Blogueiro chinês ganha fama ao denunciar escândalos

Zhu Ruifeng no escritório de sua casa, em Pequim Foto: Sim Chi Yin / NYTNS

Zhu Ruifeng no escritório de sua casa, em Pequim Foto: Sim Chi Yin / NYTNS

Andrew Jacobs, no The New York Times [via Zero Hora]

Pequim Com os cinco celulares tocando sem parar, não é fácil hoje em dia obter a atenção integral de Zhu Ruifeng, cidadão autoproclamado jornalista cuja campanha freelance contra a corrupção lhe rendeu a fama de um astro pop e produziu arrepios nas autoridades chinesas.

— Psiu, estou falando com a BBC no telefone — ele afirmou numa tarde recente, silenciando a turma de assistentes e jornalistas que se reunia na livraria onde é cortejado quase todos os dias.

Ex-operário migrante cuja formação parou no ensino médio, Zhu se tornou uma sensação da noite para o dia na China após a publicação na internet do vídeo gravado em segredo de uma mulher de 18 anos mantendo relações sexuais com uma autoridade pouco atraente de 57 anos, de Chongqing, cidade a sudoeste do país. O homem perdeu o cargo. Zhu ganhou pelo menos um milhão de seguidores do então novo microblog.

A denúncia foi apenas o ato de abertura, conta Zhu. Ele promete divulgar outros seis vídeos de sexo que farão diversos outros homens sumir de circulação.

— Estou lutando uma guerra — ele disse com a característica voz quase gritada e em tom pretensioso. — Mesmo que eu apanhe até morrer, não revelo minhas fontes nem os vídeos.

Sem surpresas, Zhu, 43 anos, conquistou alguns inimigos dentro do governo. No final de janeiro, cinco homens apareceram em seu apartamento portando crachás da segurança estatal. Enquanto batiam na porta da frente trancada, Zhu discou para jornalistas estrangeiros, enviou torpedos para os advogados e enviou um SOS eletrônico à multidão. Os agentes só foram embora após ele haver prometido comparecer para prestar esclarecimentos na manhã seguinte.

No dia seguinte, ele emergiu da delegacia de polícia como um boxeador triunfante, contando aos partidários que o esperavam como passara a perna verbalmente nos investigadores durante as sete horas de interrogatório.

— Eu os desafiei a me botar na cadeia e ver quantos prêmios de direitos humanos e de jornalismo eu ganho — ele gritou de satisfação. — No fim das contas, ficaram brancos de medo.

Logicamente, é impossível confirmar a afirmativa de Zhu. Porém, seu comportamento arrogante e a indignação entusiasmada vieram a personificar a fúria popular contra a prevaricação oficial que floresceu em conjunto com o tórrido crescimento econômico chinês. Ele também se tornou uma espécie de prova dos nove do grau de comprometimento dos novos líderes do país em sua batalha contra a corrupção, e se vão tolerar um paladino populista feito Zhu.

Como ele não tem diploma de jornalista concedido pelo Estado, Zhu ocupa uma tênue zona cinza, explicando em parte seu pendor por cercar-se de repórteres e partidários; pessoas que, para ele, podem reduzir a probabilidade de seu desaparecimento no buraco negro do aparato de segurança estatal.

— Aqui em solo chinês, é quase impossível para jornalistas cidadãos como ele sobreviverem a longo prazo — afirmou Zhan Jiang, acadêmico de mídia da Universidade de Estudos Internacionais de Pequim.

Diante disso, as metas de Zhu harmonizam-se perfeitamente com as de Xi Jinping, o novo líder do Partido Comunista que deve se tornar presidente em março. Desde a posse, em novembro, Xi vem investindo regularmente contra a corrupção sistêmica, avisando que autoridades de todos os escalões – tanto os “tigres” quanto as “moscas”, em suas palavras – devem ser levados à justiça.

Até agora, os resultados são mínimos. Intencionalmente ou não, as lamentações de Xi inspiraram perseguidores de escândalos freelance como Zhu a se aproveitar do momento e alvejar autoridades malcomportadas com a ajuda da internet. As denúncias costumam começar com a dica de uma amante rejeitada ou parceiro desleal e terminam com a exposição online que força as autoridades a agir, e a imprensa controlada pelo Estado a tomar ciência do fato.

O antepasto diário de cobiça e licenciosidade oficiais se tornou de tão difícil manejo que os jornais começaram a publicar gráficos para os leitores acompanharem o destino dos implicados e sua pilhagem. Um dos exemplos é o da ex-bancária particularmente voraz da província de Shaanxi, Gong Ai’ai, popularmente conhecida como “Irmã das Casas” por ter transformado propinas e comissões numa carteira imobiliária de 41 apartamentos em Pequim.

Até agora, a autoridade mais graduada a ser denunciada foi Liu Tienan, o principal regulador de energia da nação, sob investigação por conta da acusação de ter mentido sobre os diplomas acadêmicos, conspirado com um empresário para embolsar de forma fraudulenta empréstimos bancários e ameaçado matar uma antiga amante.

Zhu, que abriu o site em 2006, depende em grande medida de informantes para canalizar evidências prejudiciais até ele. Segundo afirma, ao longo dos anos Zhu denunciou cem autoridades, derrubando mais de um terço delas. O blogueiro foi ameaçado e apanhou; de acordo com Zhu, mais de uma vez ele recebeu ofertas de enormes quantias de dinheiro para apagar uma postagem incriminadora de seu site, chamado Supervisão Popular.

As imagens comprometedoras de Lei Zhengfu, a autoridade de Chongqing filmada fazendo sexo com a moça de 18 anos, foram uma espécie de grande prêmio contra a corrupção para o blogueiro. Onze autoridades renunciaram ou foram demitidas de seu papel num complô organizado por executivos de negócios tentando subornar burocratas poderosos para conseguir contratos estatais. O esquema terminou fracassando, mas as fitas terminaram nas mãos da polícia de Chongqing. Segundo Zhu, como os investigadores não agiram, uma pessoa irritada dentro da divisão enviou a prova para ele.

Numa sociedade assolada pela velhacaria, mentiras e compadrio oficial, Zhu sustenta que os cidadãos comuns têm de confiar na internet para retaliar, mesmo que isso signifique tumultuar a justiça. — Antigamente nós falávamos que quando havia um problema, deveríamos procurar a polícia. Agora, dizemos que quando se tem um problema, devemos procurar os internautas.

A notoriedade de Zhu atraiu uma série de opositores, incluindo alguns jornalistas chineses que criticam seu desejo de autopromoção e questionam a fonte de seu financiamento.

A insinuação de que Zhu não tem boas intenções se alastrou tanto – “calúnia da mídia”, em suas palavras – que ele telefonou a um jornalista dando uma análise mais detalhada de suas finanças.

De acordo com o blogueiro, boa parte de sua renda vem do fornecimento de pesquisa a órgãos de imprensa estrangeiros ou de doações de partidários ricos. — Para eles, dez mil iuanes (cerca de US$ 1,6 mil) são como um centavo.

Segundo relata, a paixão por desmascarar e deixar de joelhos os poderosos está ligada à década em que ele passou trabalhando arduamente, misturando cimento e vendendo sapatos na província de Henan, onde cresceu. Em 2001, após investir as economias num pequeno hotel na cidade de Xinxiang, ele perdeu quase tudo quando o governo local desapropriou e demoliu a propriedade. A ação jurídica solicitando indenização não deu em nada.

— Foi quando descobri que os tribunais também mentem — ele disse.

A desilusão se tornou maior depois que Zhu assumiu a função de repórter numa publicação jurídica estatal patrocinada pela Suprema Corte do Povo. Nesse cargo, ele descobriu que na China a imprensa é em grande medida subordinada ao Partido Comunista.

Por ora, o Partido parece estar em conflito a respeito do blogueiro e sua mais recente blitz contra a corrupção. As autoridades ainda podem tirar o site do ar – ocorrência frequente no passado –, mas a agência de notícias estatal Xinhua divulgou uma reportagem levemente lisonjeira a respeito de seu confronto com agentes exigindo a entrega dos vídeos remanescentes.

Por outro lado, os censores vêm apagando de forma diligente as postagens no microblog; duas entrevistas recentes patrocinadas por dois dos mais populares portais de notícias da China foram apagadas no meio do dia.

Os anos noticiando escândalos cobraram um preço sobre sua vida pessoal. Ele disse que a esposa, oficial do Exército de Libertação Popular, tem sido molestada com frequência pelas autoridades, as quais ameaçaram impedir promoções ou transferi-la a uma parte remota do país se ele não puser um fim à cruzada.

Pouco tempo atrás, Zhu vestiu o melhor terno e entrou num tribunal próximo de casa para solicitar o divórcio. Segundo ele, era a única maneira de proteger a esposa, mas o blogueiro também admite que ambos passaram a ver o mundo de forma diferente.

— Ela adora o uniforme, o Partido. Acho que ela ama mais o Partido do que a mim.

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