A Xerém que Zeca Pagodinho não viu

Leonardo Alves de Lima, na Revista Crase

A ocupação das margens do rio Capivari em Xerém tem uma história recente se comparado aos dois movimentos migratórios que fizeram a baixada fluminense ser ocupada, primeiro nos anos 1930 e mais tarde na década de 1970. Nos últimos quinze anos as margens daquele rio iam sendo ocupadas e assoreadas à medida que igrejas, empresários e mesmo pessoas físicas adquiriam sítios para seus eventos transformando antigas propriedades familiares em sofisticadas ilhas de diversão em meio à pobreza do outro lado da rua.

Pode parecer óbvio ao leitor de um jornal ou ao telespectador do noticiário que não se deve construir às margens de rios, mas o fato de tais casas existirem teria como razão a simples ignorância de seus moradores? Tal questão deve ser devidamente problematizada. Primeiro pelo perfil da família daquele lugar que, de forma geral, são compostas de dois adultos economicamente ativos mais algo em torno de três a cinco crianças em idade escolar para o ensino fundamental e ainda a presença de um ou mais idosos cuja aposentadoria contribui para o orçamento familiar.

Das duas maiores empresas da região, a FNM – Fábrica Nacional de Motores que serviu no esforço de guerra americano construindo os motores dos bombardeiros da US Air Force na II Guerra Mundial – não existe mais e a Ciferal opera com mão de obra contratada de fora do distrito. Isso obriga ao morador a procurar emprego fora do bairro e de forma geral é na cidade do Rio de Janeiro que encontra. Há apenas uma linha de ônibus que faz o trajeto Xerém – Central do Brasil. A Trel – Transporte Rei Ltda – faz o que bem entende dispondo de poucos ônibus e poucos assentos a uma tarifa que mesmo com bilhete único custa mais de cinco reais. Por causa do rush o trabalhador acorda por volta das quatro horas da manhã e volta depois das dez da noite. Outro agravante é que em toda a cidade de Duque de Caxias há uma defasagem per capta do alunado que migra do ensino fundamental para o médio, isto é, há mais alunos e menos escolas o que favorece a evasão escolar. Não é incomum encontrarmos jovens de dezoito anos que sequer tenham cursado o ensino médio e vagam pelas ruas, pois sem escolaridade e qualificação lhes sobram os bares. Ainda em tempo, há somente uma universidade na cidade, que é particular e a promessa da construção de uma pública que ainda não se realizou.

Já em termos de consciência ambiental, os recentes esforços de conscientização, mesmo com o Rio de Janeiro abrigando grandes e importantes eventos como a Eco 92 e a Rio + 20 parecem ainda não ter atingido as camadas mais escolarizadas da região metropolitana. As escolhas de consumo não têm como prerrogativa a sustentabilidade, condomínios de luxo ainda derramam esgoto in natura no complexo lagunar de Jacarepaguá e os novos edifícios anunciados ao redor da menina dos olhos da prefeitura, o Porto Maravilha, não são sustentáveis, soma-se a isso à Comlurb, que coleta de modo seletivo menos de 8% do lixo da cidade, e isso apenas para citar alguns exemplos. Cidadãos ambientalmente conscientes existem, mas são poucos e são ainda mais escassos entre a população menos escolarizada da região metropolitana. Isso quer dizer que construir à beira de um rio nada tem haver com ignorância apenas, é uma questão que tem a sobrevivência familiar como prioridade uma vez que o acesso à: moradia, transporte público, água potável, lazer, saúde e educação são dificultadas pelo aparelho público. Como disse um político descarado: “O pobre tem que se virar”.

424013_410582019021718_1408637054_n-copyÉ preciso dizer que Duque de Caxias viu nos últimos vinte anos a alternância no poder municipal de duas famílias. Uma delas possui residência e tem como reduto eleitoral Xerém. A outra foi responsável pelos meses de abandono da cidade e fez de seu lema “Cidade limpa” o epíteto de seu governo. Irônico, não? O prefeito recentemente eleito é o primeiro a quebrar essa polarização do poder na cidade e possui assim a oportunidade de ser um chefe executivo a altura de sua função pública, mas ainda é muito cedo para qualquer prognóstico.

Por essas razões não é possível apontar apenas uma causa para as catástrofes que a cada verão tomam as headlines de pasquins e jornalecos de uma imprensa comprometida em cumprir a vontade de alguns. O que é possível dizer é que sim, é o fator humano nas relações coletivas que nos traz, nas palavras do maestro, “(…) o fim do caminho”.

O que o Zeca não viu é que seu simples aparecimento em rede nacional é uma ação política e não cabe a ele ou a nós o tal nojo comentado, pois somos humanos e impreterivelmente convivemos; alguns em sítios sofisticados e outros na beira do rio.

fotos: Lucas Gomes

dica do Paulo Cruz

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