“Santa Maria respira morte e clama por amor”

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Uma semana depois da tragédia, a cidade gaúcha é o retrato da falta de esperança. Voluntários pernambucanos do ‘Novo Jeito’ realizam ação #MaisAmor neste domingo

Isly Viana, especial para o Pavablog

Maria Francisca, de seis anos, não dá uma palavra há sete dias. Desde que a mãe, Crisley Caroline Saraiva, de 24 anos morreu na tragédia da boate Kiss, a garotinha com Síndome de Down demonstra a dificuldade para superar o trauma.

A dor de Maria Francisca é a mesma que se espalha pela cidade de Santa Maria. Um pesar que não se restringe apenas às vítimas e parentes dos que morreram naquela noite, mas que contagia a qualquer um que se aproxima. O grupo de voluntários pernambucanos do Novo Jeito não imaginava o que encontraria ao chegar na cidade. Todos estão em estado de choque. Segundo eles, Santa Maria respira morte. “O espírito na cidade é extremamente pessimista. Para se ter uma ideia, há policiais em todos os pontos altos da cidade e sobre as pontes para evitar suicídios. É um espírito de morte e de sede de justiça com as próprias mãos. Há pichações por toda parte com os dizeres: ‘cidade sepultura’”, revela Fabrício Cunha, voluntário do Novo Jeito.

Manifestações no domingo

Uma semana depois da tragédia, o domingo foi marcado pela solidariedade em Santa Maria. Pela manhã, mais de duas mil pessoas vestidas de branco caminharam juntas em torno do quarteirão da tragédia. No fim da tarde, realizaram um grande abraço coletivo, emprestando “ombros amigos” para quem não tem com quem compartilhar tanta dor, já que o sofrimento é de todos. São pessoas que não se conhecem, nem todas perderam parentes, mas vieram de todo o Brasil com um único objetivo: levar amor a quem enfrenta tanto sofrimento.

Nesse momento, o papel dos voluntários tem sido fundamental para reerguer corações. Os feridos estão sendo cuidados por equipes de saúde, mas a tristeza é algo que talvez só as mobilizações de amor poderão ajudar a suportar. Consolo, abraços, carinho. Chorar com os que choram. “Não dá para não se envolver. A cidade vive um clima de tristeza que parece estar no ar. A revolta está por todos os lugares. Ainda anestesiadas, muitas pessoas parecem “zumbis”: caminham sem parecer ter vida, marcadas pelo sofrimento.”, afirma Fabrício. Formado por cerca de 300 pessoas, o grupo Novo Jeito visitou também os hospitais onde estão internados os feridos. Os voluntários conversaram com vários deles, ouvindo seus relatos, sua tristeza. Estavam por perto quando todos receberam a notícia de que o Governo do Canadá enviara medicamentos para tratar queimaduras. Todos comemoraram mais uma ação de solidariedade.

Durante as mobilizações deste domingo, muita pessoas tentavam puxar gritos de guerra, de vingança, incentivar a revolta. O foco desses voluntários, no entanto, era “desarmar” as almas e incentivar o amor. Essa sim é a maior necessidade de quem vive a dor dessa tragédia. Ao contrário do que acontece em outros episódios de catástrofes, como enchentes, por exemplo, em que os desabrigados precisam de roupas, comida, remédios, atendimento médico, em Santa Maria a necessidade é uma só: amor. A cidade vive um clima de ódio, revolta, sede de justiça, vingança.

Faltam ombros para acolher tanto sofrimento e ainda vai levar um tempo para a cidade se recuperar. Santa Maria clama por amor.

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