Tudo novo, de novo

Bruno Medina, no G1Pagina em branco BKOG 1

Em janeiro, ela vai se apaixonar, perdidamente; pela página em branco, pelo princípio de um movimento qualquer, pela iminência de viver algo novo e incomparável, algo que só neste ano poderia haver. Ela adora inícios. A sensação de não saber onde pisa, de tatear os rumos, de se deixar levar pelo primeiro vento que sopra.

Em fevereiro, ela vai se permitir ir um pouco além, pisar fora das linhas de segurança, olhar o próprio mundo de cima de uma árvore – de um outro quintal, quem sabe – sentir o calor do asfalto com os dedos dos pés, abraçar a vida como faria o mais dedicado dos foliões em plena quarta-feira de cinzas.

Em março, ela vai de encontro às tempestades. Sapatear nas poças de chuva, se sujar de lama até os joelhos, dormir ao relento, desdenhar do acaso. Vai se esquecer dos planos, dos amigos, do emprego e de tudo que é cabível, apenas para conhecer a extensão de seus limites.

Em abril, ela vai se olhar no espelho e enxergar que o verão terminou. Foi-se o tempo da picardia, da angústia e da afobação, dos exageros. É chegado o momento de pôr ordem na casa e voltar-se para si, sem sobressaltos, de experimentar a plenitude reservada aos que sabem que viveram intensamente.

Em maio, ela vai chorar. Não de felicidade, tão pouco por desgosto ou remorso, mas talvez por reconhecer a precária beleza do instante em que tudo está por um fio. O que ela foi e o que pretendia ser, agora, são como duas metades estranhas que se distanciam, um corpo que se desmembra sem qualquer resistência.

Em junho, ela vai adormecer profundamente e sonhar com o que está por vir. No sonho ela alcança o que buscava, no entanto, distraída pela inédita sensação de satisfação e alívio, desperta, sem conseguir lembrar-se do que era. Ao abrir os olhos, o que há para ser contemplado é o vazio.

Em julho, ela vai esmorecer. O ano chegou à metade e a impressão é de que todo o caminho foi percorrido em vão. Pela janela do quarto, parece que a cidade também parou: o ar gelado das manhãs escuras, os galhos lisos nas árvores e o silêncio das ruas só reforçam o desejo de nada ser.

Em agosto, ela vai hesitar; os dias de estagnação e dúvida se foram, cedendo lugar à lembrança do que estava em perspectiva durante os primeiros meses do ano. Se o tempo provou que não eram planos viáveis, eis a oportunidade para elaborar outros, mais passíveis de se concretizar.

Em setembro, ela vai voltar a acreditar em si mesma, aprender a conviver com as lacunas, com a falta de certezas, e a deixar-se permear pelo que está em volta. É primavera e, afinal, o que significa o espocar das flores senão o prenúncio do recomeço?

Em outubro, ela vai arregaçar as mangas, remexer a terra e dedicar-se à labuta, varar noites e noites elocubrando maneiras de reaver seus sonhos, estes que lamentavelmente se perderam ao longo do percurso.

Em novembro, ela vai sorrir e agradecer aos céus por sentir mais uma vez o ímpeto da transformação correndo nas veias, e por enfim compreender o imutável ciclo que rege sua existência: esvaziar o que está cheio para preencher o que está vazio.

Em dezembro, ela vai se despir de antigas convicções e, serena, abandonar o conforto de saber o que é para entregar-se às imprevisíveis possibilidades do novo, de novo. É sempre assim que acontece. Ao longe, já se faz sentir a brisa morna que anuncia o verão; é tempo de, mais uma vez, apaixonar-se pela página em branco.

Feliz Ano Novo! E que 2013 seja, para todos nós, repleto de conquistas e de intensidade!

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