Alcoolismo é uma forma de religião, dizem psicanalistas

Maureen Miranda

Iara Biderman, na Folha de S.Paulo

O que define o alcoólatra não é a dependência química, afirmam os psicanalistas Antônio Alves Xavier e Emir Tomazelli, autores de “Idealcoolismo” (Casa do Psicólogo, 282 págs., R$ 47).

Baseados em dez anos de pesquisa com mais de 5.000 pessoas em tratamento para alcoolismo, os autores chegaram à conclusão de que o alcoólatra é, antes de tudo, um fanático de uma religião individual e autocentrada.

Em entrevista à Folha, os dois explicam sua teoria e o tratamento para alcoolismo que criaram a partir dela.

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Folha – Por que os srs. comparam o alcoólatra a um fanático religioso?
Antonio Alves Xavier – Porque ele transforma a bebida em uma substância divina. Ao beber o ‘deus álcool’, comunga com essa substância e acredita que vira deus, não tem que enfrentar as limitações e frustações de ser humano. Vira todo-poderoso e se entrega a esse ídolo que o faz se sentir onipotente.

No livro, isso é definido como uma forma de religião degradada. O que significa?
Xavier – Não há uma distância entre o crente e seu deus. Quando alguém toma a si próprio ou a alguma coisa existente no mundo como deus, cria uma religião degradada: a pessoa adora falsos ídolos, que, no caso do alcoólatra, é a bebida. Então acaba sendo uma idolatria.

A medicina trata como dependência química…
Xavier – A forma segundo a qual vem sendo tratada a questão do álcool e das drogas tem sido muito útil, mas é uma maneira sobretudo biologicista e medicinal de abordar o problema. Aprendemos muito com a medicina e as pesquisas farmacológicas, mas a nossa proposta é entender o papel da cultura e do psiquismo na construção do vício.
Emir Tomazelli – Não adianta, para o tratamento, pensar apenas que o corpo se vicia num sistema químico. O que interessa, para nós, é o que a pessoa faz, do ponto de vista psíquico, com a substância química que ingeriu.

O que o alcoólatra faz?
Tomazelli – Deixa de ser humano, de se responsabilizar pelo que faz com sua vida -a culpa é do álcool, não dele. E acaba perdendo sua parte ética, porque fica submerso em sua individualidade, sem considerar o outro.
Xavier – Ele é um indivíduo extremamente narcisista, não entra em contato e, vamos falar português claro, é um chato. Mas nós gostamos muito de trabalhar com alcoólatras, porque encontramos uma técnica de tratamento fundamental para a doença.

Qual é essa técnica?
Xavier – Chamamos de choque de humanidade. Tentamos dar referências concretas para ele perceber que é humano, limitado, frágil.
Tomazelli – Nós queremos que ele tenha culpa, mas não aquela autocomiseração narcisista de quem acha que não precisa se tratar. É uma culpa responsável. Ele precisa sentir tristeza, isso torna as pessoas mais humanas.

Não há risco de ele entrar em depressão?
Tomazelli – É uma tarefa difícil, mas não estamos falando de uma tristeza insuportável. É fazer a pessoa entrar em contato com pequenas doses diárias da realidade, na qual a alegria é constituída por um pouco de tristeza, ao contrário da euforia produzida pela bebida ou outras drogas.
Xavier – O álcool é uma droga potentemente depressiva. No primeiro momento, é estimulante, causa euforia. A excitação é usada pelo alcoólatra como calmante. Ele não precisa enfrentar suas angústias. O alívio vindo pelo excesso de estímulo faz o sujeito pirar, leva à autopunição e à depressão.

A família é fundamental no tratamento?
Tomazelli – Pode ajudar, mas nossa técnica é uma grande chance de o sujeito tomar sua loucura em suas próprias mãos.
Xavier – Em muitos casos, o alcoólatra é o para-raios da família. Todas as angústias individuais estão projetadas nele. Na hora em que ele vai sarando, os familiares são obrigados a lidar com suas próprias angústias. Por isso, não é incomum a família sabotar o tratamento.

E qual o papel da sociedade?
Xavier – A sociedade que instiga o alcoolismo é a mesma que o reprime. O prestígio que dá às bebidas é uma forma de idolatria. Se prestarmos atenção, prateleiras de bar, muitas com estátuas de santos no meio, são parecidas com um altar.
Tomazelli – Outro problema é que a sociedade é muito complacente, trata o alcoólatra com tapinhas nas costas. A própria ideia da dependência química ajuda a tirar a responsabilidade pessoal, como se o vício fosse uma fatalidade da natureza.

dica do João Marcos

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