Torcer a favor

Imagem: Internet

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Marina Silva

Muitos se apressam a desejar “feliz 2014″, com expectativa de sucesso na eleição como resultado de uma aposta na economia. Os números em jogo são os do PIB: governistas querem um “pibão” que expresse rapidez no crescimento, a oposição torce por mais um ano de “pibinho”. Perde-se tempo nessa combinação de equívocos.

Todos sabem que o PIB mede quantidade, e não qualidade da atividade econômica. Seu aumento não representa necessariamente melhoria em educação, saúde e outras dimensões relevantes da vida, pode até embutir uma degradação cujo efeito nefasto será sentido no futuro. Apostar apenas nele, contra ou a favor, é manter a ilusão do crescimento que impede a visão do desenvolvimento sustentável e da mudança civilizatória necessária para enfrentar a crise global.

Desmatamento gera emprego e renda? Pois imaginemos a quantidade e a qualidade muito maior do trabalho e da riqueza gerados pelo sábio aproveitamento das florestas.

Grandes usinas são necessárias à produção de energia para as indústrias? Imaginemos a energia limpa, abundante e distribuída para todos que pode ser gerada em pequenas unidades regionais de matrizes diversas: água, vento, sol e plantas, diminuindo a dependência dos combustíveis fósseis. Para completar, imaginemos a riqueza e o bem-estar em longo prazo que resulta do investimento em educação e ciência, arte e cultura, tecnologia e criatividade.

Os índices expressam ideia de economia focada no aspecto monetário, importante, mas insuficiente até na gestão de uma empresa, quanto mais no desenvolvimento de um país.

O equívoco se agrava na dimensão ética: torcer pelo fracasso ou pelo sucesso, na postura do “quanto pior para eles, melhor para nós”, é condicionar a solidariedade –humana ou mesmo nacional– ao domínio de uma facção.

Essa sede de poder é resquício dos totalitarismos do século passado, que precisamos superar por uma nova qualidade da ação política. Em vez da inercial disputa em patamares rebaixados, nosso desafio é fazê-la a partir do reconhecimento dos ganhos e da manutenção do que é justo e estratégico ao país.

2013 não é só a antessala de uma disputa eleitoral, é uma oportunidade de redefinir projetos e prioridades. Bem entendem isso os prefeitos que iniciam sua gestão com esperança de fazer, em suas cidades, algo além de manter o trânsito engarrafado, a coleta do lixo e as facilidades do mercado imobiliário.

A crise, que não é só econômica, nos dá oportunidade de rever padrões sociais que nos dominam desde o período colonial, assim como a Europa está às voltas com conflitos que têm origem na Idade Média.

Desadaptar-se dá trabalho. Mas já sabemos, nos disse o poeta, que vale a pena, se a alma não é pequena.

fonte: Folha de S.Paulo

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