta-feira, em São Paulo, transformando uma coletiva de imprensa do UFC São Paulo em uma palestra não só sobre esportes, mas também religião, política e business.

Como é notável, Belfort é religioso – virou evangélico há alguns anos – e gosta de falar sobre suas crenças e, principalmente, sua família. Mas não só. Fora do ringue, o carioca se considera um homem de negócios. Já criou uma espécie de luva de dedo para o manuseio de tablets e apareceu à coletiva na capital paulista com uma capa de celular em forma de soco inglês. “Vou ver se faço um desse para vender”, anunciou ele, empolgado.

Em uma das rodadas de perguntas, cerca de 15 jornalistas se reuniram em uma grande mesa com o lutador. O papo foi de 40 minutos, mas diferentemente do que se poderia esperar, foram poucas as perguntas, já que Belfort dominou o tempo com sua habilidade de transformar as questões relacionadas ao MMA em “discursos” sobre assuntos diversos.

O lutador é capaz de fazer propaganda do cabelereiro que lhe modelou um moicano e, em poucos segundos, trocar de assunto para comentar a diretoria do Flamengo ou falar de temas motivacionais. “A gente tem que sorrir mais, amar mais, superar as dores com mais alegria. Falar: ‘que bom que tá sol’, ‘que bom que tá chuva’, ‘que bom que está vento (sic)’. É dessa maneira que vivo”, prega ele.

Belfort define o MMA como sua prioridade e vê como uma vida paralela o business. “Os meus negócios são hobby: (dou) palestras, tenho percentual em algumas empresas como investidor e também invisto em atletas”, afirma ele, que tem Cesar Mutante, campeão do TUF, como principal pupilo.

O lutador ainda aproveita para fazer um “merchan” de um dos patrocinadores, e promover sua academia, que é voltada ao MMA para a família. “Terá o sistema Belfort Kids, o Belfort Fitness, será para a família. Quem quiser doar dinheiro para a obra… Como tudo no Brasil é caro… Vamos baratear, pessoal!”, reclama ele, depois voltando atrás e dizendo que estava apenas brincando sobre o pedido de doações.

“O problema é talco na bunda”

Belfort diz que adora ler e recita uma frase antiga de Senna, falando sobre a busca não por vitórias nas pistas, mas pela perfeição. E filosofa: “A diferença do Zico para os outros é que ele acabava o treino e ia cobrar faltas. O Michael Jordan ia cobrar fundamentos. O problema para mim, hoje, é “talco na bunda”. O que é talco na bunda? Hoje está todo mundo querendo chegar lá sem conquistar. Estão mimados. E o mimo vem quando você acha que é alguma coisa. Então você não tem que achar, tem que buscar o que é perfeito.”

Seu filho, apesar de viver com o luxo que a vida de lutador ofereceu à família, não tem esse mimo todo. Belfort conta histórias que mais parecem inventadas com o intuito de demonstrar o que pontua: o herdeiro David, de sete anos, disse ao pai que quer ser milionário, para ter diversas Ferraris em sua garagem. Vitor, no entanto, ensinou que é egoísmo ostentar desta forma. “O milionário bom é o que consegue ajudar”, explicou Vitor, trocando o sonho original de David por menos Ferraris e mais ações de caridade. “Ele falou: ‘quero ajudar as pessoas, alimentar as crianças na África’.”

A “consciência social e mundial” volta ao assunto ao Vitor perguntar aos jornalistas se eles sabem a posição do Brasil em um recente ranking de educação. “Penúltimo”, exclama ele, em um país com a sexta economia global. “Sabe o que vai acontecer nos próximos 20 anos? O Brasil vai ser ‘estrupado’ (sic) pelo mundo. E ninguém faz passeata sobre isso. Ninguém mais pinta a cara. Tem passeata para a maconha, para tudo. Mas ninguém sai para defender a família”, brada.

Aqui e ali, ele volta a comentar sua luta. Fala das mudanças do vale-tudo após 15 anos de sua última luta em São Paulo – aproveita para exaltar as mudanças pessoais neste período e falar da esposa, Joana Prado e dos três filhos – e foge veementemente de comentar outros rivais que não Bisping. “Eu quero saber de inglês (Bisping)”. Comenta o tamanho do ginásio do Ibirapuera, dizendo que poderia lutar até dentro de uma quitinete, e destaca que sua estratégia é apenas estar pronto para a guerra, comparando-se a um oficial da Marinha dos EUA, metáfora de mais um livro que leu.

A inteligência de Belfort é que ele aprendeu a falar de suas crenças sem apelar para pregações baratas ou discursos religiosos. “Um dia, vai estar alguém no nosso velório. Anteontem perdi meu padrinho, recebi a ligação tomando café da manhã. Depois de jogar beach tennis, ele teve um ataque cardíaco. Um dia você vai estar num caixão, ou cremado, e o que fica é o que você deixou para o próximo. Por isso eu preparo meus filhos não só para a vida, mas para a sociedade”, diz ele.

Em outro momento, completa: “Quando puxa a ficha lá em cima, meu amigo, se prepare para apertarem a tecla ‘delete’. Eu não quero ser deletado pelo homem lá de cima, não. Eu quero que ele aperte enter.”

Vitor é assim: um lutador em primeiro plano, mas, colada à essa imagem, está seu lado de homem de negócios e “conselheiro profissional”. O encerramento da entrevista é sintomático: “E aí, pessoal? Estou eleito?”, pergunta, para depois negar que tenha intenção em mudar de carreira do esporte para a política. Será?

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