Gospel pode ser funk

Culto dos Funkeiros foi apenas um da série de eventos que misturam música, religião e histórias de vida

Culto dos Funkeiros foi apenas um da série de eventos que misturam música, religião e histórias de vida

Alice Melo, na Revista de História

Na reportagem No ritmo de Jesus, a Revista de História mostrou que as religiões evangélicas vêm ocupando cada vez mais espaço na cultura brasileira, principalmente quando o assunto é música.

Mensagens de amor e fé presentes em letras dos mais variados ritmos estão cada vez mais sendo utilizadas pelo discurso de uma nova geração de evangélicos que vem se adaptando às necessidades pontuais de determinado contexto social e contribuindo para que dogmas, antes rigorosos, sejam flexibilizados.

Bailes funk, rodas de samba e pagodes de Jesus começam a pipocar e a atrair multidões no Sudeste; festas de forró animam arrasta-pés de Cristo no Nordeste; e canções sertanejas em ode ao Senhor, tocadas no Centro-Oeste, se tornam cada vez mais comuns, principalmente em zonas pobres das cidades. Sucesso que dá lucro: o mercado gospel movimenta cerca de R$ 12 bilhões por ano, sendo 10% apenas com a indústria musical.

Qual é a diferença entre o gospel e o funk? Para muitas pessoas, nenhuma. Em algumas igrejas neopentecostais, o pancadão é utilizado como meio de se propagar a fé. Um estilo de vida comportado, religioso e cheio de ritmo. Não faltam personagens para contar histórias que mudaram de vida após juntar o amor pela música e a devoção à Jesus. Os casos demonstram que há uma rica vida cultural que se afasta do culto tradicional. No Rio de Janeiro, por exemplo, o Projeto Vida Nova de Irajá conquista espaço na periferia ao promover bailes, shows, encontros com música. Eles têm seu próprio bloco de carnaval, que sai pipocando pelas ruas do Centro há mais de 20 anos. Em novembro de 2012, a igreja “com cara de leão” inovou e promoveu o primeiro Culto dos Funkeiros, na sede, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O evento reuniu quase 3 mil pessoas em um culto neopentecostal dirigido por cantores de gospel funk, como LC Satrianny. Além da música e a pregação do evangelho, o que estava em pauta era o compartilhamento de experiências de vida.

LC significa Levita de Cristo, segundo o rapaz que já tocou no grupo de funk profano Furacão 2000. Antes de mudar de vida, era MC – Mestre de Cerimônias, nome dado à voz que acompanha o pancadão. Satrianny frequenta a Assembleia de Deus Vida Plena, em Bonsucesso, outro bairro da região metropolitana do Rio de Janeiro, mas se apresenta em diversos pontos nos quais a conversão e a disseminação da palavra de Deus estão na ordem do dia. “O Espírito Santo trata com cada um de uma maneira. Comigo, foi assim: eu aceitei Jesus após passar por problemas seríssimos de ordem financeira, emocional. Tudo o que eu tinha acabou. Eu só queria ter um trabalho, formar uma família. Mas Ele tinha outros planos para mim, depois de um ano na igreja, veio a oportunidade de voltar a cantar funk”, lembra o músico.

Ele conta que Levitas no antigo testamento significa uma tribo voltada para o louvor dos cânticos, das músicas. Imerso na igreja, ouviu um chamado e trocou MC por LC. Hoje, outros LCs estão surgindo e ele finalmente faz o que gosta, aliando trabalho, música e fé. Satrianny destaca que o trabalho das igrejas evangélicas é muito importante nas regiões mais pobres das grandes cidades, porque leva a bíblia para jovens que, assim como ele, estão “perdidos na vida”. Muitas vezes envolvidos com álcool e drogas. Ao mesmo tempo, estas pequenas igrejas permitem uma maior liberdade no que diz respeito a hábitos e costumes. “Muitas vezes os jovens acham que para se converter, têm que ficar de terno. Se for para ficar de terno, vai ficar, mas pode usar um boné, tênis da moda, usa cordãozinho, tudo normal. Porque isso aí é mais para a sociedade ver. Quando Deus olha para nós, não está preocupado com isso. Eu costumo dizer que você pode se modernizar sem se mundanizar”.

Marconi Oliveira, líder da Juventude do Projeto Vida Nova de Irajá é um dos organizadores dos cultos de gospel funk na igreja. Ele conta que a intenção dos bailes – não só de funk – é de fazer com que pessoas, principalmente jovens, que se interessem por música, se aproximem do evangelho. “Nossa missão é resgatar vidas que não conhecem Jesus e trazê-las para esse caminho. Porque falamos isso de experiências próprias. Muitos de nós vivíamos nessa condição, de uma falsa felicidade. Curtimos funk, pagode, mas quando a gente chegava em casa, o vazio voltava. E temos a oportunidade de conhecer esse Jesus maravilhoso. Que nos consola, nos dá esperança e a vida acaba melhorando”, afirma.

Culto dos Funkeiros aconteceu no Rio, em novembro passadoCulto dos Funkeiros aconteceu no Rio, em novembro passado

Paquera e fé

Este tipo de experiência da vida e fé, conforme mostrou a reportagem, não é comum apenas no Sudeste. Vem se alastrando pelo Brasil nas últimas décadas, como também apontou a pesquisadora Karina Bellotti, em entrevista publicada no site da Revista de História. Os depoimentos individuais confirmam as teorias dos pesquisadores, nesse sentido. Daniel Cardoso, por exemplo, era estudante universitário quando teve uma overdose que quase o matou. Ele marca a tragédia como um divisor de águas em sua trajetória na Terra.

Filho de pai militar, o rapaz era DJ em festas de música eletrônica, em Belém do Pará, sua cidade natal. Ele era de família de classe média, “nunca precisou de nada”. O tempo foi passando e, quando se deu conta, tinha parado de pagar a faculdade com o dinheiro que o pai deixava. Comprava drogas. Acolhido pela Assembleia de Deus da capital, que tem um programa gratuito para dependentes químicos, ele se recuperou e hoje atua como organizador de eventos da igreja. Dia desses, auxiliou na vinda do grupo de arrastapé, Mensageiros do Forró, e também a cantora Mylla Karvalho, que canta calipso gospel, sucesso na região Norte.

“Aqui, faço festas temáticas”, conta ele, sempre agradecendo à bíblia por ter conseguido superar os problemas. Sem cerimônias, ele não esconde os códigos de comportamento das festas de sua igreja. O que acontece quando o assunto é a paquera? “Sabemos que não é uma festa secular, não tem tanta malícia e roupa muito curta… Ninguém põe uma regra, mas as pessoas se comportam de maneira mais discreta, não tem bebida, por exemplo. Se rolar um clima, o pessoal prefere não ‘ficar’ lá. Acontece, mas a gente tenta não fazer. Tem troca de olhares e, a partir dali, pode começar uma conversa.”

dica do Bruno Barak

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Gospel pode ser funk

Deixe o seu comentário