A casinha espiritual de Julia Rodrigues

Nikita

publicado no Epimenta

Nikita

Julia Rodrigues tem um olho invulgar.

Aos 26 anos, a carioca desponta como uma das mais promissoras fotógrafas de sua geração.

Seu trabalho já apareceu nas páginas das revistas VIP, Veja, Época,

Vogue RG, Claudia, Capricho, Gloss, Quatro Rodas, Info,

Prazeres da Mesa e e São Paulo, a revista da Folha.

Mas se você visita o Tumblr da moça verá um pouco do trabalho autoral, de que gosto bastante. Fui falar com a Julia para entender melhor.

Julia e os amigos da Casinha Cósmica; ela é primeira no alto à esquerda

Julia e os amigos da Casinha Cósmica; ela é primeira no alto à esquerda

O projeto Casinha do Retiro Espiritual Cósmico

“É uma brincadeira que me ajuda a organizar o pensamento. Estou numa fase de entender o quê (e se) quero dizer alguma coisa mais pessoal. Então resolvi fazer um inventário de todo mundo que passa pela minha vida e pela Casinha do Retiro Espiritual Cósmico, que é o lugar onde eu moro com os meus amigos. O nome surgiu quando chamei o pessoal para dividir a casa, queria deixar bem claro que não seria bagunça. Doce ilusão. A gente recebe muita visita e foi justamente durante uma conversa entre amigos na cozinha que surgiu o primeiro retrato. A parede, a luz e o enquadramento são sempre os mesmos da primeira foto, mas cada retratado faz o que bem entende quando vai para a frente da câmera.

Jenny

Jenny

Convidados Intergaláticos

A maioria pede pra ser dirigida. Imagino que assim se sintam mais livres pra criar um personagem, sem medo de parecerem “ridiculos”. Pra mim “Convidados Intergaláticos” é uma maneira leve de aprender a lidar com os egos e entender como dirigir melhor um personagem. E eu sei, o nome é bem retardado, se eu soubesse que daria uma entrevista sobre isso, teria pensado em um nome melhor.

Marina

Marina

Carreira

Sou designer visual de formação e passei boa parte da infância em ambientes de ateliê, cercada de artes plásticas. Acho que sempre soube que trabalharia com algo relacionado a imagem. Logo que saí da faculdade fui fazer assistência para o fotógrafo Ernani d’Almeida, passei mais de um ano carregando muita mala, tomando bastante esporro, conhecendo muita gente e aprendendo fotografia na prática.

Nay

Nay

Jorge Bispo

Logo depois fui assistente do Jorge Bispo, foi um momento importante para entender que o que eu queria fazer mesmo era retrato. Como retratista, o fotógrafo tem permissão de fazer um contato mais profundo com as pessoas. Eu mesma como viro um personagem. Às vezes esse papel te dá livre acesso à intimidade de uma pessoa. Sou um pouco tímida e vi nessa profissão uma maneira de interagir.

Ariane Cerqueira para VIP

Ariane Cerqueira para VIP

Influências

Vi muito Man Ray, Carlos Zéfiro e Niki di Saint Phalle em casa. Na fase do autorretrato pirava na Francesca Woodman e na Cindy Sherman. Acho que as referências eternas são a Diane Arbus, Helmut Newton, Richard Avedon, August Sander, Mapplethorpe, Inez & Vinoodh, Annie Leibovitz e mais uma galera. Comprei um livro há pouco tempo chamado “Haunted Air” que é uma compilação do Ossian Brown de retratos de halloween de 1875 até 1955, é incrível. Tem a revista Treats também, os ensaios são de cair o queixo. Por último, mas não menos importante, tem o Tumblr. Sei que não é uma referência específica, sigo algumas centenas de blogs entre portfolios de fotografia, eróticos, retrato e moda. É uma avalanche de informação e sempre dá para pescar alguma referência útil e interessante.

Vallery

Vallery

Internet e a fotografia erótica

A internet tornou a fotografia erótica mais acessível. Sendo mais acessível, fica mais aceitável. As pessoas se sentem mais livres para produzir, divulgar e dizer que gostam também. Às vezes me pego vendo uns tumblrs de sacanagem no meio do metrô, esse tipo de acesso era inimaginável há pouco mais de uma década. Antes o público só tinha acesso a esse tipo de coisa em revistas e livros, agora as fontes são quase infinitas.

Kellen

Kellen

Erotismo versus vulgaridade

Depende do cenário em que é apresentado e do ambiente social de quem está recebendo a mensagem. Um nu do Avedon pode ser julgado como uma safadeza sem fim. Uma foto de um genital clicada sem preocupação artística aparente pode ser considerada uma obra de arte dentro de um contexto especifico.

Michel

Michel

E o Terry Richardson, é vulgar?
Se for no sentido do medíocre, acho que não. O cara deu um jeito de transformar o método cru, a direção “naughty” e a luz dura e direta em referência forte na fotografia. No sentido vulgar/vil também acho que não, mas aí a gente volta à linha tênue entre erotismo e vulgaridade, dependendo do que se tem como referência, pode ser diabo ou santo.

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