À Flor da Pele, por Alexandre Severo

Julia Bolliger, no IdeaFixa

Nasceram sem cor, numa família de pretos. Três irmãos que sobrevivem fugindo da luz, procurando alegria no escuro. O mais novo diz que é branco vira-lata. Os insultos do colégio viraram identidade. A mãe cochicha que são anjinhos. Eles têm raça sim. São filhos de mãe negra. O pai é moreno. Estiraram língua para as estatísticas e, por um defeito genético, nasceram albinos. Negros de pele branca. A chance dos três nascerem assim na mesma família era de uma em um milhão. Nasceram. Dos cinco irmãos, apenas a mais nova é filha de outro pai. Esta é a história do contrário“, escreveu o jornalista João Valadaresem 29 de agosto de 2009, sobre a história dos irmãos Ruth, Esthefany e Kauan, os galeguinhos de Olinda.

Para todo mundo que ficou estarrecido com as fotografias expressivas de albinos feitas pelo Gustavo Lacerda, que rodam hoje o mundo todo em exposições e, principalmente, pela internet, fui apresentada pelo Leo Eloya um trabalho infinitamente mais sedutor sob mote similar.

Em razão de ilustrar a história escrita por Valadares sobre a família Fernandes de Andrade, que À Flor da Pele, o ensaio de fotográfico do pernambucano Alexandre Severo, foi publicado no Jornal do Commercio e estampou arte para tudo quanto é lado.

Em tom de observância fiel e bem charmosa, o fotógrafo acompanhou os dias de três crianças albinas nascidas numa família de negros, na comunidade V9, em Olinda (PE). É uma história que emociona (palmas ao Valadares), de uma família pobre que não tinha grana para comprar protetor solar para as crianças poderem sair de casa e brincar à luz do dia.

Como não poderia deixar de ser, toda essa história de negros-galegos sob o sol de Olinda deu o que falar: falou-se sobre o estranhamento da mãe quando os filhos nasceram, a atuação física dos genes recessivos, até o pessoal da internet começar um movimento para ajudar a família com doações para o protetor solar…

Mas o que eternizou, de corpo e alma, aquele recorte claro e escuro do momento de uma família, é definitivamente o ensaio de Alexandre Severo. Não precisa nem ler o artigo para sacar que são umas crianças incríveis habitando um recorte de tempo e espaço próximo à Praia del Chifre que dificilmente se verá igual.

Desde o começo de sua carreira, em 2002, foi o toque de fotojornalismo oriundo dos 7 anos que passou noJornal do Commercio que certamente deu plástica ao corpo de tantos ensaios premiados. Mas ainda é mesmo o estudo sobre culturas locais, o envolvimento com pessoas e a observação que deu alma ao trabalho.

E não é só nos cílios clarinhos dessas três crianças naturalmente atraentes de Pernambuco que dorme a alma do fotógrafo. Perto dali, noutro momento, Severo também documenta a Missa do Vaqueiro, em Serrita, e de repente vemos trajes do cangaço, cavalos e homens de fisionomia sincera.

Num momento, vemos trabalhadores imigrantes japoneses em São Paulo – a mesma São Paulo que tem rabinos de passos apressados pelas avenidas e jovens tatuados. Em outro, a informação visual dos Sertanejos, as comunidades mais afastadas do Nordeste em retratos que parecem, senão próximos, familiares. A alma sempre ali.

No texto de apresentação do ensaio Vazios, encontro algo que possivelmente validaria esse argumento: “Segundo Platão, em Fedro, há dois tipos de almas: as que habitam o plano divino, onde conseguem enxergar o âmago das coisas e se alimentam do que é belo, sábio e bom; o outro tipo mal consegue contemplar as essências, uma vez que não conseguiu chegar na verdade e se satisfaz com a opinião. A alma nobre permanece elevada e compartilha a abóbada celeste com os deuses. A alma que não consegue enxergar a verdade, cai no plano terrestre e é incorporada pelo homem. Nessa alma, o que prevalece é a aparência das coisas. Uma vez que o que difere o homem é sua alma, aqui, na terra, somos todos iguais à espera dessa entidade caída“.

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