“Tudo o que alcancei na vida”: Lista encontrada na Bíblia da filha ajuda pai a superar dor da tragédia em Santa Maria

Homenagens continuam presas à fachada da boate Kiss, em Santa Maria (RS), quase um mês após o incêndio que deixou 239 mortos no local no dia 27 de janeiro. Um ato em homagem às vítimas está marcado para as 8h desta quarta-feira (27), quando a tragédia completa um mês.

Homenagens continuam presas à fachada da boate Kiss, em Santa Maria (RS), quase um mês após o incêndio que deixou 239 mortos no local no dia 27 de janeiro. Um ato em homagem às vítimas está marcado para as 8h desta quarta-feira (27), quando a tragédia completa um mês.

título original: Um mês após tragédia de Santa Maria (RS), pais de vítimas buscam força ajudando uns aos outros

Thiago Varella, no UOL

“Se me perguntassem há alguns meses como eu reagiria se perdesse um filho, eu diria que iria enlouquecer”, disse Ogier de Vargas Rosado, 51. Há um mês, seu filho, Vinícius Montardo Rosado, 26, morreu na tragédia da boate Kiss, em Santa Maria (RS). Outras 238 pessoas também perderam a vida no incêndio.

Ogier não enlouqueceu. Pelo contrário, o drama pessoal o deixou ainda mais lúcido. Tampouco parecia estar desesperado. O pai precisou aprender a juntar forças para conseguir passar pelo momento mais triste de sua vida.

Já no velório, Ogier começou a se dar conta que seu filho havia morrido tentando ajudar amigos a sair da boate. Saber que o jovem pensou no bem de outras pessoas durante um incêndio tão devastador ajudou o pai a aceitar a morte de Vinícius.

“Se ele tivesse sobrevivido, o corpo dele estaria conosco, mas acho que a alma ficaria na boate”, afirmou Ogier.

Conversar com outros pais de vítimas também auxiliou Ogier. Diante de famílias que perderam dois ou três filhos, ele se deu conta de que sua tragédia, por mais gigantesca que fosse, poderia ter sido ainda pior. Sua filha, Jéssica, 24, também estava na Kiss durante o incêndio, mas conseguiu se salvar.

Compartilhar a dor e, até mesmo, auxiliar quem está tendo dificuldade em lidar com a perda de um filho levou Ogier a colaborar com a recém-criada Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia em Santa Maria. Eleito diretor de Comunicação, ele trabalha para evitar que a história se repita.

“Estamos curando nossa dor, ajudando os outros. Os estudantes vão continuar querendo se divertir em Santa Maria. Preciso lutar para que essa diversão ocorra com total segurança”, disse.

História muito parecida tem o presidente da entidade, Adherbal Alves Jennefer Mendes FerreiraFerreira, 48, que perdeu a filha, Jennefer Mendes Ferreira (foto), 22, no incêndio.

Adherbal ficou arrasado. Sua vida parecia acabada em casa, já que a falta que sentia da sua filha era gigante e também no trabalho, já que a jovem era a gerente da loja da família.

No entanto, no sétimo dia após a tragédia, Adherbal decidiu reagir. No meio de uma missa em homenagem às vítimas, pediu o microfone para o padre e, em suas próprias palavras, “abraçou os outros pais usando o som”. Também sugeriu a criação de uma associação. No último sábado (23), foi eleito presidente da organização .

“Nunca fui membro de nada. Jamais achei que teria um cargo assim”, disse. Adherbal só aceitou assumir a associação porque viu, nas reuniões, que os outros pais estavam se sentindo bem naquele ambiente.

Ele decidiu, então, assumir essa missão como a coisa mais importante a se fazer de agora em diante. Além de ajudar os outros pais e buscar justiça –o que para ele é totalmente diferente de vingança–, quer, de alguma maneira, humanizar mais as pessoas.

Essa é a sua maneira de buscar forças para superar a dor.  Claro que momentos de choro e sofrimento, após apenas um mês, ainda surgem. Todos os dias, antes de dormir, Adherbal espera que consiga sonhar com a filha.

“Quero sonhar com ela todos os dias”, disse. “Para aliviar a saudade, passo um tempão no quarto dela. Virou meu santuário. Vou ali e rezo bastante.”

Há poucos dias, encontrou dentro de uma Bíblia uma lista, escrita por Jennefer, com tudo aquilo que já havia alcançado na vida.

Para cada item, a jovem fez um agradecimento a Deus. Ao ver aquilo, Adherbal sentiu que sua filha estava preparada para morrer em paz. “Aquilo me deu certo alívio. Acho que ela está bem”, desabafou.

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