Contra violência em SP, motociclistas usam fantasias e rapel em pontes

Os amigos Seg, Ursão e Papy, como são conhecidos, se fantasiam de super-heróis para protestar contra a violência em SP Foto: Fernando Borges / Terra

Os amigos Seg, Ursão e Papy, como são conhecidos, se fantasiam de super-heróis para protestar contra a violência em SP
Foto: Fernando Borges / Terra

Marina Novaes e Vagner Magalhães, no Terra

A cara de mau engana quem vê de longe os integrantes do Parceiros Moto Clube, um grupo de amigos da zona sul de São Paulo, que há 11 anos realiza anualmente uma festa de Natal comunitária para distribuir presentes às crianças da região do Campo Limpo, na capital paulista. Ao som de clássicos do rock n’ roll – como os de Jimi Hendrix, Led Zeppelin e do brasileiro Raul Seixas -, vestidos de jaquetas de couro e com muitos anéis de caveira nos dedos das mãos, os rapazes fazem a alegria da garotada que resistiu à chuva e fez fila para ganhar do Papai-Noel (um voluntário barbudo dono de uma oficina de motos) um dos itens da lista de presentes do “bom velhinho”: bolas, carrinhos, bonecas e triciclos.

Acostumados a botar a mão na massa, Jorge Edilson Giordano, o Papy; Gleyzon Dias, o Ursão (Shrek); Fábio Gonzales, o Seg, e seus amigos também decidiram mobilizar protestos contra a onda de violência na cidade, após a morte de um amigo policial militar. Nascia então, de maneira informal, o movimento “Loucos Pela Paz”. Em todas as “escaladas” e descidas de viadutos, em que se fantasiam, foram detidos por policiais. A ideia de fazer rapel em viadutos não agrada a todos os parceiros – muitos têm medo que os amigos se machuquem gravemente em uma das tentativas, ou que sejam presos de vez.

“Primeiro, fizemos um protesto em um muro e a Prefeitura apagou tudo. Era um protesto era contra a violência. Quando eles apagaram, a gente fez o mesmo protesto na avenida Carlos Caldeira e na estrada de Itapecerica. Aí a Prefeitura apagou de novo”, diz Ursão, um dos membros da “equipe”. Injuriado, ele juntou os amigos e teve uma idéia: “Vamos para a ponte”. Ele explica a estratégia: “Primeiro fomos na João Dias, depois na Ponte Estaiada, utilizando as mesmas técnicas”. Semanas depois seguiram para a avenida 23 de Maio e para a avenida dos Bandeirantes, em frente ao aeroporto de Congonhas.

Em todas as vezes acabaram detidos pela polícia, mas segundo eles, tiveram sempre boa vontade dos delegados. “Eles ficam um pouco surpresos ao verem a gente chegando na delegacia. Sempre dão um sermão, apreendem nossos apetrechos, mas nos liberam em seguida”, diz Ursão.

Ele conta que quer continuar e ampliar o movimento. “Nós queremos organizar agora um abaixo-assinado virtual para protestar contra a violência e a insegurança. Tentar reunir assinaturas para mostrar que é a situação é séria.” Questionado se tem medo de retaliação, ele nega: “a gente não está fazendo mal a ninguém. Não estamos denunciando ninguém, nem prejudicando ninguém. A gente só quer a paz, não dá pra continuar a viver com medo”, afirma.

Pouco antes do Natal, fantasiados de Zorro, Batman e Homem das Cavernas, Ursão, Seg e Papy foram a Brasília na tentativa de conversar com os senadores paulistas. Foram recebidos pelo suplente de Marta Suplicy (PT), Antonio Carlos Rodrigues (PR), mas não encontraram Eduardo Suplicy (PT) e Aloysio Nunes Ferreira (PSDB).

Comunidade 
Um dos idealizadores do projeto, o comerciante Papy, como é conhecido graças ao perfil “paterno” (disfarçado sob a longa barba e as madeixas compridas), diz que cansou de esperar uma atitude do poder público e decidiu “fazer sua parte”, como ele diz, para ajudar a comunidade onde vive. Casado, pai de dois filhos (um menino e uma menina, que tem uma grave deficiência que a impede de se locomover), o dono de uma loja e acessórios “exóticos” para motocicletas construiu em sua casa um espaço para juntar as doações e fazer o quartel-general do grupo, que, além da festa de Natal, ainda promove ações semelhantes em um orfanato da cidade na Páscoa. Durante o ano também arrecada muletas e cadeiras de rodas.

“Eu sempre faço questão de que as pessoas que ajudam venham aqui conhecer o nosso trabalho, ver a casinha (onde ele mora e as doações ficam guardadas), ver pra onde vai a doação dela. Nós conseguimos este ano arrecadar uns 400 brinquedos, e montamos kits para as meninas e para os meninos. Também vamos sortear dois videogames, dois computadores usados, uma televisão de 29 polegadas e oito cestas básicas”, conta, orgulhoso, exibindo os itens.

O grupo passou cerca de três meses arrecadando os brinquedos e dinheiro para custear a festa. “Cada um deu o que pôde. Juntamos R$ 5 daqui, R$ 2 dali, teve gente que deu R$ 20. Então cada um contribuiu com o que podia”, disse um dos integrantes do grupo, que exibe a nota fiscal do que foi comprado. “A gente sempre guarda as notas para as pessoas saberem para onde o dinheiro delas está indo”, comentou Papy.

Sobre suas motos, passaram pelas casas da região entregando senhas às famílias que queriam ver seus filhos na festa, e avisando aos vizinhos que, das 9h às 22h, a pacata rua La Condamine, no Jardim Caiçara, ficaria “fechada” – ou melhor, aberta -, para a festa de fim de ano, que ocorreu em um sábado chuvoso de dezembro. O grupo também distribuiu panfletos divulgando a festa, nos quais o desenho do “Papai-Noel motoqueiro” já dá o tom de como será o evento. Os vizinhos não se incomodam, e alguns até cedem espaço para ajudar na organização: uma garagem vira refeitório, o telhado de duas casas vira ponto de apoio para montar a tenda contra a chuva.

Com a ajuda de amigos e moradores da região, os motociclistas tomaram a rua com piscina de bolinhas, camas elásticas e castelos infláveis. No cardápio, cachorro-quente, bolo de doce de leite, pipoca e algodão-doce (os “parceiros” conseguiram as máquinas de pipoca e algodão-doce com amigos simpáticos à causa).

E na programação, além da visita dos Papais-Noéis (a festa contou com três ilustres “velhinhos”, sendo que dois deles chegaram sobre seus “trenós” motorizados), havia um Shrek, o ogro verde interpretado por Ursão, o mesmo que anda se pendurando em viadutos da cidade contra a onda de violência na capital paulista. Depois das 16h, a festa é dos adultos, com bandas de rock e mais sorteios de brindes, como computadores e TVs usadas.

“Quem vê o pessoal se assusta, mas todo mundo trabalha aqui. Tem professor aqui, comerciante, motoristas, ninguém é desocupado”, diz Tânia Chaves, professora (ela e o marido estão entre os integrantes mais novos do grupo).

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