Me empresta seus ouvidos?

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por Ana Cuentro

 

Nasci surda, mas não sei como aconteceu e nem meus pais sabem porque sou primeira e única deficiente auditiva na família. Esse detalhe me entristece muito, mas não demonstro a minha tristeza porque não quero deixar meus lindos pais culpados. Eles são t-u-d-o na minha vida. Devo muito, senão não estaria aqui conversando com vocês, nem assistiria filmes, leria livros ou poderia paquerar os quadros de Frida.

O problema de ser surda é que não consigo acompanhar o ritmo das conversas em grupo ou até com só mais uma pessoa, mesmo com o aparelho auditivo. Mas fico de boa observando meus amigos. Quando eles riem eu rio, mesmo sem entender. O som da risada me agrada, mas queria saber qual foi a história ou a piada. Às vezes peço pra repetirem, mas repetir toda hora é muito aborrecedor. É preciso paciência, mas desisti. Porque já tentei e eles ficam longe de mim pra não terem uma explosão de raiva.

Fico triste, rolam umas lágrimas e umas tremidinhas no queixo, mas consigo não demonstrar e eles raramente percebem como me sinto. Já superei o fato de ser surda, mas velho, queria pelo menos ouvir de verdade. Como seria conversar por telefone, conversar sem precisar “ler” os lábios da pessoa, uma pessoa bonita falando no seu ouvido na balada, reconhecer músicas e cantar certinho.

Acho muita tolice e perda de tempo ficar triste, porque não há tanta gente assim que nem eu que está em uma Universidade federal, quase pra se formar, já quer começar outro curso superior, está aprendendo espanhol e tem muitos outros planos. Tudo isso é uma vitória.  Sim, eu sou oralizada. Falo, mas nem sempre me entendem. Repito, repito, repito até ficar com a garganta dolorida. Eu falo bem, mas tenho um sotaquezinho, não “o de surdo”, não sei como descrever. É um sotaque distinto para cada pessoa. Ora francesa, ora sueca.

Amo ir pra balada, danço e sinto as batidas graves no meu coração, no meu corpo. Amo ouvir música, principalmente, música clássica. Mas não compreendo as letras das músicas, o que é um saco. Aí passo um tempo sem ouvir por simplesmente não conseguir. Novamente, viro aquela pessoa triste e tola.
Tento pensar sempre em Emmanuelle Laborit, uma atriz surda francesa que fala por libras, quando estou na miséria emocional. Ela ganhou um prêmio Molière de atriz revelação por “Os filhos do Silêncio”. Cara, se ela conseguiu algo tão importante como ser reconhecida pelo seu talento, eu também vou conseguir. Vou lutar e deixar de ser tolinha.

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